Oriente Médio

"Eles queriam matar todo mundo": ativista explica conflito na Síria e a questão curda

Adem Uzum revela o que aconteceu no conflito em Afrin e detalha teoria do confederalismo democrático

Brasil de Fato | Enviados especiais a Amsterdã (Holanda)

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Lutadora curda diante de bandeira do PKK; para o partido, derrotar o patriarcado é fundamental para acabar com a guerra / Kurdishstruggle/Flickr/Creative Commons

O povo curdo é considerado a maior população sem Estado do mundo, com cerca de 40 milhões de pessoas, concentradas principalmente no território conhecido como Curdistão, que se localiza em regiões da Turquia, Irã, Iraque e Síria, no Oriente Médio - além de cerca de 2 milhões em outros territórios, principalmente na Europa. A maioria, no entanto, vive em terras turcas e iranianas.

Desde janeiro deste ano, Afrin, cidade síria na região fronteiriça com a Turquia e ocupada pelos curdos, é brutalmente atacada pelas Forças Armadas da Turquia, sob o comando do presidente Recep Tayyip Erdogan, junto com o Exército Livre da Síria, e outros grupos que fazem oposição armada ao governo de Bashar al-Assad. Esse ataque, que se arrasta há três meses, é responsável pela morte de milhares de civis e força centenas de milhares de curdos a deixar a cidade. Atos de solidariedade protagonizados pela sociedade civil foram registrados em todos os continentes no dia 24 de março, demonstrando uma grande preocupação humanitária em relação à invasão na região.

Desde a fundação da República da Turquia, em 1923, o país já passou por cinco golpes de Estado e hoje possui o segundo maior Exército entre os membros da OTAN (Organização de Tratado do Atlântico Norte), com 402 mil militares. São denunciados, desde 1980, inúmeros crimes de guerra e contra a humanidade, praticados pelo Estado turco que, além disso, contabiliza mais de 40 mil presos políticos, entre eles mais de 140 jornalistas.

Conversamos com Adem Uzum, membro do Conselho Executivo do KCK (Congresso Nacional do Curdistão), uma entidade “guarda-chuva”, que agrega vários movimentos e partidos da nação. As organizações de resistência curda chamam atraem atenção internacional devido à sua resistência frente ao autodenominado Estado Islâmico (também conhecido como ISIS) e ao Estado turco, especialmente pelo protagonismo das mulheres e sua proposta de confederalismo democrático como solução para a questão curda. Nesta entrevista, Adem fala sobre a complexidade de interesses na região de Afrin, bem como sobre a mudança de paradigma do movimento curdo no início do século XXI.

Adem Uzum, integrante do Conselho Executivo do Congresso Nacional do Curdistão, que reúne organizações e partidos do movimento curdo | Foto: Florencia Guarch

Brasil de Fato: O que está em jogo agora em Afrin?

Adem Uzum: Tudo começou com uma invasão do Estado Turco, em 20 de janeiro deste ano. Essa invasão foi contra as leis internacionais, as leis civis, contra as leis humanitárias. E, claro, contra todas as pessoas que viviam ali. Desde o início da guerra civil na Síria [Em 2011, depois de onda de protestos no país, cresceu a ação de grupos opositores ao governo de Bashar Al-Assad, muitos deles armados e ligados a muçulmanos radicais, como o Estado Islâmico e a Al Qaeda. Segundo o Centro Sírio para Pesquisas Políticas, até 2016 já haviam sido registradas 470 mil mortes nos sete anos de guerra civil, além de milhares de pessoas que deixaram o país e se tornaram refugiados. Há um conflito envolvendo também países estrangeiros – Rússia e Irã apoiariam o governo Assad, enquanto Turquia, EUA e Arábia Saudita dariam suporte aos opositores], Afrin não se envolveu e permaneceu um lugar seguro, recebeu muitos refugiados de outras regiões. Em Afrin não há apenas curdos, mas todas as identidades que se juntaram e construíram sua própria administração. Em Afrin não havia Daesh [sigla em árabe que se refere ao nome anterior do EI (Estado Islâmico) do Iraque e do Levante, ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria, dependendo da tradução], não havia presença do governo central e o povo vivia realmente em paz. As pessoas em Afrin estavam muito satisfeitas com seu projeto e sua vida juntos. É uma região muito rica, com muitos recursos, por exemplo, é o centro da produção de azeitonas no país. Por outro lado, Afrin está em um enclave curdo e está na fronteira turca, está relacionada com outras áreas curdas na Síria, que são libertadas do Daesh. Afrin era um local de resistência como outros cantões curdos, no norte da Síria, e isso não foi bem recebido pela Turquia. Afrin não foi apoiado pela Rússia, pelo governo central e pela coalizão internacional.

