Eleições

Cuba vai mudar, mas não deixará de ser socialista, afirmam revolucionários de 1959

Em meio a alterações na condução do Estado, o Brasil de Fato ouviu os rebeldes da geração histórica da Revolução Cubana

Brasil de Fato | Enviada especial a Havana (Cuba)

,
Na ilha socialista que tem como líderes Fidel e Raúl Castro, saiba o que pensam ex-guerrilheiros diante do futuro do país / Fania Rodrigues/BdF

Cuba começará uma nova etapa do socialismo. A Revolução Cubana, que triunfou em 1959 depois de uma longa batalha travada pelo exército rebelde, comandado por Fidel Castro, agora passará por um processo de abertura, atualização e adequação às novas realidades do povo cubano. Isso é o que emerge como perspectiva em meio às eleições para a Assembleia Nacional do Poder Popular e as Assembleias Provinciais, realizadas no último dia 11, e a escolha do novo presidente do país, que assumirá no dia 19 de abril.

“A vida é feita de evolução. A natureza pede isso. Até a paisagem muda com o tempo. Assim também deve mudar a condução de uma sociedade”, reflete o ex-guerrilheiro Ciro Arturo del Río. Ele era um jovem camponês quando se juntou à guerrilha cubana, em 1957, e esteve sob o comando de Ernesto Che Guevara, na Sierra Maestra.

Ciro del Río também foi um dos fundadores da Rádio Rebelde, que teve um papel determinante na vitória da guerrilha, compartilhando informações e organizando a luta contra o numeroso exército do ditador Fulgencio Bastista.

Orgulhoso da revolução que ele ajudou a construir, hoje, 60 anos depois dos primeiros passos como guerrilheiro, Ciro del Río acredita que os cubanos estão prontos para uma nova etapa do socialismo. “A mudança está vindo com uma nova geração de políticos, mas ela também vem carregada de um novo desenvolvimento científico e cultural”, diz o coronel da reserva das Forças Armadas Revolucionárias (FAR) de Cuba, exército regular do Estado.

O ex-guerrilheiro Ciro del Río mostra foto com os seus companheiros do exército rebelde, entre eles está o atual presidente Raúl Castro

Para o médico e também ex-guerrilheiro do Movimento 26 de Julho Ángel Fernández Vila, essa nova etapa da Revolução Cubana está marcada pela saída da chamada “geração histórica”, abrindo espaço para os mais jovens. “A geração histórica, que fez a Revolução, praticamente se retira junto com Raúl Casto [da presidência]. Essa geração que fez parte do assalto do Quartel Moncada [1953], da Sierra Maestra [1956-1959], da luta clandestina, de todo esse processo que está cumprindo 60 anos”, diz o herói revolucionário.

Em dezembro do ano passado, durante o 7º Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC), o presidente Raúl Castro anunciou que não iria mais se candidatar a chefe de Estado cubano. No entanto, ele não se retira da política, pois já havia sido eleito como primeiro-secretário do PCC para o mandato que termina em 2021 e, também, acaba de ser eleito para deputado da Assembleia Nacional; assim, participará da escolha do novo presidente de Cuba, que é definido nesta Casa.

Desta forma, a geração que nasceu depois do triunfo da Revolução Cubana chega à dianteira da Assembleia Nacional, mas dividirá espaço com os membros históricos do partido.

A nova composição dos deputados nacionais demonstra isso. Cerca de 40% dos parlamentares têm menos de 50 anos e 13% menos de 35 anos. Apesar dessa mudança geracional, Ángel Fernández garante que eles estão à altura das responsabilidades que lhes serão confiadas. “Estamos convencidos de que essa nova geração está melhor preparada que a nossa para assumir as carreiras do Estado. Apesar de que nós assumimos com uma autoridade moral tremenda, porque fizemos a revolução, derrubamos um regime tirano, lutamos contra a burguesia cubana e contra o imperialismo dos Estados Unidos, que tentou nos asfixiar desde o inicio”, avalia.

Na guerrilha, além de fazer parte da equipe médica, Ángel era redator da Rádio Rebelde. Ele também esteve no combate contra a invasão estadunidense na Playa Girón, em 1961, ao lado de Fidel Castro. Hoje, aos 85 anos, é coronel retirado das FAR, médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Havana. Consciente de que contribuiu para de construção de um modelo político que melhorou a vida dos cubanos, o guerrilheiro defende que o futuro é o socialismo.

Com os jovens no poder, Cuba está se preparando para iniciar um caminho lento, mas gradual em sua economia e em sua política. No entanto, algumas coisas serão mantidas, garantem os revolucionários. “Estamos seguros que essa nova geração terá mãos firmes e levará adiante a revolução. Não vai dar nenhum passo atrás. Cuba não deixará de ser socialista”, destaca Ángel, que soma às suas qualificações a de ser membro-fundador do PCC.

Ciro del Río segue na mesma linha e garante: “Cuba seguirá sendo socialista”. Segundo o militar cubano, os fundamentos do socialismo seguirão intactos. “Temos nossos princípios e não vamos renunciar a isso. Se não, voltaremos ao passado, onde o indivíduo pensava: ‘o meu primeiro’. Os benefícios têm que ser para todos”. 

Como guardiões da revolução, os heróis cubanos estão vivos, lúcidos e fazem questão de dizer o que pensam. São críticos, generosos, otimistas e, sobretudo, parecem estar sempre prontos para o combate, ainda que tenham abandonado às armas há quase seis décadas.

Em uma foto da época da revolução, Ángel aparece junto a Fidel, enquanto escreve, de próprio punho, uma ordem para a tropa revolucionária

E é com espírito revolucionário que Cuba vai encontrando seu caminho, livre e independente, como definem os ex-guerrilheiros, mas, também, pelas ruas de Havana, onde o Brasil de Fato encontrou com um povo crítico, politizado, que fala o que pensa e que pontua o que está bem e o que está mal no atual modelo político e econômico. Além disso, percebe-se também um povo disciplinado, que sai de casa para votar e decidir seu futuro. Segundo os dados finais da Comissão Eleitoral Nacional (CEN), na eleição deste mês de março, a participação dos cubanos foi de 85% do eleitores.

Edição: Vivian Fernandes