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Tiros contra a democracia

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Não há como mitigar a gravidade do atentado contra Lula. Foram tiros, não palavras ou mensagens covardes na internet. / Ricardo Stuckert
Quem está do outro lado não é apenas o cidadão Luiz Inácio, nem o candidato Lula

O atentado à caravana de Lula é o mais grave episódio do gênero desde o ainda inexplicado acidente automobilístico que levou à morte o presidente Kubitschek, na Via Dutra, em 1976. É bom lembrar que o relatório da Comissão da Verdade de Minas Gerais, recentemente divulgado, destacou o caso de JK como uma das investigações devidas à sociedade brasileira. A morte do ex-presidente não foi devidamente explicada.

Não há como mitigar a gravidade do atentado contra Lula. Foram tiros, não palavras ou mensagens covardes na internet. Atingiram ônibus com jornalistas, parlamentares e outros integrantes que acompanhavam a caravana, que se deslocava entre Quedas de Iguaçu e Laranjeiras do Sul. Os disparos foram antecedidos, nos dias anteriores, por várias ações violentas orquestradas. Estava anunciada a escalada de ódio. A polícia do Paraná, estado governado pelo tucano Beto Richa, não deu segurança devida ao comboio.

As reações deram ainda mais fôlego ao ódio. Depois do incentivo da senadora Ana Amélia (PP-RS), que elogiou os terroristas, Geraldo Alckmin e João Dória, ambos do PSDB e candidatos à presidência e ao governo de São Paulo, culparam a vítima. Lula teria provocado a reação. Além de irresponsável, a avaliação dos paulistas é perigosa. Incita o ódio, estimula a violência, vitamina a divisão social. Funciona como cortina de fumaça à ação continuada dos tucanos em financiar ações de propaganda antipetista.

Curiosamente, os jornalistas que sempre são unânimes na defesa da categoria sob ameaça de qualquer natureza, não foram igualmente prestos em defender os colegas ameaçados com os tiros disparados contra os veículos da caravana. A colunista Eliane Cantanhêde, da Globonews e do Estadão, chegou a condenar Lula como provocador por ter se aventurado em estados do Sul, como se sabe, habitado por massas cheirosas.

A reação do ministro da segurança, Raul Jungmann, foi tímida, retirando a responsabilidade federal para entregar o caso às autoridades policiais do estado do Paraná, que já havia demonstrado desídia criminosa com a situação. Entre os parlamentares as declarações não passaram da protocolar defesa da liberdade de manifestação, mas sempre com ressalvas.

No mesmo dia, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Edson Fachin, declarou que ele e sua família vêm sofrendo ameaças. A informação veio de uma entrevista dada à Globonews, ainda inédita, que teve o trecho antecipado durante e transmissão do jogo Brasil e Alemanha e depois foi fartamente repercutida no Jornal Nacional. Fachin não informou como foram as ameaças. Certamente não foram surras de relho, pedradas, ovadas. Menos ainda, tiros de pistola. Dois episódios, duas reações.

Do mesmo ministro da Segurança Pública aos parlamentares de todos os partidos, a indignação foi geral e irrestrita. O STF se adiantou em anunciar medidas, como o reforço de segurança aos familiares do juiz; a Polícia Federal destacou agentes especiais para investigar o caso. As análises indicavam que as instituições estavam ameaçadas, que a liberdade de julgar sofria constrangimento.

Assim como a indignação, a violência no Brasil é seletiva. A morte de Marielle e Anderson, há duas semanas, foi posta na conta da violência urbana, não da motivação política fascista, que elimina a discórdia com a morte do adversário. Foi ainda combustível para a defesa de combate da violência com violência, que serve de fundamento à intervenção. O fascista não critica, mata. Não argumenta, executa. Não faz política, assassina. O atentado a um ex-presidente, principalmente da estatura de Lula, é a concretização da morte simbólica que tentam impor todos os dias à sua trajetória.

Lula vem mostrando uma resiliência que preocupa os artífices do golpe. Já era para ele estar fora do jogo ou, no mínimo, ter se curvado. A capacidade de resistir, de crescer e inspirar a população a reagir corre ao lado da recuperação da memória dos anos de seu governo. É a maior ameaça às forças regressivas que ainda não completaram o trabalho sujo. Daí o medo, daí a violência.

Lula está concretamente ameaçado de morte. É preciso responsabilidade e coragem. A linha entre as duas atitudes necessárias é tênue. Quem está do outro lado não é apenas o cidadão Luiz Inácio, nem o candidato Lula, mas a democracia brasileira. O fascismo não é um projeto de sociedade, é a consagração da destruição do contrato social. A vida de Lula e do país nunca estiveram tão unidas. Nem tão ameaçadas.

Edição: Nina Fideles