Pesquisa

Cada paranaense consome 7,5 litros de agrotóxico por ano

Estado também apresenta altos índices de intoxicação, com mais de três mil casos

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Brasil consome 20% de todo o agrotóxico comercializado no mundo / Reprodução/Central Grãos

O Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo e os paranaenses ingerem em média 7,5 litros por pessoa a cada ano. “O Paraná fica entre a segunda e terceira colocação nacional de estados que mais consomem agrotóxicos, revezando com São Paulo. O Mato Grosso é o primeiro, mas nós somos grandes consumidores de veneno”, avalia a procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT) Margaret Matos de Carvalho.

A procuradora participa do Fórum Estadual Contra o Uso dos Agrotóxicos, responsável por promover o Seminário Internacional Viva Sem Veneno. O evento reúne em Curitiba, entre os dias 13 e 15 de março, especialistas de diferentes áreas para debater os impactos dos agrotóxicos e alternativas, como a agroecologia.

A primeira mesa de debates do evento contou com a participação da professora do departamento de geografia da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Bombardi, e de Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Brasileira de Agroecologia. Bombardi logo afirmou que o alimento se transformou em uma mercadoria sem valor nutritivo. “Há um mito de que o Brasil alimenta o mundo, mas na verdade nós alimentamos o mercado internacional vendendo commodities”, avalia Bombardi, que lembrou que o país é o maior exportador mundial de soja, açúcar e etanol (da cana).

A procuradora do Ministério Público do Trabalho (MPT), Margaret Matos, afirma que não existe equipamento de proteção que realmente proteja o trabalhador que aplica agrotóxico (Foto: Nani Gois/Alep)

Em sua tese de doutorado, Bombardi compara o uso de agrotóxicos no Brasil e na União Européia. Enquanto os países europeus usam entre 0 a 2 kg de agrotóxicos por hectare na agricultura, no Brasil a média é de 8,33 kg de veneno por hectare, podendo chegar a 19 kg em lugares como Mato Grosso. A pesquisadora informa que o Brasil consome 20% de todo o agrotóxico vendido no mundo e teve um aumento exponencial nos últimos 15 anos, aumentando em 135% o consumo de venenos na agricultura, e passando a 500 mil toneladas em 2014.

“Temos áreas de um só produto que equivale à áreas de países inteiros da União Europeia – isso é a monocultura no Brasil”, afirmou a professora. Apenas de soja são mais de 30 milhões de hectares, e equivale a 10,9 vezes todo o território da Bélgica. Outro exemplo é a monocultura da cana de açúcar, equivalente a 3,5 vezes o tamanho do mesmo país.

Agrotóxicos usados no Brasil são proibidos na União Europeia

O pesquisador Leonardo Melgarejo lembra que apenas três grandes empresas dominam 68% do mercado global de agrotóxicos. “Interesses comerciais se sobrepuseram aos direitos humanos”, conclui.

Larissa Bombardi ressalta que um terço dos agrotóxicos comercializados no Brasil são proibidos na União Europeia. Em território brasileiro, o glifosato é o ingrediente mais vendido e comprovadamente gera mortes precoces e desenvolvimento de tumor em outros animais. “No Brasil é permitido resíduos de glifosato no café dez vezes maior do que é permitido na União Europeia. No feijão, permitimos 400 mais resíduos da malationa, um tipo de inseticida, do que é liberado na União Europeia”, informa a professora. “Como nós conseguimos suportar? Somos diferentes dos seres humanos da União Europeia?”, ironiza Bombardi.

Professora da Universidade de São Paulo, Larissa Bombardi, ressalta que um terço dos agrotóxicos comercializados no Brasil são proibidos na União Europeia (Foto: Cecília Bastos/USP)

Leonardo Melgarejo afirma que há vários mitos relacionado ao uso de agrotóxico e transgênicos. Um deles é que os produtos seriam eliminados pelo corpo humano. “Só omitem que tudo o que entra é filtrado pelos rins e fígados e isso causa danos irreversíveis ao longo do tempo”. Outro mito elencado por Melgarejo é que os agrotóxicos seriam avaliados por testes robustos. Ele avalia que não há bases científicas seguras sobre as implicações do uso de agrotóxico e transgênicos.

Paraná registra mais de 3 mil casos de intoxicação

O Paraná desponta no número de pessoas intoxicadas por agrotóxicos, com 3.723 casos entre 2007 e 2014, como aponta o estudo de Larissa Bombardi. Todos os estados brasileiros têm casos registrados e, durante o período estudado, foram 25 mil pessoas envenenadas, o equivalente a oito por dia. A professora da USP lembra que os dados são subnotificados e que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estima que para cada notificação haja outros 50 casos não notificados.

Entre 2007 e 2014, também foram registradas 1.186 mortes por intoxicação em todo o país. Bombardi lembra que 52% do agrotóxico vendido no Brasil é para soja. “O Estado brasileiro alia os interesses dos grandes proprietários rurais com os interesses das empresas transnacionais que vendem o agrotóxico”, avalia. “Apenas com a reforma agrária ampla e massiva, nós podemos desmontar esse esquema monstruoso”, afirma a pesquisadora.

Arte: Vanda Moraes 

A procuradora do trabalho Margaret Matos ressalta que os trabalhadores são mais prejudicados e não há dados de intoxicação apenas de quem trabalha diretamente com aplicação de agrotóxicos. Matos também ressalta que não existe equipamento de proteção individual que possa tornar segura a utilização do veneno. “O trabalhador pode usar roupa de astronauta que vai se contaminar. Por isso o correto é reduzir o máximo possível o uso de agrotóxico”, avalia. A procuradora lembra de experiências em assentamentos e acampamentos que produzem de alimentos de forma agroecológica e em grande quantidade: “é uma mentira quando dizem que não é possível produzir sem veneno”, conclui.

Edição: Ednubia Ghisi