Quantas pessoas vivem na região?

Normalmente, 300 mil. Mas depois da guerra, a região recebeu muitos refugiados e a população chegou a 500 ou 600 mil. E eles conseguiram se virar. No entanto, a Turquia não ficou satisfeita, porque não quer que os curdos tenham qualquer status, não importa onde; na Síria, no Iraque, na Turquia ou no Brasil. A política da Turquia é a negação dos outros. Na Turquia, vivem quase 25 milhões de curdos, que têm todos os direitos fundamentais negados. Eles não existem oficialmente. Portanto, os turcos temem que, se os curdos tiverem algum status em qualquer país, todos os curdos também o desejarão. É uma política de negação, de anulação. Os turcos estão culpando-os por serem curdos. Esses ataques da Turquia em Afrin acontecem por estas duas razões: a política de negação e porque Afrin é uma região rica. Eles estão tentando obter outros territórios da Síria, por meio de invasões, e isso é ilegal. Eles querem ter acesso a Aleppo, [principal cidade comercial da Síria e a mais povoada do país]. O sonho da Turquia é ter o novo Império Otomano, começando na Síria. Portanto, eles começaram esta invasão com a permissão da Rússia, que deu sinal verde; a coalizão internacional permanece em silêncio e o governo sírio não fez nada.


"Após a invasão de Afrin, 200 mil curdos tornaram-se refugiados. Portanto, a União Europeia está dando dinheiro para criar novos refugiados"


A luta continuou por dois meses e, depois disso, as forças turcas se juntou com os jihadistas [palavra de origem árabe, que significa “esforço”, “empenho”, “luta”. É usada para designar grupos extremistas islâmicos, como o EI, que fazem uso da violência para defender a instalação da sua religião na Terra. No entanto, o Islã diferencia jihad – um combate interno ao mal – do termo quital, que seria mais apropriado], com a Al Qaeda, com alguns remanescentes do ISIS [sigla em inglês para se referir ao autodenominado Estado Islâmico - EI], todos se reuniram sob o guarda-chuva da Turquia - com as armas dadas pela OTAN - e se aproximaram de Afrin. Assim, a população e as forças curdas tomaram a decisão de se retirar da cidade, porque a Turquia queria fazer um massacre. Eles queriam matar todo mundo, não importa se eram civis, mulheres, crianças ou combatentes. Então houve uma retirada de Afrin e a Turquia e os jihadistas destruíram tudo. A Turquia está agora tentando fazer uma limpeza étnica, colocando o enclave curdo para fora e trazendo os jihadistas e suas famílias - o que é um atentado contra o direito civil e o direito internacional: é algo criminoso. Por outro lado, os países europeus estão dando dinheiro à Turquia para manter refugiados no país. No entanto, agora a Turquia está criando refugiados. Após a invasão de Afrin, 200 mil curdos tornaram-se refugiados. Portanto, a União Europeia está dando dinheiro para criar novos refugiados. Eu acho que a invasão de Afrin é uma contradição internacional, é uma invasão, é um crime.

Protesto em Zurique (Suíça), fez parte de uma ação internacional em solidariedade a Afrin, no dia 24 de março | Foto: ANF News

Quais são os interesses geopolíticos na região?

