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Artigo | E se fosse homem? Seria beijado à força?

"Os casos se repetem e é triste ver o quanto as pessoas relativizam ou diminuem tais situações"

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"No jornalismo esportivo, culturalmente conhecido como o “terreno deles”, esses problemas são ainda mais escancarados" / Reprodução

Ser jornalista é viver desafios, riscos e contratempos. Para a mulher, ainda é preciso enfrentar outras questões, como o machismo, o assédio e a violência. No jornalismo esportivo, culturalmente conhecido como o “terreno deles”, esses problemas são ainda mais escancarados.

O caso mais recente aconteceu com a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, no dia 13 de março, após o jogo do Vasco contra o Universidad de Chile, pela Libertadores. Durante a cobertura ao vivo da festa da torcida vascaína, Bruna foi assediada por um homem que passava próximo a ela e tentou beijá-la à força na boca.

No momento, mesmo constrangida, a jornalista seguiu a transmissão. Porém, após o episódio, Bruna escreveu em suas redes sociais o quanto se sentiu incomodada. “Hoje, senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, metrôs ou até mesmo andando pelas ruas”, ressaltou.  

Bruna não foi a única. Dois dias antes, ao cobrir o clássico entre Grêmio e Internacional, a jornalista Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi insultada por um torcedor na arquibancada do Inter. Ao respondê-lo, acabou sendo agredida pelo homem. A repórter filmou a situação e também desabafou em suas redes sociais. “Nunca achei que fosse passar por isso TRABALHANDO”.

E os casos não ficam apenas entre as torcidas. Em 2017, após uma vitória polêmica do Internacional sobre a Luverdense, válida pela série B, o então técnico do time colorado, Guto Ferreira, respondeu de forma machista a uma pergunta da jornalista Kelly Matos, da TV RBS. Questionado sobre o desempenho dos jogadores do Inter, o técnico disse: “Desculpe, eu não vou te responder com uma pergunta porque você é mulher e talvez não tenha jogado”. Embora tenha admitido o erro e pedido desculpas à repórter depois, o técnico deixou transparecer um pensamento machista e arcaico que muitas pessoas ainda têm: que mulher não entende de futebol ou que, provavelmente, nunca jogou bola na vida.

Os casos se repetem e, para nossa infelicidade, ao ler comentários sobre os três episódios, é triste ver o quanto as pessoas (a maioria homens) relativizam ou diminuem tais situações. “Mas ele não quis beijar na boca”, “ah, o cara estava bêbado”, “mas o que uma mulher foi fazer no meio de torcida?”, “futebol é assim mesmo, todo mundo xinga”, “técnico trata mal todo mundo”. Por aí vai …

Enfim, para quem pensa que esse texto e todas as manifestações das mulheres sejam apenas “mimimi”, eu proponho uma reflexão rápida. Se fosse homem, será que seria beijado enquanto fazia uma matéria ao vivo? Seria agredido trabalhando em meio à torcida? O técnico Guto Ferreira frisaria a questão do gênero em sua resposta? Será que seria respeitado?

Não, queridos, não é apenas mimimi. Não queremos privilégios (que nunca tivemos, inclusive). Só queremos respeito. E, se a pauta cair, que seja por qualquer motivo. Menos por machismo!

Edição: Wallace Oliveira