Saúde

Cobertura vacinal cai e boicote às vacinas coloca em risco erradicação de doenças

Queda de adesão à vacina de febre amarela traz à tona debate sobre a influência de movimentos antivacinas

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Dados da OMS mostram queda de cobertura em praticamente todas as vacinas do calendário obrigatório do Brasil / EBC

A campanha vacinal contra a febre amarela nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro ainda não conseguiu atingir nem 20% do total de 20 milhões que deveriam ser imunizados. Alguns especialistas apontam a queda da adesão ao período de Carnaval que retirou a doença do foco, porém, a decisão consciente por não se imunizar  também surge como fator importante. 

O boicote não só a vacina contra a febre amarela, mas a todas as vacinas aliado aos cortes de verbas em Saúde promovidos pelo governo golpista de Michel Temer já estão provocando efeitos na cobertura vacinal do país. Isso é o que explica Maria José Menezes, bióloga e mestre em Patologia Humana pela FioCruz.

"Em 2016, o Brasil teve um declínio importante na sua cobertura vacinal. Isso é também um fator importante, temos que nos debruçar sobre esses dados e ver que tirar verba da saúde significa de forma direta e objetiva colocar a vida das pessoas em risco", afirma.

Menezes que também é membro do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, a USP, cita estudo divulgado em julho do ano passado pela Organização Mundial de Saúde, a OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para Infância que mostra como a cobertura vacinal do calendário obrigatório de vacinas do Brasil caiu. De acordo com ela, os cortes na Saúde aliados a proliferação de grupos antivacinas podem explicar essa queda.

Se um dos traços de vulnerabilidade de uma população é exatamente ter baixa cobertura vacinal, no Brasil desde 2012 um levantamento do Ministério da Saúde revelou que nas classes mais ricas das capitais a vacinação era deficitária. Em São Paulo, por exemplo, 71% das crianças da classe A haviam recebido a imunização completa – enquanto na classe E, a cobertura era de 81%.

Para Thiago Henrique Silva, médico de família e comunidade e membro da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares a queda na cobertura vacinal pode causar problemas de saúde pública."Na europa, vários grupos de classe médica europeias começaram com essa conversa de não dar vacina para seus filhos. O que aconteceu? Um surto de sarampo que já estava erradicado em vários desses países como França e Inglaterra", conta.

Em 2017, os casos de sarampo neste continente aumentaram 400%, vitimando cerca de 30 pessoas. Os dados foram divulgados pela OMS nesta terça-feira (20), como um alerta mundial sobre o avanço da doença pelo mundo.

O mesmo que acontece hoje em países europeus, ocorreu aqui no Brasil em 2011 quando 26 casos de sarampo foram diagnosticados na Vila Madalena, região de classe média alta de São Paulo. Tudo começou a partir de uma criança que não tinha recebido a vacina por opção familiar e a doença se espalhou - sete bebês menores de um ano, idade a partir da qual a vacinação é recomendada, acabaram contagiados.

O médico classifica como irresponsável o boicote às vacinas do calendário obrigatório. "As doenças que as vacinas previnem por mais que tenha efeito colateral são doenças que podem matar, você pega a febre amarela por exemplo, a taxa de letalidade muito alta. Então teríamos um problema de saúde pública se grupos específicos boicotam as vacinas por que assim a gente não barra a transmissibilidade desses vírus e as pessoas podem se tornar portadoras", explica.

Segundo último balanço do Ministério da Saúde, do dia 16, os casos confirmados no país  de febre amarela somam 464 e as mortes 154. A OMS estima que as vacinas evitam entre 2 milhões e 3 milhões de mortes por ano e que o índice de pessoas que não tomam vacinas no mundo é de 5%.

 

 

Edição: Juca Guimarães