INTERIOR

Em fevereiro, Pernambuco é carnaval de ponta a ponta

Festas tradicionais e cultura popular atraem pessoas para cidades do interior do estado.

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

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As máscaras usadas pelos Caretas não trazem sorrisos, mas certamente são eles que trazem a alegria do carnaval / Cultura PE

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. A semana de alegria e cores já tem destinos consagrados em todo o Brasil, como o Rio de Janeiro, Salvador e a dobradinha pernambucana em Recife e Olinda. Mas, o que nem tanta gente sabe é que no interior de Pernambuco existem opções pra curtir a folia conhecendo a história e cultura do estado e com valores abaixo dos custos nas capitais. 

Triunfo

A cidade de Triunfo, no sertão do Pajeú é um cidade pequena, com cerca de 16 mil habitantes e já conhecia como o Oásis do Sertão. Contrariando o clima local, sua latitude de 1.010 m do nível do mar a consagra como um dos pontos mais altos do estado, o que garante temperaturas amenas até mesmo no verão. Na semana do carnaval, a cidade se transforma e vira pólo cultural para os municípios de Serra Talhada, Santa Cruz da Baixa Verde, Calumbi e outros próximos.

As ladeiras de paralelepípedo e as casas construidas no estilo colonial recebem cerca de 100 mil pessoas durante a festa, que reúne diversos pólos culturais para diferentes públicos. Bruna Florie é triunfense e depois de cinco anos morando no Recife volta a cidade natal para curtir o Carnaval “Estou bastante animada porque passei cinco anos fora e esse ano decidi ficar por aqui. O Carnaval de Triunfo tem uma raiz bastante popular e a programação contempla isso, mas também agrada quem gosta de outros ritmos com os pólos com atrações mais midiáticas e também a programação infantil”. Mesmo com a diversidade, os turistas vão a Triunfo em busca de uma figura típica do Carnaval da cidade, os Caretas. 

A figura existe há quase 100 anos. As máscaras usadas pelos personagens não trazem sorrisos, mas certamente são eles que trazem a alegria do carnaval para cidade com suas trecas, nome dado a um grupo de caretas que saem juntos. A brincadeira tem origem no Natal, quando dois Mateus de um reisado beberam demais e foram proibidos de participar do festejo. Como um modo de vingança, vestiram um paletó, amarraram retalhos de tecido no chapéu de palha, usaram máscaras e saíram pelas ruas fazendo barulho com chocalhos e chicotes. 

Hoje o traje é bem mais elaborado e colorido. Cada careta precisa fazer sua própria máscara e roupas, já que se ele encomenda a o serviço a alguém pode ser identificado, o que acabaria com o mistério da brincadeira. O traje consiste na máscara feita de jornal e cola grude, o chapéu cheio de fitas longas coloridas, camadas de roupa para dificultar a identificação do careta e uma tabuleta de madeira com uma frase escolhida pelo personagem e chocalhos. O chicote é um elemento á parte. Antigamente feito de couro, hoje é de corda, mas isso não atrapalha o desempenho do instrumento, que quando estala é possível ouvir a muitos metros de distância um estampido que se assemelha com um tiro e anuncia a chegada das trecas de caretas. 

Por muito tempo apenas os homens podiam ser caretas. As mulheres, inconformadas com a regra criaram também uma forma de brincar o Carnaval. Fizeram máscaras de careta e vestiram roupas de idosas, meia calça e chinelo de couro. As Veinhas, como foram batizadas pela cidade, circulam pelas ruas de Triunfo com sua bengala pedindo esmola e ajuda. Hoje, os papéis de gênero são menos rígidos: Mulheres participam das trecas e homens se vestem de veinhas. O importante aqui é manter o mistério e a alegria do carnaval. 

Pesqueira

A cidade fica no agreste pernambucano, a 215 km do Recife. Conhecida como a “Terra da graça, do doce e da renda” é a maior reduto indígena do nordeste, com 24 aldeias e cerca de 10 mil indígenas. É lá que uma das lendas do folclore brasileiro vira personagem principal do Carnaval. A Caipora, uma lenda popular, é uma figura noturna que assusta os caçadores quando a noite cai. Para que se distraiam, os caçadores colocavam cachaça e fumo no tronco das árvores como uma forma de oferta. A história sombria há 56 anos deu lugar a folia e ao personagem mais famoso do Carnaval da cidade. 

O primeiro grupo de caiporas surgiu numa mesa de bar. João Justino de Melo, criador oficial da fantasia e mais quatro amigos se fantasiaram com paletó e saco de estopa na cabeça para brincar o carnaval cantando “No carnaval dos caiporas eu vou me esbaldar. Não vejo, não vejo a hora do frevo começar”. Os homens casados se fantasiavam de caipora e os solteiros de outro personagem, a Bicha Maga. Poucos anos depois a brincadeira sumiu do Carnaval, com a morte de João e seus amigos e o boato de que a morte era certa para quem brincasse de Caipora no Carnaval. A viúva de João, Helena Rodrigues de Melo é quem cuida hoje da tradição.  São cerca de 30 caretas registrados na cidade, mas na semana da folia o número se multiplica. Guilherme Araújo, 24, nasceu em Pesqueira e conhece a tradição das Caiporas desde criança “A cidade respira Carnaval desde que eu sou criança, então sou muito acostumado a acordar nas manhãs de carnaval com as caiporas, grupos de frevo, brincadeiras e os blocos circulando nos bairros em direção á praça.”

A fantasia hoje é bem mais elaborada. O tênis é obrigatório. A calça é colorida e feita de cetim, contrastando com o paletó que é amarrado na cintura. O saco de estopa vai da cabeça até a cintura, criando a ilusão de que as caiporas são seres pequenos e com uma grande cabeça quadrada. O rosto de saco, pintado com cores fortes é uma alusão ao rosto do diabo. Assim como os Caretas em Triunfo, a brincadeira também guarda o mistério da identidade dos caiporas, que também não pode ser revelada.  

Em 2016, as Caiporas, assim como o Samba de Coco, o Xaxado e os Papangus de Bezerros foram registradas como Patrimônio Imaterial de Pernambuco pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). O registro é importante para a manutenção da tradição, mas não passa de mera formalidade para o povo de pesqueira, que sabe bem como ensinar a tradição de geração a geração. 

Edição: Monyse Ravena