COBERTURA

Entrevista | O que a mídia não falou sobre o caso Marielle?

A professora Nataly Queiroz faz uma análise geral da imprensa no país um dia após a execução

Recife | Brasil de Fato Pernambuco

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"Casos como o de Marielle tem que ser acompanhados e vistos com olhos muito críticos", diz a pesquisadora / Marianne Daffne/Aeso

Para sabermos mais sobre a cobertura dos meios de comunicação diante da execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, e do motorista Anderson Gomes, no centro do Rio de Janeiro, entrevistamos a professora e pesquisadora Nataly Queiroz, doutora em comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco.

A conversa com a pesquisadora aconteceu na quinta-feira (15), um dia após os dois assassinatos. Nataly faz uma análise geral da imprensa no país e traz o debate sobre como a mídia colabora para a formação da opinião das pessoas.

"No Brasil, a comunicação massiva comercial é gerida por empresários e políticos. E há uma tensão entre essa mídia comercial hegemônica e o tema dos direitos humanos", explica a professora. Confira!

Brasil de Fato: Como avaliar a cobertura feita pelos meios de comunicação no país?

Nataly Queiroz: A morte de Marielle Franco pegou todo mundo de surpresa. É muito interessante perceber como os próprios veículos de comunicação, neste primeiro momento, privilegiaram uma cobertura de cunho mais factual. Estava mais focada nos fatos, do que efetivamente nas discussões acerca do contexto em que envolveu a morte de Marielle. Um contexto de intervenção militar federal, um contexto de militarização da segurança e um contexto de muita crítica e muita insatisfação das pessoas das comunidades periféricas do Rio de Janeiro, em relação as medidas de segurança que têm sido adotadas pelo Estado e também pelo Governo Federal.

Há um processo de secundarização nessa mídia comercial hegemônica das vozes das comunidades, das vozes do grupos que eram efetivamente representados pela Marielle. Assim, há uma priorização de uma cobertura de cunho policial.

Será que há uma diferenciação dos meios de comunicação de acordo com as classes sociais? O que dá para analisar da mídia hegemônica?

É muito interessante também notar como os veículos comerciais associados a públicos das classes A, B e C têm tentado trabalhar com expressões e com verbos, como por exemplo: assassinar. “Marielle foi assassinada”; “Marielle foi morta”, eu cheguei a ver um dos jornais com a seguinte frase: “Marielle é mais uma vítima da violência”, como se a gente estivesse falado de uma violência comum. Efetivamente, o caso de Marielle não é um caso de uma violência comum, corriqueira.

É também interessante notar como, em geral, essa mídia comercial mais popular tem trabalhado com uma expressão que os veículos comerciais associados às classes A, B e C,usam pouco, que é a expressão “execução”. Nos jornais mais populares do Rio de Janeiro, de São Paulo e também de Pernambuco, é possível perceber a expressão “execução”. “Vereadora do PSOL foi executada”, “É executada em pleno Estácio”. Então, essas diversas abordagens mostram bem o quanto há de tensões em relação à mídia, aos interesses da midiáticos, que envolvem obviamente os grupos e corporações empresariais e políticas, vale ressaltar que, no Brasil, a comunicação massiva comercial é gerida por empresários e políticos e há uma tensão entre essa mídia comercial hegemônica e efetivamente o tema dos direitos humanos.   

Além dos meios de comunicação tradicionais, como as emissoras de TVs, de rádio, os jornais e as revistas, estamos também na época das redes sociais. Juntando o tema dos direitos humanos e os debates na internet, qual sua análise?

Vale ressaltar também uma vez que a gente está na era das redes, o posicionamento das pessoas acerca do envolvimento da Marielle com os direitos humanos. Há muitas críticas à relação dela com os direitos humanos, à proteção aos direitos das pessoas humanas. Essa crítica que é feita pelos internautas não é uma crítica isolada do contexto dos mídias.

Há, historicamente, uma criminalização dos movimentos sociais e das pautas que envolvem os direitos humanos. Essas pessoas que estão lendo as matérias e que estão reproduzindo discursos de ódios em relação aos direitos humanos foram midiaticamente formadas por discursos proferidos, historicamente, pelas empresas de comunicação no Brasil.

Eu acho que esse é um momento para que todos nós, sejamos jornalistas ou não, para que estejamos muito atentos aos discursos que estão sendo veiculados e em maior ou menor medida, as reações que esses leitores, ouvintes e telespectadores têm em relação a morte de Marielle, porque eles são muito sintomáticos de um período em que há um grande ódio a democracia, que há um grande ódio a participação democrática, com grande ódio aos direitos também.

Vivemos em um período culturalmente muito complicado quando se fala em direitos humanos. E tudo que a gente tem visto em relação ao caso Marielle, só faz perceber o quanto que é urgente que a gente perceba que as esferas dos direitos humanos, que a temática dos direitos humanos, que a temática das mulheres, das populações negras, dos grupos LGBTs, precisa passar por um processo de retomada dos temas, ou por um processo efetivamente de humanização e de cobertura ética por parte da mídia. Daqui por diante, acho que muito material ainda vai surgir e é preciso que a gente esteja atento.

A abordagem feita pelos meios de comunicação é responsável pelo cenário turbulento que o país está atravessando quando pensamos na maioria da população?

A mídia como um todo tem um papel fundamental na forma como as pessoas olham determinados temas. Pensa no seguinte: boa parte daquilo que a gente sabe sobre o mundo nos é contado por meio dos veículos de comunicação. A Abordagem desse veículo, se vai dar uma conotação positiva ou negativa, vai influenciar na forma como as pessoas observam aquele fato. Por isso que casos como o de Marielle tem que ser acompanhados e tem que ser vistos com olhos muito críticos, porque em um país que a gente tem a maior parte dos veículos nas mãos de empresários e de políticos, obviamente que este conteúdo pode vir permeado de conotações que dizem respeito aos interesses desses políticos e desses empresários.

Assim, cabe ao jornalismo cumprir com a sua função social de promover uma cobertura ética, responsável, comprometida com a emancipação dos direitos e das pessoas e comprometida também com a democracia. A mídia é um termômetro da democracia e de como determinado país reage e ver esses assuntos que dizem respeito ao universo. Aqui no Brasil, podemos citar, os assuntos que dizem respeito às mulheres, comunidade LGBT, negros, pobres, trabalhadores, etc.

É muito importante que a gente, como leitores e leitoras, espectadores e espectadoras, possamos cobrar uma cobertura qualificada dos veículos que usamos para nos informar. E como é que a gente cobra isso? Vamos cobrar entrando em contato com o veículo, indo nas redes sociais e comentando sobre a cobertura. Esse é um momento importantíssimo e eu acredito que esse é o momento muito emblemático se a gente quer efetivamente fortalecer esta democracia.

É um momento que a gente também tem que fazer a nossa parte. Cobrar do veículos de comunicação uma cobertura ética e responsável, cobrar das autoridades uma resposta adequada e justa acerca de temas como esse e, na verdade, refazer o nosso olhar sobre da própria política e acerca dos direitos humanos.

Edição: Monyse Ravenna