VELHO CHICO

As águas do Rio São Francisco e os clamores do povo

Mais de 79% das águas do São Francisco são usadas para irrigação, efetivamente pelos grandes projetos do agronegócio

Brasil de Fato | Poço Redondo (SE)

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Menina bebe água do rio em Niterói, sertão de Sergipe / João Sinclair / Acervo CBHSF

“O Rio São Francisco está sentindo / Que o progresso está atropelando

Ô meu povo escute esse chamado / Não podemos jamais ficar calados

Nosso rio, de nossa luta, precisando!”

Tratar das questões ambientais e do Rio São Francisco é falar do modelo de desenvolvimento do sistema capitalista que se nutre da exploração dos trabalhadores e da natureza, bem como da atual conjuntura de golpe no país, que vem exigindo do povo lutas diárias para defender a vida, os direitos sociais, as empresas estatais, os territórios e os recursos naturais.

Em toda região semiárida é crescente na população a preocupação com a questão da água que se liga efetivamente ao São Francisco. Recentemente, sua vazão foi reduzida a 550 m³/s para evitar que os reservatórios chegassem ao volume morto. Os ribeirinhos temem o desaparecimento de um dos rios mais importante do país. Bem disse o Papa Francisco na sua recente encíclica: “É preciso cuidar do meio ambiente, da natureza como a casa comum, pois está ameaçada”.

Por isso, trazer à tona os impactos causados pela construção das barragens hidrelétricas é fundamental. Além do papel das empresas do agronegócio que avançam sobre os territórios com seus grandes projetos. Eles ameaçam, oprimem, expulsam o povo pescador, indígena, quilombola, camponês e se apropriam das terras e das águas. Mais de 79% das águas do São Francisco são usadas para irrigação, efetivamente pelos grandes projetos do agronegócio de fruticultura e cana de açúcar.

Diante do complexo cenário, precisamos afirmar que os recursos naturais devem estar sob o controle popular em seus territórios. Só assim teremos forças para um verdadeiro e amplo programa de revitalização e preservação dos biomas e rios brasileiros.

O ano de 2018 será, sem dúvidas, bastante decisivo para os rumos do país. A luta por direitos sociais, soberania nacional e pelo São Francisco está colocada. Precisaremos construir o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA) e o Congresso do Povo com muitos trabalhadores do campo e da cidade. Seguindo com a clareza de que muitas batalhas precisaremos vencer, acumulando força para assegurar uma vitória eleitoral da classe trabalhadora em 2018. É fato que os processos de mudança e transformações na sociedade só nascem da incansável luta do povo que se banha nas águas da esperança, da solidariedade, da ousadia e da resistência.

*Rafaela Alves é sergipana e da direção nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)


Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 0) da Expressão Sergipana. Confira a edição completa

Edição: Erick Feitosa