Resistência

Lula só será libertado com o povo nas ruas, afirma João Pedro Stedile

Para o dirigente nacional do MST, "esse pedido de prisão é apenas mais um capítulo do golpe geral"

Lea la noticia en español | English version | Brasil de Fato, em São Paulo (SP)

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"As massas devem ser protagonistas da política e não assistir de braços cruzados" / Guilherme Santos

João Pedro Stedile, da Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), concedeu entrevista na noite desta quinta (5) em que conclama as forças progressistas a ocupar as ruas contra a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O juiz Sérgio Moro deu prazo até às 17 horas desta sexta-feira (6) para que o ex-presidente se apresente na Polícia Federal, de Curitiba (PR), para cumprimento da pena. 

Para Stedile, "esse pedido de prisão é apenas mais um capítulo do golpe geral". O dirigente do MST aponta a responsabilidade da Rede Globo como "autora intelectual do golpe e coordenadora política das forças de direita" e acredita que "a única forma de libertar o Lula é com grandes manifestações de massa".

Confira a íntegra da entrevista. 

Brasil de Fato: Como você avalia o contexto que nos levou até esse momento?

João Pedro Stedile: O Brasil vive uma grave crise econômica, social, política e ambiental. Quando uma sociedade entras numa crise estrutural como estamos agora, as classes aumentam o conflito entre elas na defesa de seus interesses ou privilégios. Em 2016, o que aconteceu? A burguesia, para se salvar e jogar todo o peso da crise sobre os trabalhadores, deu um golpe. Afastaram a (ex-presidente) Dilma (Rousseff) do governo não porque era mulher ou porque cometeu erros. É porque, na crise, a burguesia precisa ter o poder absoluto de todos os poderes. Faltava só o Executivo.

Dado o primeiro passo do golpe, eles passaram a aplicar um plano político, econômico e social que resultou em mais desemprego, mais desigualdade e todas as dificuldades que o povo está enfrentando. Já a burguesia, saiu nesta semana: os bancos lucraram de 2016 até agora R$ 450 bilhões. A industria lucrou R$ 60 bilhões. Então, quem se beneficiou? Os bancos, que deram esse golpe. Eles precisam agora ganhar mais tempo e garantir o controle do poder Executivo nas eleições de outubro. O povo não gosta deles e eles não tem candidato. Então, esse pedido de prisão agora é apenas mais um capítulo do golpe geral, que é contra todo o povo. Querem prender o Lula não porque tenha cometido nenhum crime, porque ele não cometeu crime. É uma perseguição politica, para tirar a ficha limpa e impedir sua candidatura. Esse pedido de prisão é apenas mais um capítulo do golpe geral.

Qual o papel da mídia nesse momento?

A Rede Globo, desde que nasceu, é o verdadeiro partido ideológico da burguesia. Antigamente, isso ocorria por meio das escolas, das igrejas, outros aparatos. Hoje, a unidade das ideias vem da Globo. Ela é a autora intelectual do golpe, é a coordenadora política das forças de direita. É a maior responsável pelo golpe aplicado sobre o povo. Quer fazer algo contra a Globo? Desligue a TV. Não dê audiência. Mas, algum dia, o povo ainda vai cobrar a fatura desses crimes da Globo. Ela mente, mente, mente. E nós temos de denunciar o papel que ela tem, nos insurgir contra o que ela faz.

Quais os próximos passos?

Isso ainda é parte de uma partida de um longo campeonato, e, enquanto isso, temos de nos insurgir e provocar a reação popular. As massas devem ser protagonistas da política e não assistir de braços cruzados. Estamos orientando a militância da Frente Brasil Popular. Amanhã deve se tornar o dia da indignação nacional. Quem estará em São Bernado do Campo, às 14h, haverá um grande ato político. Temos de fazer mais ainda em outros lugares, nas praças, nos prédios públicos, vão para a rua e vão se manifestar contra essa prisão. Não temos a Globo, mas temos as redes sociais. Usem os seus muros! Transforme sua casa numa mídia de comunicação com o povo. Precisamos de mobilização. Quem estiver no sindicato, façam greves! Mostrem que sem o trabalho da classe trabalhadora eles não tem riqueza, não podem continuar nos explorando. A única forma de libertar o Lula é com grandes manifestações de massa.

Como ficam as eleições?

Quero dizer que a eleição, ou o calendário eleitoral, não está em normalidade. É claro, temos aí 20 partidos e pelo menos 10 já escolheram candidatos. É legítimo isso, e eles devem se candidatar. Mas o cenário da luta de classes é que se constituíram dois blocos. De um lado, aqueles que querem o golpe e a subordinação da nossa economia aos interesses dos bancos, do capital americano. É o bloco da direita, dos capitalistas, que querem continuar ganhando dinheiro com mais e mais exploração dos trabalhadores. Do outro lado, temos o bloco da classe trabalhadora. E não precisou o PT fazer convenção. Não é um tema “de esquerda”. O povo é que escolheu o Lula por sua legitimidade. A forma como o povo recebeu o Lula nas caravanas, como se manifestou, como abraçou, é a manifestação maior de identidade de classe. O Lula e maior que o PT, que a esquerda, ele é a síntese da classe trabalhadora.

Edição: Thalles Gomes