Com a Primavera Árabe, as pessoas se levantaram por seus direitos. No entanto, infelizmente, os líderes não foram capazes de propor bons projetos para que as pessoas pudessem ter seus direitos garantidos. Além disso, as potências internacionais seguem seus interesses e abusaram desses revoltas para iniciar uma guerra contra alguns países e usar essas pessoas para seu próprio proveito. No final, as revoltas do assim chamado “mundo árabe” não mudaram muitas coisas para as pessoas que estavam lutando por seus direitos e por mais democracia. Em todos esses países árabes, um poder foi substituído por outro igualmente antidemocrático. Neste período, milhares de jihadistas, com o apoio da Turquia, se juntaram ao Daesh, para continuar a luta por lá, porque a Turquia queria usá-los para fazer sua própria guerra no Oriente Médio. Cada um dos países da região e outros países de fora querem fortalecer seus interesses ali. A Síria é rica em petróleo e gás e é uma ponte para chegar ao Irã ou à Ásia. Os EUA querem ter uma base aérea ali; a Rússia quer manter sua base aérea lá; a Turquia quer tomar algumas áreas da Síria para o seu próprio território; o Irã também tem interesses lá. Portanto, a população síria recebe ataques da Al Qaeda, do Daesh e do governo central. E como estão? Apenas tentando sobreviver. Felizmente, conseguimos derrotar o Estado Islâmico, mas a sua derrocada fez com que alguns governos ficassem com medo, especialmente a Turquia, porque eles usavam muito as forças do EI contra o povo curdo.

Você poderia falar um pouco mais sobre o papel dos EUA nesse conflito?

No início, os EUA foram contra o regime de Assad, exportaram as revoltas árabes para a Síria, mas viram que isso não iria funcionar. Então eles tentaram se somar na luta contra o Daesh e criaram uma coalizão internacional, com o objetivo de enfraquecer o governo central e ter uma base militar no país. É claro que os Estados Unidos querem ter seus interesses garantidos, se beneficiar dos recursos do país e impedir a influência do Irã e da Rússia na região. Os EUA estão em concorrência com a Rússia na Síria para ter mais influência no Oriente Médio.

[Há uma grande pressão por parte da Turquia questionando o apoio dado pelos EUA ao YPG (Unidades de Proteção ao Povo), ligado ao movimento curdo. Os EUA dizem que o apoio seria uma forma de “conter a ameaça terrorista”, visto que o YPG foi responsável por derrotar o EI na região e reconquistar a cidade de Kobane, na Síria, em 2015. Já a Turquia diz que o YPG está ligado ao PKK, principal organização curda no país e incluída na lista de organizações terroristas, por sua luta contra o Estado turco. Por sua vez, as organizações curdas argumentam que o apoio dos EUA na Síria é uma forma de fortalecer a luta contra a invasão dos territórios curdos e que seria uma aliança tática, não um alinhamento político].

O povo curdo é considerado a maior população do mundo sem Estado, com cerca de 40 milhões de pessoas. Mas o objetivo principal não é a criação de um Estado-nação, mas um sistema chamado confederalismo democrático. Poderia explicar isso melhor, o que o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) – um dos principais formuladores mais importantes para o movimento curdo - defende agora como uma solução para a questão curda?

Os curdos são uma nação, mas eles não têm Estado nacional. Na época em que muitos povos estavam lutando para conseguir um Estado próprio, os curdos eram fracos e não conseguiram se engajar nessa luta. Após esse período, quando observaram muitos movimentos de libertação em todo o mundo, os curdos também se engajaram. O colapso da União Soviética também provocou muitas discussões: devemos ter a mesma abordagem? Devemos continuar no caminho para lutar pelo nosso próprio Estado-nação? Os curdos então observaram outros movimentos de libertação, que conseguiram o seu Estado, mas não sua verdadeira independência. Eles ainda estão ligados ao sistema capitalista, à economia liberal, ao imperialismo, ainda são burocráticos, ainda estão seguindo o nacionalismo etc.


