ENTREVISTA

Coordenadora do MMTR enfatiza a necessidade de unidade entre as mulheres após 8M

Verônica Santana, coordenadora do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, fala sobre as mobilizações do 8 de Março

Brasil de Fato | Recife (PE)

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A Marcha das Margaridas de 2019, desafia a todas do campo, junto com as companheiras da cidade / Divulgação

Sobre os preparativos para o Dia Internacional de Luta das Mulheres, o Programa Brasil de Fato Pernambuco conversou com Verônica Santana, coordenadora do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais. Na entrevista, Verônica explica as relações, as articulações de mulheres e luta contra os efeitos do golpe de estado no país, as perdas específicas de direitos das mulheres do campo e da cidade e o processo de enfrentamento da violência contra as mulheres no Brasil. 

Brasil de Fato: Como estão as mobilizações para as atividades previstas para o 8 de março?

Verônica Santana: Vou começar a falar do 8 de março trazendo a memória do que ele foi ano passado, que tava muito presente a pauta da Reforma da Previdência e naquele momento todo o processo de mobilização não era só das mulheres, mas de toda a classe trabalhadora e da sociedade, porque ninguém da sociedade apoia a Reforma da Previdência. Todos serão impactados.

Naquele momento, a gente conseguiu unificar em torno da Reforma da Previdência e fizemos um grande 8 de março, que foi realmente unificado, que conseguimos criar as condições de deflagrar a greve geral. Esse ano a gente tem pautado muito forte a reforma da previdência, pois é um ameaça nas nossas vidas, que os desmontes do Estado e as perdas de direitos se somam a isso e a nossa luta pela democracia e contra o golpe.

No campo de articulação da Marcha das Margaridas, estamos também aproveitando o 8M para deflagrar o processo de mobilização da Marcha das Margaridas, não estamos dizendo que não é um lançamento porque continuamos em marcha, mulheres, mas precisamos continuar nessa mobilização para a Marcha das Margaridas de 2019, que é uma Marcha que nos desafia a todas do campo, e juntando com as companheiras da cidade, porque o 8 de março é um dia que mobiliza a todas nós mulheres, mas sempre nessa perspectiva de ir contra a perda de direitos e a Reforma da Previdência e pela Democracia.

Junto a Marcha das Margaridas, o 8 de março e as mobilizações que vão acontecer especificamente pelo direito das mulheres, como pensar a influência desse golpe de estado que o Brasil vem sofrendo com a questão dos direitos das mulheres?

Então, entender uma coisa que a gente tem  discutido profundamente, de como o golpe, que esta num processo de se intensificar, de como ele precariza a vida de uma forma geral isso impacta diretamente a vida das mulheres. Quando a gente vê que o Estado não tem os serviços garantidos, quando a gente não tem direito ao trabalho e nem as condições de trabalho, tudo isso impacta diretamente a vida das mulheres, mas com um agravante pra nos que estamos no semiárido e no nordeste, que a gente diz q esse golpe é muito mais intenso sobre a vida das mulheres porque usa as mulheres não só com a perda de direitos, mas também usando ideologias fundamentalistas que recaem sobre o corpo e a vida das mulheres, que é a estratégia conservadora.

Mas essa região que a gente vive,  é uma região que pelo menos nessa ultima década a gente viu que foram desenvolvidas muitas políticas  públicas,  isso deu uma condição de convivência com esse semiárido que foi diferente das ultimas décadas. Então, a perda de direitos e políticas públicas impactam profundamente os semiárido e o nordeste do Brasil.

Lutar contra esse golpe é dizer que nos estamos numa condição que é muito mais perversa com esse golpe sob nossas vidas, das mulheres e de quem vive no semiárido brasileiro. Essa é questão que é importante entender e esse entendimento não é se colocando numa situação de vitima, mas é uma leitura de realidade de sociedade e leitura de conquistas que a gente vinha alcançando que não eram ainda conquistas que chegaram a todos, mas eram tudo o que tínhamos experimentado de avanço nessa região.

Pensando o 8m do ano passado, que foi uma referência nesse momento especifico do golpe, qual tua perspectiva também com esse próximo  e as consequências de 2018 na vida das mulheres?

Então vamos pensar que a gente está discutindo muito nesse momento do que e então a luta pela democracia,  a luta do enfrentamento do golpe, a luta contra a perda direito e essas pautas concretas e agendas de luta. A gente tem a organização para o 8m e ele tem uma agenda ampla, então ele já começou, mas tem várias mobilizações no dia 8 e se estende para depois dessa data.

Em algumas regiões não vamos fazer lutas apenas no dia 8, mas até o fim do mês. A gente tem esse processo de mobilização da Marcha das Margaridas que é mais longo porque vai até Agosto do ano que vem, mas a principal estratégia que nós mulheres temos discutido é que para enfrentar isso a gente precisa fortalecer o que a gente chama de autoorganização das mulheres, nada mais são que espaços de construção, fortalecimento e discussão de estratégias que as mulheres têm encontrado pra se reunir e discutir.

Nesse entendimento é importante compreender que lutar pela democracia, pelo projeto agroecológico, que pra nós do campo é muito importante. Trazer as mulheres é importante para que elas digam o que vem sendo construído, de tudo que tem sido a participação das mulheres. Nós temos uma participação e uma construção concreta, efetiva, então não é só dizer que sem mulher não existe democracia, que sem mulher não existe agroecologia, sem a mulher não existe a participação politica. E aqui a gente tem desenvolvido muitas estratégias, desde discutir o que é a economia das mulheres, o que tem sido o espaço dos quintais produtivos, do papel das mulheres na produção do roçado…

Isso são coisas que nos reforçam nesse momento e criam uma organicidade pra gente ir pra rua e conversar  com outras companheiras. Mas não é só na rua, é na escola, é no trabalho, é no roçado, é na casa e todos esses espaços. Nós temos uma agenda concreta e estamos buscando esses espaços de unidade entre as mulheres, para que a gente não permaneça auto-organizadas só no 8 de março, mas que o 8M seja esse marco de que a luta continua! 

Edição: Monyse Ravenna