Paralisação

"Dia 19 enterraremos de vez o desmonte da Previdência", afirma dirigente da CMP

Raimundo Bonfim afirma que clima de protestos do carnaval é um bom precedente para as mobilizações da próxima segunda

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Manifestantes protestam contra reforma da Previdência em passeata na Avenida Paulista - São Paulo (SP) - 15/03/2017 / Rovena Rosa / Agência Brasil

"Este carnaval foi uma expressão do povo muito importante que nos anima para o dia 19", disse o dirigente da Central dos Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, em referência às manifestações e protestos contra as medidas do governo golpista de Michel Temer, do MDB, na festa mais popular do país. A Frente Brasil Popular e as centrais sindicais marcaram para a próxima segunda-feira (19) um dia de mobilizações e ações para barrar a aprovação da reforma da Previdência. 

O prazo estipulado pelo governo para aprovar a reforma é até o fim de fevereiro. As perspectivas de aprovação são fracas. O próprio presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem dado sinais de que pode decidir pelo engavetamento da matéria. O governo precisa de 308 votos para a aprovação, número que Maia afirma não existir até o momento. 

Mesmo diante desse clima de debilidade do governo Temer e sua base aliada, Bonfim acredita que o governo pode não desistir da aprovação: "nós não acreditamos no engodo de que eles não tem votos, porque nós sabemos que são interesses muito poderosos que estão bancando esse desmonte da Previdência", diz o dirigente. 

Em um ano que iniciou cedo, com fortes mobilizações em defesa do direito de Lula ser candidato, Bonfim aponta dois momentos de lutas importantes neste semestre: o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, em 8 de março, e a construção do Congresso do Povo, que deve iniciar no fim de março e se encerrar em agosto. 

Confira a entrevista na íntegra.

Quais são as ações prevista para a próxima segunda-feira em todo o país?

É importante caracterizar o dia 19, será um Dia Nacional de Mobilizações, atos e greves em categorias também, contra a aprovação da reforma da Previdência. Nossas ações, como Central de Movimentos Populares (CMP) e Frente Brasil Popular (FBP), são manifestações, ações em vias públicas, atos na parte da manhã e ao final da tarde, sempre participando das organizações dos atos unitários, principalmente nas capitais. Estamos empenhados junto com a FBP para que a gente possa fazer um grande dia de luta para enterrar de uma vez por todas a proposta de desmonte da Previdência e o fim da aposentadoria. 

E nós não acreditamos no engodo de que eles não têm votos, porque nós sabemos que são interesses muito poderosos que estão bancando esse desmonte da Previdência, então, eles podem não jogar a toalha e estão na tentativa de aprovar. Por isso, é muito importante o dia 19 e a CMP e a FBP estão totalmente engajadas nessa data. 

Raimundo, comenta-se que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), poderia adiar ou inclusive engavetar a proposta da reforma. Diante disso, os movimentos vão manter esse dia de mobilizações?

Sim, vamos manter. O prazo deles, a não ser que eles decretem mesmo o fim, a retirada da proposta, é entre 21 e 28 de fevereiro. Só que nós dos movimentos sociais não temos condições de ficar reféns deles anunciar um dia, porque podem mudar esse dia de repente. Então, até pra organizar nossas ações, nossos atos, preparar as categorias, precisamos de um certo tempo. A mobilização do dia 19 está mantida. Eu não acho muito adequado o mote de "Se votar o Brasil vai parar", acho que o mote deveria ser: "Nós vamos parar para não votar". Tem que ser antes, pra enterrar essa proposta que não tem o mínimo compromisso com o povo. Aliás, em fevereiro de 2017, a sonegação fiscal atingiu 500 bilhões de reais, e nisso a reforma da Previdência não toca. As grandes empresas sonegam impostos, e isso é uma tragédia que a reforma não ataca, assim como os altos salários, os privilégios; haja vista os juízes burlando o teto constitucional com auxílio-moradia. Então, é uma proposta que visa favorecer o rentismo, os grupos privados, transferência de renda da classe trabalhadora para essa elite. Então, nossa tarefa enquanto movimento sindical e movimento popular é fazer um grande dia 19 pra que a gente possa de uma vez por todas enterrar essa proposta. E aí, no processo eleitoral, os candidatos que venham defender perante os eleitores o mote da reforma da Previdência, que é o fim da aposentadoria, porque 65 anos pra homem, 62 para a mulher, significa que as pessoas vão trabalhar, morrer e não conseguir se aposentar. 

Este ano tem começado de maneira intensa, com mobilizações em Porto Alegre, na semana em que o TRF-4 julgou o recurso da defesa de Lula no caso Triplex do Guarujá, e agora temos este dia de mobilizações no 19. Nesse contexto de começo de ano mobilizado, quais são as expectativas da CMP, tanto para esse dia, quanto para os próximos meses em termos de lutas? 

Mesmo em um mês difícil de mobilização, conseguimos fazer grandes mobilizações com o mote "Em defesa da democracia" e "Eleição sem Lula é fraude", em especial em Porto Alegre e São Paulo, mas também em outras capitais do Brasil. E estamos partindo pro dia 19 depois de um carnaval que teve muitos protestos. Não só no Rio de Janeiro, mas em várias partes do país, houve blocos, escolas de samba protestando contra essa situação de retirada de direitos da classe trabalhadora. A própria Paraíso do Tuiuti levou pra avenida o tema contra a reforma trabalhista, contra a retirada de direitos, demonstrando, inclusive, quem está por trás desses interesses. O carnaval foi uma expressão do povo muito importante que nos anima pro dia 19.

Nossa expectativa enquanto CMP para 2018 é, primeiro, barrar a aprovação da reforma da Previdência. Para nós, isso seria uma tragédia muito grande pra classe trabalhadora, porque, praticamente, é o fim da aposentadoria, o desmonte desse direito importante. E nós temos uma jornada que vai do 19 até o dia 24, aprovada pela Frente Brasil Popular, com ações e mobilizações com brigadas populares na periferia, distribuição de materiais, com o mote "Eleição sem Lula é fraude". Estamos nessa campanha também. Também as mulheres farão um grande 8 de março, que, no caso da reforma da Previdência, são as mais prejudicadas. E também estamos empenhados na realização do Congresso do Povo, que é uma resolução da Frente Brasil Popular deliberada no final do ano passado. No final de março vamos iniciar todo um processo com os municípios, as bases, debatendo com o povo, que culminará no mês de julho ou agosto com um grande congresso, com milhares de pessoas. Nesse processo nós vamos ouvir a população sobre quais são os reais problemas do Brasil, quais as causas desses problemas, quem são os culpados e quais as saídas para resolver esses problemas. Então, estamos na expectativa de, no dia 19, enterrar a reforma da Previdência, fazer um grande 8 de março, Dia das Mulheres, e prosseguir com essa organização que vai nos exigir muita dedicação, trabalho de base nas periferias para a construção desse grande Congresso do Povo. E [temos] o desafio também de que as eleições não sejam fraudadas, que tenham Lula como candidato à Presidência da República. 

Edição: Camila Salmazio