"O problema não é o socialismo, o problema é a ferramenta que é usada para chegar lá. O problema é o próprio Estado"


Então o PKK formulou a questão: talvez possamos continuar a lutar para ter nosso próprio Estado nacional, mas que tipo de Estado será esse? Podemos tentar ter um Estado-Nação socialista, mas vimos que o Estado na União Soviética entrou em colapso. Então isso significa que o problema não é o socialismo, o problema é a ferramenta que é usada para chegar lá. O problema é o próprio Estado. Porque o Estado está ligado ao nacionalismo, que significa ser homogêneo, rejeitar a diferença e lutar contra os outros e ter uma economia liberal em benefício de uma elite. O nacionalismo é baseado na burocracia. Não é aberto aos outros grupos e usa da democracia somente para beneficiar a si mesmo. Não se trata de proteger pessoas, mas proteger fronteiras. As sociedades e as etnias não são sujeitos. Com a criação dos Estados, vemos o desenvolvimento de guerras. As pessoas são chamadas a lutar para defender fronteiras e milhares de pessoas morrem e são mortas.

A libertação das mulheres é uma pauta estratégica para as guerrilhas e movimentos curdos | Foto: Kurdishstruggle/Flickr/Creative Commons

Qual é a proposta para se contrapor ao Estado-nação?

Öcalan [Abdullah Öcalan, presidente do PKK preso pelo Estado Turco em 1999 e o principal formulador e dirigente do partido até hoje] fala sobre o risco de se tornar o seu próprio inimigo ao conquistar um Estado. Ele sugere outra ideia, um sistema onde todos podem se expressar: o confederalismo democrático. Essa proposta é um produto, um acumulado de todas as ideias anteriores na história, das ideias humanistas, das lutas e revoltas do povo curdo, das ideias dos movimentos de libertação nacional, das ideias marxistas, do socialismo real, das feministas, dos movimentos ecologistas, dos anarquistas, dos direitos humanos, de todas as experiências que temos e tivemos na história e se unem em uma proposta de sistema, no qual as pessoas podem se expressar. Não só a maioria, mas inclusive os pequenos grupos devem ter seus direitos fundamentais garantidos, sua própria administração, a possibilidade de decidir por si mesmos. O confederalismo democrático está dizendo: há um Estado, sou contra o Estado, mas é um processo. É necessário enfraquecer o Estado, mas em paralelo é preciso organizar a sociedade. Ela não deve ser vitimada pelos objetivos do Estado. Não se deve permitir que o Estado continue manipulando-a. Vamos proteger nossa sociedade, com todas as diferenças, organizando-a, mesmo que o Estado ainda esteja lá. Se você organizar a sociedade com política e ética, então ela se tornará mais forte, mais democrática, consciente de seus direitos e de suas necessidades. E então o povo será capaz de dizer ao Estado: “Eu sei o que é melhor para mim”. O confederalismo democrático é a organização na sociedade, paralela ao Estado, para enfraquecê-lo - para conter o Estado da opressão e da guerra.

Então não é necessário um estado para organizar um povo para a sua soberania?

Não é necessário um Estado para organizar uma sociedade. Autodeterminação não significa ter um Estado, significa poder decidir pelos seus direitos. E isso significa ser organizado e politizado. É o reconhecimento de que o Estado não é Deus. É dizer a ele: “você só pode existir quando eu existo”. O Estado não pode existir sem sociedade, mas a sociedade pode existir sem o Estado. Na história, a sociedade existia sem o Estado. Öcalan diz que a sociedade é flexível: faz alterações quando necessário. O Estado não aceita isso, e é por isso que eles atacam, atacam agora em Afrin e em todo lugar. Mas podemos nos defender. De maneira militar, política e praticando o internacionalismo.


"O Estado não pode existir sem sociedade, mas a sociedade pode existir sem o Estado"


Esse confederalismo democrático já acontece no Curdistão, sem tocar nas fronteiras. A nação democrática é uma mente, é um valor comum, um sentimento comum, um objetivo comum. Se você tem isso, você pode ser organizado sem fronteiras. Em cada território, é possível ter federalismo, confederação, nação democrática… E o confederalismo democrático não é apenas para os curdos. No Curdistão, não vivemos sozinhos. Dando um exemplo: na parte norte da Síria, onde os curdos são a maioria, nas assembleias todos os grupos têm direitos, mesmo que sejam pequenos. Há 20 mil armênios vivendo em uma área com 1 milhão de curdos, e eles têm o mesmo direito a ter um representante. Em uma eleição normal, eles não seriam eleitos, não teriam votos suficientes, mas, neste sistema, são representados.

