Minas Gerais

Ausência de cobradores nos ônibus de BH: como ficam trabalhadores e usuários

Motoristas assumem função dupla e alertam para aumento de doenças e de acidentes

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Motorista conduz o coletivo e cobra, recebe, dá troco, libera catraca, e ainda opera elevador de cadeirantes / Divino Advincula

O acidente do dia 13 de fevereiro com o ônibus da linha 305, no Barreiro, reacendeu questionamentos da população e de trabalhadores do transporte público de BH. A empresa Consórcio Dez confirma que o coletivo operava sem cobrador. Foram 5 mortos, incluindo o motorista, e 18 feridos graves. As causas do acidente ainda são desconhecidas e o prazo de apuração pericial é de 30 dias.

Desde 3 de setembro de 2012, vigora na capital a lei municipal 10526, que permite aos coletivos circularem sem a presença de cobrador em horário noturno, fins de semana e feriados. As consequências dessa lei apareceram com mais evidência nos últimos 60 dias, quando sua aplicação vem sendo intensificada.     

O motorista passa a desempenhar múltiplas funções: conduz o coletivo e cobra, recebe, dá troco, libera catraca, e ainda opera elevador de cadeirantes, tendo para isso que abandonar o posto de direção. 

Quem vive essa situação

Nelita Santos, usuária das linhas 8202 e 8203, opina que o ônibus sem cobrador deixa muito a desejar. “A viagem demora, o motorista tem que parar para dar o troco. Quando não tem trocado, precisa parar e fazer tudo sozinho. Acho que a tendência é piorar, pois nem voltaram todos das férias ainda”, diz Nelita.

O motorista Vicente, nome fictício, acredita que a questão da segurança é uma “bomba relógio”, por conta do desgaste e da responsabilidade da profissão. “Motoristas jovens estão adoecendo, estressados. Pagamos por todos os prejuízos da empresa, avarias no veículo, franquia de seguro de acidente com vítima, ações envolvendo o coletivo. A exigência sobre nós, que já era grande, só aumenta.”

Denúncia: demissões  na “calada”

A lei proíbe que a empresa demita os cobradores. Eles devem ser realocados em outras funções, como bilheterias do MOVE, caso seu cargo seja extinto. Porém, o Sindicato dos Rodoviários de BH e Região denuncia que isso está sendo descumprido. 

“De janeiro até hoje foram feitas 30 demissões regulares de agentes de bordo. As empresas alegam ser demissões pontuais de ajustamento de horários, hora-extra e remanejamentos. Estamos investigando se estão sendo homologadas demissões dentro das empresas”, explica Luciano Gonçalves Coelho Calixto, assessor do sindicato. Hoje são 6 mil postos de agentes de bordo.

“Tememos que a partir de agora haja mais demissões, pois já há vários veículos circulando sem o cobrador a partir das 20h30, com aval da BHTRANS, sendo que o horário noturno estipulado era a partir das 22h”, critica. O sindicalista explica que o horário foi definido pela Comissão Paritária prevista na lei 10526. Porém, a BHTrans alterou o horário para as 20h30 através de uma Ordem de Serviço, sem passar pela comissão. A BHTrans foi questionada, mas não respondeu até a publicação desta matéria.

Edição: Joana Tavares