ENTREVISTA

"Muitos marços de luta ainda virão", afirma coordenadora do MST em Pernambuco

Cristiane Alburquerque, da coordenação do MST fala sobre a luta das mulheres e a privatização da água

Recife | Brasil de Fato

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A Jornada das Mulheres é historicamente construída pelas mulheres Sem Terra / Divulgação

Março é o mês das águas e das lutas das mulheres. Entrevistamos Cristiane Albuquerque, da coordenação Nacional do setor de Gênero, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre esses dois temas. O foco foi a edição deste ano da Jornada de Luta das Mulheres do MST, que, dentre as atividades, realizou protestos contra a privatização da água, em Paulo Afonso (BA) e em São Lourenço (MG).

Brasil de Fato: Como foi a escolha do tema deste ano para a Jornada das Mulheres?

Cristiane Albuquerque: A Jornada das Mulheres é historicamente construída pelas mulheres Sem Terra. É momento de enfrentamento ao capital e ao Agronegócio. Então, são lutas diretas de enfrentamento ao capital, para denunciar a sociedade os impactos do capital sobre a agricultura familiar e agricultura camponesa. Esse ano, estamos com o lema “quem não se movimenta, não sente as correntes que a prende”. Nesse sentido, queremos colocar toda a sociedade brasileira para se movimentar contra o golpe que sofremos no Brasil.

Trouxemos também o tema das águas em função de que março, para além de ser um mês das mulheres, também é um mês que a ONU declarou o mês mundial da água. Por isso também, trouxemos o debate da água na nossa jornada de luta. E também em função do que aconteceu em Brasília no Fórum Mundial das Águas e o Fórum Alternativo Mundial das Águas, em que os movimentos populares se mobilizaram e se concentraram em Brasília para contrapor os fóruns das grandes corporações que estão debatendo qual a forma mais rápida de comprarem a nossa água, de transformar ela em uma mercadoria. Por isso que, em todo Brasil, a gente se mobilizou também no tema da defesa da água como um bem natural que afeta a nossa soberania, né?

Brasil de Fato: O que relatar sobre as opressões sofridas nos atos das mulheres no país?

Cristiane Albuquerque: Diferente dos movimentos sociais, que quando saem para uma mobilização pacífica, a gente tem recebido pela polícia, na maioria das vezes, com violência. O que aconteceu em Minas Gerais também aconteceu em Paulo Afonso, e que as mulheres foram recebidas por bombas de gás e com muita repressão. É um absurdo, é a continuação do golpe para mostrar sua continuidade através da força. Deixaram as mulheres trancadas, nos ônibus, pegaram as chaves dos coletivos e diziam assim: “nós estamos no controle”.

Isso só garante ainda mais a participação da mulher na luta, pra dizer que março ainda não acabou e que muitos marços virão de muita luta. Temos que pegar o exemplo dessa jornada, da repressão do Estado em cima de nós, militantes, pra poder acumular mais força, dialogar com a sociedade, denunciando também os casos de violência em que a polícia trata a população brasileira.

Edição: Monyse Ravenna