O confederalismo democrático é antiestatal?

Não podemos limitar o confederalismo democrático apenas a uma coisa. É antiestatal, mas também é ao mesmo tempo, anticapitalista, antisexista e antinacionalista. O nacionalismo é um veneno para a coexistência. As pessoas podem viver juntas. As pessoas não precisam se odiar, lutar umas com as outras, se tornar inimigas umas das outras. Eles podem viver juntas, com algum consenso. Estamos chamando este consenso de "contrato social". Devemos ter alguns acordos, sobre o sistema político, que estamos chamando de confederalismo democrático. E a nação democrática não é algo apenas para os curdos. Ela é um espaço em que todas as etnias e todos os grupos podem viver juntos.

"Não estamos adiando a libertação das mulheres para depois da revolução"

Condenado à morte, Öcalan é mantido como prisioneiro solitário pela Turquia em uma ilha desde 1999 | Foto: Kurdishstruggle/Flickr/Creative Commons

Outra dimensão que chama a atenção do mundo é a centralidade dada à questão das mulheres. Por que o PKK diz que o principal conflito da sociedade é a opressão das mulheres e qual sua prática em resposta a isso?

Öcalan, quando desenvolveu sua teoria, obteve muitas informações de muitas fontes: de sua experiência, de [Karl] Marx, de [Vladimir] Lenin, dos movimentos latino-americanos, das revoltas no Curdistão, de Wallerstein [Immanuel Wallerstein, sociólogo dos EUA que formula a teoria do sistema-mundo], de Bookchin [Murray Bookchin, anarquista estadunidense que escreveu “Ecologia da liberdade” ], das experiências do PKK e dos desenvolvimentos geopolíticos na região. Ele chegou à conclusão de que, se você quer mudar alguma coisa, você não pode separar as coisas umas das outras, você tem que pensá-las juntas. Essa ideia de separação veio das ciências positivistas. Se algo for provado, tudo bem, é verdade. Se não, não existe. Ele critica isso. Ele fala sobre metafísica. Ele também destaca que o homem criou as ciências positivistas, que são patriarcais, excluindo metade da sociedade, as mulheres, de seus direitos sociais e políticos. As ciências positivistas são mais analíticas, mas sentimos muita falta das ciências emocionais, do pensamento emocional. No passado, nós tínhamos isso. Precisamos de um equilíbrio entre emocional e analítico e parar com a separação entre objeto e sujeito. Precisamos ver as coisas no todo, não em pedaços. O sistema, que nos ataca, é um todo. O capitalismo, o industrialismo e o Estado-nação estão atuando juntos e dominando a sociedade, e não se pode atacar apenas um. É por isso que é necessário criar uma nova ideia para enfrentar esse estado de coisas.

Há milhares de anos atrás, o homem quis ficar mais poderoso e a primeira coisa que fez foi atacar os direitos das mulheres. Portanto, as mulheres se tornaram os primeiros escravos, a primeira classe oprimida, os primeiros objetos. Se tornarmos os direitos das mulheres visíveis novamente, as lutas das mulheres, o pensamento emocional, a ciência das mulheres, o sistema patriarcal enfraquecerá e as mulheres - e a sociedade - ficarão fortalecidas. É como mencionei antes, em relação à sociedade e ao Estado, é o mesmo que acontece com sistema patriarcal e as mulheres. O Estado é masculino e por causa disso está criando guerra, invasão, agressão, mas, com o fortalecimento da sociedade das mulheres esse sistema se enfraquecerá. Desta forma podemos ter um equilíbrio. Especialmente no Oriente Médio, onde o feudalismo é tão forte e as mulheres não têm direitos. A organização do movimento de mulheres pode quebrar muitas barreiras, muitos dogmas, muitas estruturas masculinas, muita burocracia. A luta das mulheres é o núcleo, o centro do confederalismo democrático.


