Caravana

No berço do MST, camponeses recebem Lula e resgatam história da luta popular

Caravana Lula pelo Brasil chega a Ronda Alta no último dia de viagem pelo Rio Grande do Sul

Brasil de Fato | Ronda Alta (RS)

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O ex-presidente Lula cumprimentou os moradores que participaram do ato público desta sexta-feira (23) e enalteceu a história do município. / Brasil de Fato

O que parecia um sonho distante tornou-se realidade: filha de agricultores, a pedagoga Márcia Conrado mudou-se para a cidade, conseguiu um emprego e saiu do aluguel.

"A gente não poderia construir uma casa com os valores do nosso salário mensal. Então, recorremos ao Minha Casa, Minha Vida e, graças a esse programa, há dois anos estamos morando na nossa casa própria", lembra.

Márcia vive com o esposo agrônomo e os dois filhos em Ronda Alta, município de 10 mil habitantes no noroeste do Rio Grande do Sul. A família, que paga R$ 100,00 por mês pela casa própria, acordou cedo para saudar os ex-presidentes Lula (PT) e Dilma Rousseff (PT).

"Para nós, é uma honra recebê-lo aqui em Ronda Alta", explica a pedagoga. "Porque os grandes, como Michel Temer, com certeza nem sabem que esse município existe. Pra nós é uma satisfação imensa".

Os que optaram por permanecer no campo também têm motivos para agradecer. O agricultor familiar Jandir De Ré afirma que a produção cresceu durante os dois governos Lula, e agora está ameaçada. 

"Teve Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar], a gente conseguiu empréstimos em bancos com juros super baratos. Hoje, tu não encontras mais esse juro, porque já foram cortados", lamenta. 

De 2003 a 2014, os investimentos federais no Pronaf cresceram de R$ 2,2 bilhões para mais de R$ 30 bilhões. O orçamento para o programa passou a contar com apenas R$ 4,8 bilhões em 2018.

A pedagoga Márcia Conrado conseguiu casa própria graças ao Programa Minha Casa Minha Vida.

Memória 

Não há como cruzar o trevo que dá acesso a Ronda Alta sem mergulhar na história da luta por terra, trabalho e teto.

A resistência aos latifundiários da região começou em plena ditadura militar. Em setembro de 1979, agricultores ocuparam as granjas Macali e Brilhante, no Rio Grande do Sul. Dois anos depois, o acampamento Encruzilhada Natalino uniu as demanda da reforma agrária e da democracia, e se tornou o embrião da história do MST.

No dia 25 de julho de 1981, a região foi palco da maior manifestação de trabalhadores rurais da história gaúcha: 15 mil pessoas protestaram contra o autoritarismo e pelo direito à terra, e inspiraram posseiros, arrendatários, meeiros e atingidos por barragens a também exigirem um pedaço de chão. 

Os quatro mandatos do PT no governo federal, de 2003 a 2016, são entendidos como uma continuidade, ou "segunda etapa" dessa luta pelo direito à moradia.

Como Márcia, milhares de pessoas foram beneficiadas por políticas públicas no município naquele período. Os números mostram que o legado de Lula sobreviveu por mais de uma década, antes de ser atacado pelo presidente golpista Michel Temer (PMDB). 

No ano em que Dilma sofreu o golpe parlamentar, 586 famílias foram atendidas pelo Bolsa Família e 3.500 pessoas receberam atendimento graças ao programa Mais Médicos. Com o Minha Casa, Minha Vida, foram entregues 302 moradias, com investimento de mais de R$ 14 milhões por parte do governo federal.

O ex-presidente Lula cumprimentou os moradores que participaram do ato público desta sexta-feira (23), enalteceu a história do município e deixou um recado: "Um pernambucano, que nasceu em Garanhuns, e que não morreu de fome até os cinco anos de idade, não tem mais medo de nada".

De Ronda Alta, a caravana Lula pelo Brasil segue com destino a Passo Fundo e São Leopoldo, últimos municípios gaúchos no roteiro do ex-presidente. Sábado, Lula entra em Santa Catarina para um ato público na capital, Florianópolis.

Edição: Luiz Felipe Albuquerque