Entrevista

Corporações ocupam lugar das Nações Unidas no tema da água, diz deputado do Podemos

Pedro Arrojo, parlamentar nascido na cidade de Zaragoza, na Espanha, explica que Fórum é fruto do "lobby privado"

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Professor de física, Pedro Arrojo não acredita que o Fórum Mundial da Água resolverá os conflitos pelo recurso natural / El Diario

As soluções para os problemas da água não serão encontradas em um espaço como o Fórum Mundial da Água (FMA), realizado em Brasília, até o dia 23 de março, acredita Pedro Arrojo, 66, deputado pelo Podemos no Parlamento espanhol. 

Arrojo participou de uma mesa de debates na 8ª edição do FMA, ao lado de Vicente Andreu, ex-presidente da Associação Nacional das Águas (ANA), e mostrou discordar das políticas adotadas pelo evento organizado pelo Conselho Mundial da Água.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato após o encontro com Andreu, o parlamentar disse que o Fórum tem “essa enorme visibilidade todos os anos e quem está por trás são as principais transnacionais da água, que são europeias”.

Arrojo explica, no entanto, que essas corporações internacionais estão ocupando um lugar que deveria ser preenchido pela Organização das Nações Unidas (ONU), nos moldes do que é feito com o Conferência do Clima, a COP, que exige declarações e resoluções que deverão ser acatadas pelos países presentes no evento.

"Elas estão completando o buraco que foi feito pelo fato de as Nações Unidas não se ocuparam do tema da água. Toma um formato que, aparentemente, é como se fosse um grande fórum, com mais de 100 ministros e ministras. Mas, de fato, não é isso, é uma convocatória do lobby privado”, diz.

Confira trechos da entrevista:

Brasil de Fato: Quais são as intenções desse Fórum Mundial da Água, que reúne uma série de corporações e governos interessados na gestão da água?

Pedro Arrojo: Este é apenas um Fórum a mais, uma estrutura que está a nível global e que se organiza em torno do Conselho Mundial da Água. No fundo, estão organizando toda essa estratégia, que tem enorme visibilidade todos os anos e quem está por trás são as principais transnacionais da água, que são europeias. Há empresas de Barcelona, como a Suez, a Veolia, a Aqualia. Elas estão completando o buraco que foi feito pelo fato de as Nações Unidas não terem s ocupado do tema da água. 

De maneira que este Fórum toma um formato que, aparentemente, é como se fosse um grande fórum das Nações Unidas, para onde vem mais de 100 ministros e ministras, onde se tem formatos como se fosse um grande evento da ONU.

Mas, de fato, não é isso, é uma convocatória do lobby privado. É como se para discutir os problemas da saúde pública internacional, no lugar de ser um evento convocado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), fosse convocado pelo lobby das farmacêuticas, seria um escândalo.

Mas isso não é um escândalo porque as Nações Unidas deixou esse buraco, essa ausência, deixou a sua responsabilidade nessa questão.

Aqui ao lado acontece outro Fórum, o Alternativo. Você acha que eles podem se relacionar? 

A parte positiva aqui é a discussão de alguns temas. Pode ser um espaço de consciência e sobretudo, motiva e reativa os movimentos sociais, que têm a obrigação de fazer algo alternativo, neste caso o FAMA, o Fórum Alternativo Mundial da Água, que aconteceu, com contextos diferentes, em Marselha, na Turquia, no México.

Isso revitaliza muito os movimentos sociais. Eu participei esses dias atrás do FAMA e são 3 mil pessoas que vêm de todas as partes, com seus próprios meios, sem o glamour, o luxo e a ostentação que se vê aqui, mas muito ativo.

É um lugar onde se está fazendo uma coisa, que para mim é histórica no Brasil, e que é muito importante a nível global - na Espanha isso já está mais avançado - que é a convergência das duas frentes de luta que existem no mundo atualmente. 

A primeira é a frente de luta contra os mega projetos, as mega represas, transposições, o fracking e a mineração a céu aberto. Tudo isso está agrupado em uma frente de luta onde os ecologistas, os atingidos por esses projetos, indígenas, camponeses, entre eles o MAB e o MST, estão juntos.

E na segunda frente estão os movimentos que se levantaram nos últimos anos contra a privatização dos serviços de saneamento nas capitais, nas cidades. Neste outro movimento estão os sindicatos mais tradicionais, as comunidades locais, usuários, outro componentes sociais, vinculados à esquerda tradicional, que olham aos outros movimentos com desconfiança, porque lhes parecem movimentos contra o progresso e o desenvolvimento. 

Como se dá esse fracionamento de frentes de luta?

Eles [os sindicatos mais tradicionais] lutam contra uma grande empresa, contra um grande empreendimento que destrói um rio, ou que está fazendo a privatização do rio para interesses concretos, como a mineração, as empresas hidrelétricas.

A luta do MAB e dos movimentos indígenas que defendem seu território, é uma luta também contra a privatização da natureza, a privatização dos rios, dos aquíferos. 

Da mesma maneira, nas cidades, se está lutando contra a privatização de um serviço que está vinculado aos direitos humanos. 

Por isso eu insisto que, no FAMA, esses movimentos devem estar unidos, ao invés de se manterem desconfiados uns dos outros. Tem que ser feito um discurso comum, diante desse processo geral de mercantilização e da privatização da natureza e dos princípios básicos que são tão necessários aos seres humanos.

E entre esses processos está a privatização do saneamento público. Fora do Brasil, esses serviços têm sido remunicipalizados, não?

Primeiro, há uma coisa fundamental. Eu acho que se deve falar de um serviço integral de água e saneamento. Aqui se tende a separar, mas um e o outro formam parte de um ciclo de água urbana e o mais sensato e mais inteligente é fazer uma gestão integrada, pública e participativa, dependendo dos interesses dos municípios.

Na Europa é onde se inicia todo esse processo de privatização, principalmente na França, por meio das PPP's (Parcerias Público-Privadas). Em Paris isso acabou e em Berlim também, e se iniciou um movimento de remunicipalização.

Isso vem para cá ao mesmo tempo, é um debate mundial, estamos em um momento onde o lobby das grandes empresas europeias estão se retraindo, sem fazer grandes projetos, e são conscientes que existe um movimento por um novo modelo de gestão pública participativa e transparente.

Edição: Nina Fideles