"A luta das mulheres é o núcleo, o centro do confederalismo democrático"


Mas o confederalismo democrático, por outro lado, não se dá apenas com a luta e com o empoderamento das mulheres. É preciso ter uma nova ciência para isso também: a Jineoloji. Ji em curdo significa mulher e, ao mesmo tempo, "vida". Assim, é a ciência das mulheres, a ciência da vida – que são o mesmo, nesse sentido. É uma ciência que diz: “Eu tenho que tocar e ter uma alternativa para tudo. Porque as ciências, a economia, o Estado, o nacionalismo, precisam ser vistos pelos olhos das mulheres”. É uma novidade, e não é apenas lutar contra o patriarcado, mas também contra as ciências patriarcais, a economia e as práticas de guerra.

Mulheres organizadas no YPJ (Unidade de Defesa das Mulheres), que atua em Afrin contra a Daesh e as Forças Armadas Turcas | Foto: ANF News

A autodefesa não é apenas uma questão militar para o movimento curdo, certo?

Autodefesa significa ter uma mente comum. Na mente, você precisa ter autodefesa. Nós praticamos autodefesa quando somos politizados. E o somos quando sabemos das nossas necessidades, quando temos uma moral e uma ética. Para evitar ataques, podemos fazer muitas coisas, em diferentes níveis. Podemos nos defender por meios militares - e o movimento curdo também está bem organizado nesse sentido - mas também podemos ter autodefesa na sociedade, quando a sociedade está organizada em assembleias, comunas, conselhos e movimentos. Assim, podem defender sua área, seu ambiente. Se você tem uma mente ecológica, um pensamento ecológico, uma teoria ecológica, você é contra o poder. Portanto, ter um pensamento ecológico é ser contra o poder e também é autodefesa. Você pode estar em autodefesa contra a ciência positivista, que está tentando dominar a sociedade. Se você desenvolver novas ciências, você pode praticar autodefesa na agricultura, construindo ecoindústrias. Se você se organizar em cooperativas, na economia social, você está fazendo autodefesa. Assim, autodefesa significa organização social, novas ciências, organização militar, valores comuns, significa, enfim, conhecer sua própria história.

O PKK, nos anos 2000, experimentou uma “mudança de paradigma”, não se apresentando mais como uma organização marxista. Você já falou sobre a diferença com a teoria marxista em relação ao papel do Estado, sobre a principal contradição na sociedade – que o PKK vê como a opressão das mulheres e não entre capital e trabalho -, e também sobre as críticas relativas à ideia de progresso dos períodos na história. Como essa mudança de paradigma coloca a questão da luta de classes no quadro geral?

A teoria do confederalismo democrático, o PKK ou Abdullah Öcalan não são contra o marxismo e o socialismo, afinal eles se enxergam como socialistas. Nosso principal objetivo é o socialismo democrático. No entanto, eles têm algumas críticas positivas para desenvolver à teoria marxista. Eles não estão olhando para a teoria como dogma. Lenin não fez isso. Até mesmo Marx sempre quis repensar e desenvolver sua teoria de modo contínuo. Mas infelizmente o socialismo real tomou a teoria como dogma, implementaram algumas metodologias ruins, em algumas áreas. Os marxistas analisaram o capitalismo muito bem - foi perfeito - mas a maneira de lutar contra o capitalismo era ter seu próprio Estado forte, no entanto, o Estado é uma ferramenta do capitalismo e portanto, essa teoria se torna falha. Mas pode ser diferente. Criticamos essa parte e, por outro lado, dizemos que precisamos colocar a sociedade no meio das discussões. Não apenas uma nação, não apenas indivíduos, não apenas uma classe, mas a sociedade. Não estamos rejeitando a classe, não estamos rejeitando as diferenças, mas a classe e as diferenças são oprimidas pelo Estado-nação, pela modernidade capitalista, juntas.

Guerrilheiros do PKK são uma das principais forças de enfrentamento ao Daesh | Foto: Kurdishstruggle/Flickr/Creative Commons

Trabalhadores e não trabalhadores?

