Coluna

Sobre auxílios e hipocrisia

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"É preciso nos questionarmos sobre que país é este, onde o que incomoda não é o auxílio do juiz, mas a política de combate à fome" / Reprodução
É preciso, na lógica da elite, humilhar o pobre, para que ele perca a dignidade

Foi de um grupo de WhatsApp que recebi o cartaz. Nele uma mulher, negra, deitada numa rede, pergunta ao telefone: "Alô, é da Caixa? Já depositaram meu Bolsa Família, Bolsa Escola, seguro desemprego?"

No momento em que se desnudam os "auxílios" que são, na verdade, privilégios a magistrados e políticos, deveríamos nos perguntar: em que país vivemos onde o auxílio-moradia de um juiz é superior ao salário de uma professora? Que valores temos ou queremos construir como sociedade? Também é preciso nos questionarmos sobre que país é este de desigualdades estruturais, onde o que incomoda não é o auxílio do juiz, mas a política de combate à fome! 

O deboche sobre políticas sociais desnuda a hipocrisia em nossa sociedade. O neoliberalismo tenta nos convencer que a meritocracia deve ser o maior valor de uma sociedade. Se você não tem algo, a culpa seria sua, pois você não teve mérito para conseguir. As pessoas passariam fome por mérito próprio. Estão desempregadas por mérito próprio. Não conseguiram concluir os estudos porque não se esforçaram o suficiente! É este o nosso problema? Não basta manter a injustiça social. É preciso, na lógica da elite, humilhar o pobre, para que ele perca a dignidade. E com isso a condição de lutar para mudar a sua realidade. É disso que se trata! 

Um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo é proprietário de 60 imóveis e recebe auxílio-moradia. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais "investe" R$53 milhões no mesmo auxílio, além dos juízes terem agora o direito de receber três meses de salário a mais, a cada cinco anos, a título de férias-prêmio. Também podem ser incentivados a manterem a leitura em dia com o auxílio-livro, superior ao salário de uma professora do estado com mestrado. A primeira votação da Assembleia Legislativa de Minas Gerais em 2015 foi o retorno do mesmo auxílio-moradia. Um Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, que tem salário de R$30 mil, também pode receber o seu auxílio-saúde que pode chegar a R$3 mil por mês!

No Rio de Janeiro, os membros do Ministério Público contam com auxílio-educação de quase R$1 mil por filho dependente de até 24 anos. Os Tribunais do Maranhão e São Paulo também "ajudam" seus desembargadores a comprarem livros, já que seus salários são insuficientes para este importante investimento, disponibilizando auxílios que podem chegar a R$5 mil. Um juiz de Curitiba justificou receber o auxílio para "compensar" a ausência de reajuste do salário de mais de R$25 mil. A que auxílio o povo recorre para compensar a política de austeridade em que é colocado? A que auxílio recorreremos nós, todos as professoras do Brasil, que não recebemos o Piso Salarial? A que auxílio recorrerá todos os Agentes Comunitários de Saúde que não recebem o Piso salarial? A que auxílio recorrerá o aposentado?

Num país com profundas e estruturais desigualdades, é o Bolsa Família - política que contribuiu para que milhares de famílias saíssem da pobreza extrema, seus filhos frequentassem a escola e tivessem acesso ao básico na saúde - o alvo do deboche. É novamente a mulher, "preguiçosa e que não trabalha" a imagem compartilhada. É ela quem está na rede, deitada, sem fazer nada querendo "benefícios do governo". O ataque à mulher também é estrutural na sociedade de desigualdades em que vivemos. Na realidade, as políticas públicas possibilitaram autonomia, empoderamento das mulheres. Isso, para a mesma elite, também precisa ser desfeito. 

Perdemos a chance de revolucionar a educação com o lucro do pré-sal. As empresas estrangeiras, além de terem embolsado nosso petróleo, poderão ser beneficiadas com isenções fiscais. Mas uma professora, cujo salário é menor do que o auxílio-moradia de um juiz ou de um deputado, paga mais de 50% do que recebe em impostos. Para ela, o Congresso Nacional não está votando nenhuma isenção. Para ela e todos os milhares que estão na escola pública, foi votado o congelamento de investimentos por 20 anos.

Nos colocaram numa arena como se tivéssemos num jogo de futebol. Não importa o argumento do time adversário. Ninguém escuta ninguém. Os debates ficam na superficialidade de “memes” colocados em pequenas bolhas, como grupos de WathsApp, que banalizam a violência, a mentira, a misoginia, o racismo. Depois de um texto fazendo apologia à tortura, alguém coloca um "bom dia" ou uma nova corrente de pensamentos e a vida segue, banalizando o que não deveria ser banalizado. 

Cuidemos de furar rapidamente estas bolhas! E confrontar não as políticas públicas que corrigem injustiças sociais, mas os auxílios que representam privilégios. Comecemos rápido! 

Edição: Joana Tavares