LUTA

Editorial | Vender a Chesf é privatizar a água e a vida

Março, mês das Mulheres e das Águas, converteu-se num mês de espaços de debate, luta e resistência contra privatizações

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"A defesa da Chesf é a defesa do Rio São Francisco e da vida que gira no seu entorno" / Vinícius Sobreira

O controle da Água é estratégico e está no centro de uma grande disputa mundial, com o objetivo de privatizar e converter a água em um grande mercado global. Isso é parte do reestabelecimento da agenda Neoliberal de privatizações e submissão do Brasil aos interesses do capital internacional.

De um lado, forças internas e externas do capital (empresas transnacionais, fundos de investimentos, paraísos fiscais e bancos) agem de forma articulada para privatizar um bem público, ameaçando a independência e a soberania do País, estabelecendo a propriedade privada da água, do saneamento, dos aquíferos, dos rios, das nascentes. Estes realizaram o 8º Fórum Mundial da Água, entre ao dias 18 e 23 deste mês, em Brasília (DF).

De outro lado, os trabalhadores e trabalhadoras, que realizaram paralelamente também em Brasília (DF) o Fórum Alternativo Mundial da Água (FAMA), contrapõem a lógica da água como mercadoria e convocam a sociedade a lutar pela água como um direito essencial e têm empreendido importantes batalhas. A última foi como a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terras, realizada no último dia 20 em todo o Brasil. A jornada ousou confrontar um dos grandes desafios na luta contra o golpe: denunciar e impedir a venda das nossas águas, das empresas públicas e das riquezas nacionais.

Em Pernambuco, as Mulheres Sem Terras em unidade com as Mulheres da Frente Brasil Popular protagonizaram uma ação regional no Nordeste. Duas mil mulheres ocuparam a sede da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), em Paulo Afonso, no Nordeste da Bahia e Usina de Xingó (Sergipe), denunciam que o governo Temer quer entregar o sistema Eletrobrás todo por R$ 20 bilhões.

Somente uma Usina da Chesf, a Hidrelétrica de Xingó (2.139 MW médios) custa este valor. Sua capacidade de produção é semelhante a usina de Jirau (2.184 MW médios) que custou R$ 19 bilhões de investimento. A Chesf apresentou um lucro deR$  3,9 bilhões em 2016. E de janeiro a junho do ano de 2017 apresentou um lucro de R$ 370 milhões. A ameaça de privatização da Chesf é portanto uma ameaça a vida do povo em especial das Mulheres e dos nordestinos.

A defesa da Chesf é a defesa do Rio São Francisco e da vida que gira no seu entorno. É defender os investimentos de quase toda a produção de alimentos por meio da irrigação em Petrolina e Juazeiro da Bahia com a construção e operação do reservatório de Sobradinho, o monitoramento da qualidade da água para o consumo humano, animal e produção de alimentos saudáveis. É defender a Universidade do Vale do São Francisco (Univasf), que hoje funciona em Paulo Afonso (BA) em prédios cedidos pela Chesf. É defender o Hospital da Chesf, em Paulo Afonso, mantido pela companhia que atende a população de mais de 22 municípios, num total de 700 mil habitantes.

A ação articula a defesa dos interesses de todo o povo, com o protagonismo de sua própria luta enquanto Mulheres. Segundo a UNICEF, mulheres e meninas gastam 200 milhões de horas coletando água todos os dias e 70% das pessoas que vivem em situação de pobreza no mundo são mulheres, atingindo em especial as negras, latinas, indígenas e imigrantes.

No Brasil essas Mulheres se concentram no Nordeste. Com a privatização e sem acesso livre à água, elas, que são responsabilizadas historicamente pelos cuidados familiares e da casa, são primeiras a sofrerem os trágicos efeitos da privatização. Sobre elas recai a sobrecarga do trabalho doméstico, as longas caminhadas em busca de água, aumento insegurança alimentar, aumento das taxas de energia e da água, a escassez de políticas públicas de educação e saúde, aumento da violência nos territórios e nos seus próprios corpos.

Um país que tem o maior volume de água do mundo (12% do total global), 27 aquíferos, as empresas de saneamento brasileiras que são todas estatais, os grandes rios de mananciais utilizados na irrigação e produção de energia e um povo que luta não pode abrir mão de sua soberania.

A água não tem dono. É um bem público, do povo e pelo povo deve ser exercido o controle de seus recursos.

Edição: Monyse Ravenna