Sim, juntos. Porque as coisas mudaram. Nós não temos apenas a classe trabalhadora, também temos outras classes, que são oprimidas. Fazemos uma crítica sobre a abordagem positivista de transformação, também sobre o materialismo e a visão da história em pedaços. Com a teoria da física quântica e novas teorias e ciências, podemos ter o socialismo sem o capitalismo em nossas áreas; nós não temos que esperar para ter o socialismo. Não estamos adiando a questão das mulheres, a libertação da mulher, para depois da revolução, dizendo: “tudo bem, depois da revolução será melhor”. Se queremos fazer alguma coisa, temos que fazê-lo agora, em paralelo; não podemos esperar pelos bons dias que virão. Nós não estamos nos sacrificando pelo futuro, por algo que está sempre no futuro, no futuro… Se você quer um sistema democrático, você tem que ser democrático agora. Você tem que implementar agora. Se você quer ter um sistema cooperativo, uma economia social, uma ecoindústria, você tem que fazer isso agora. Você tem que implementar a teoria e a prática agora, incluindo uma na outra, no comportamento. Não se trata de competir com a modernidade capitalista, ver quem é mais forte, mas tentar colocar a sociedade e os indivíduos no meio da discussão. Posso dizer que a principal diferença nessa teoria, no novo paradigma, é a libertação das mulheres, a democracia e a ecologia. Esses três são os pilares do confederalismo democrático. E eles não estão em contradição com o marxismo. No entanto, a metodologia, as ferramentas, são diferentes. Nós não estamos procurando, com estes três pilares, ter um Estado forte. Não. Nós podemos tê-lo em nossa sociedade, conosco. Sem fronteiras, com nossas diferenças. Por isso, criticamos o materialismo clássico com essa nova abordagem.

A filosofia curda poderia ser apropriada por outros países ou lutas? Como?

O confederalismo democrático não é apenas para os curdos. Os curdos têm um problema específico: Eles são oprimidos, têm sua identidade negada, têm seus direitos fundamentais e democráticos anulados, estão com seus territórios ocupados. Os curdos tem que viver com isso, essa é nossa questão. Mas o confederalismo democrático está trabalhando com outras contradições, que outras pessoas estão lidando em outras áreas. Por exemplo, a questão das mulheres, os direitos humanos, o meio ambiente, a economia, os direitos ecológicos, não são questões curdas. Nós as vemos aparecendo na América Latina, na África, na Índia, na China, nos EUA. Todo mundo está tentando lidar com essas contradições e tentando encontrar algumas respostas, alguns projetos. E o confederalismo democrático está tentando dar respostas, propor soluções para essas contradições. Portanto, as ideias sobre os direitos das mulheres, sobre ecologia, economia, ciências são uma contribuição para a discussão dos problemas globais. Estamos vendo agora uma crise no sistema. Não é uma crise no capitalismo. O capitalismo sempre enfrenta crises – e até as produz - para sobreviver. Eles podem até conseguir gerenciá-las, mas todo o sistema - que estamos chamando de modernidade capitalista -, baseado no capitalismo, no Estado-nação e no industrialismo - está em crise. É uma crise da modernidade. E ela não pode encontrar uma solução em si. A saída que eles apresentam é o populismo, a burocracia e o terror e isso está deixando as pessoas com medo, como parte do propósito de mantê-las obedientes. Por causa disso, as pessoas estão procurando novas soluções, projetos e resistências. Portanto, estamos propondo projetos globais para problemas globais, que estão afetando todos nós juntos e justamente por isso, está cada vez mais fácil nos aproximar, seja com grupos na América Latina, na África, na China ou nos EUA.

Uzum destaca que o confederalismo democrático não é algo apenas para os curdos e o propõe como uma plataforma global | Foto: Kurdishstruggle/Flickr/Creative Commons

O objetivo do Confederalismo Democrático é: agir localmente, pensar globalmente. Desta forma, você pode ter uma plataforma de democracia global, na qual se pode discutir com todos os outros grupos e todas as outras ideias, de forma autônoma, coordenando-se mutuamente. Por que existe uma União Europeia, por exemplo, e não podemos ter uma plataforma democrática global para nos unir, discutir e ter uma luta funciona. A luta social na América Latina é forte e tem influência na discussão internacional, por isso é muito importante que nós nos unamos. Desde os últimos anos, tivemos bons contatos. E posso dizer que as pessoas no Curdistão estão sempre atentas ao que está acontecendo na América Latina.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira