Feminismo

"Indignação sem organização popular não altera a realidade", afirma Tita Carneiro

Para militante, o desafio é transformar as mobilizações locais em uma grande força social

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Existe uma "cultura do medo" para afastar o povo das tentativas de mudanças sociais? / Divulgação

Doutoranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismos da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e militante da Marcha Mundial das Mulheres, Tita Carneiro falou com o Brasil de Fato sobre as bandeiras de lutas pelos direitos das mulheres, que foram destaque na agenda de mobilização do mês de março. Carneiro faz uma análise sobre a perseguição feita aos movimentos populares, como, por exemplo, a violência policial durante as manifestações e criação de um imaginário social de desordem.  

Brasil de Fato: Pelo que temos visto, há muita perseguição aos movimentos populares, com exageros policiais quando as pessoas tentam reivindicar alguma pauta popular nas ruas. Tem também a imagem criada pelos meios de comunicação como se fosse aquilo sempre algo de desordem. Então, existe uma "cultura do medo" para tentar afastar a população dessas tentativas de mudanças para o Brasil?

Tita Carneiro: Essa questão da violência e da segurança, como está sendo colocado, temos que refletir um pouco sobre quem está reivindicando essas pautas e essas questões. Porque se a gente pensar na história recente do país, por exemplo, desde 2013 nas jornadas de Junho, [há] muitas mobilizações nas ruas. Em 2015, tivemos massivos atos dos movimentos de mulheres, como a na Marcha das Margaridas, com 70 mil mulheres, a Marcha das Mulheres Negras em Novembro, com 20 mil mulheres e ações da 4ª Ação Internacional da Marcha das Mulheres.

Uma série de mobilizações populares. Em certa medida e em que sentido essas organizações e esses atos massivos podem estar também sendo colocados como se fossem sinais de desordem ou algo nesse sentido. Se pensarmos no pré-golpe, em 2016, a gente tinha acampamentos populares, caravanas pela democracia… uma série de mobilizações que denunciavam os parlamentares e as medidas golpistas. E também se pensarmos no carnaval desse ano, que em todas as grandes capitais do país houveram reivindicações em defesa da candidatura do presidente Lula e isso foi passado no Jornal Nacional [na mídia hegemônica] como o aumento da violência no país. Então, parece que é um tema muito utilizado pelas forças conservadoras da sociedade brasileira, como se tivesse a necessidade de uma mão mais forte, no sentido da repressão.

Há, por um lado, um aumento da repressão e de violências. O que falar sobre isso?

Alguns movimentos populares vêm conversando no sentido de que de fato é um período que temos que ter cuidado sim. Por exemplo, se a gente pensar que o Brasil é um dos países que mais se assassina lideranças do campo, ano passado foram 65 assassinatos. Não é diferente para militante dos direitos humanos, que combatem o racismo, que combatem o machismo, a LGBTfobia.

É de fato um período que estamos sentindo que estamos vulneráveis. Mas, ao mesmo tempo, animando também as pessoas e dizendo que não é ficando paradas e que não é ficando indignadas sem canalizar isso para uma organização popular, que as coisas vão se alterar. Eu acho para quem já está organizado nos movimentos, é um momento de tentar contribuir para dar condições que as pessoas que ainda não estão possam se somar. Porque, se a gente for ver, o Brasil de Fato, vem cumprindo muito esse papel de visibilizar várias iniciativas que são feitas nos bairros e nas periferias daqui. E que são de verdade e acontecem sim.  Quando você liga a TV você vê também notícias como “uma jovem que foi atropelada no bairro tal e os moradores protestam”. Então, existem muitas iniciativas de protestos e reivindicações. Acontece que, as vezes, são muito localizadas.

O desafio do momento é como a gente capturar essas revoltas, mesmo que em níveis locais, e transformar em uma grande força social. Que a gente consiga reverter o quadro no país, retomar os índices de uma melhor vida para o povo, porque temos que mudar a situação de uma forma em geral, econômica, política, social e também civilizatória. Falar de direitos humanos e de feminismo e dos outros enfrentamentos todos é também em medidas civilizatórias e humanitárias, no sentido de que todas as pessoas possam ter direitos garantidos.  

 

 

 

Edição: Monyse Ravenna