Democracia

“A gente não vai sucumbir ao ódio”, afirma Marcia Tiburi

A metodologia básica que está em jogo é esse discurso de ódio utilizado por pessoas que acham que estão fazendo politica

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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A escritora e filósofa MarciaTiburi / Divulgação

A escritora e filósofa Marcia Tiburi está em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para prestar apoio ao ex-presidente Lula, após o pedido de prisão expedido pelo juiz Sérgio Moro, na noite da última quinta-feira (5), em Curitiba (PR).

Durante entrevista à Rádio Brasil de Fato, Tiburi comentou seu recente processo de filiação e afirmou que a reconstrução da democracia brasileira deve ser baseada na luta, mas também no amor  e no respeito ao próximo.

“Não se pode cair no ódio ou repetir o discurso. Claro que vamos sentir raiva, mas a gente não deve transformar isso em política. A política da esquerda é o amor, a valorização da democracia, do respeito à história, ao voto, à Dilma, que foi politicamente ceifada pelo golpe, ao Lula”, comenta.

Confira os principais trechos da entrevista:

Rádio Brasil de Fato: Por que você se filiou ao PT?

Marcia Tiburi: Foi um gesto de solidariedade contra o ódio, o ódio ao PT, de tentar desmontar isso que está no imaginário do brasileiro. E eu tive uma vontade ética de antecipar essa separação na reunião das esquerdas, e achei que ir para o PT seria bom nesse momento. Demonstrar gratidão e solidariedade ao partido nesse processo.

Uma das suas principais obras , 'Como conversar com um fascista', fala sobre algo que tem crescido no Brasil, o fascismo. Como você caracteriza isso?

Eu escrevi esse livro em 2015, percebendo isso no Brasil, essa guinada ao fascismo, que não é só uma guinada à direita, ainda que estejamos em uma sociedade polarizada. A metodologia básica que está em jogo é esse discurso de ódio utilizado por pessoas que acham que estão fazendo politica de direita. Nos termos usados por essas pessoas existe uma confusão sobre o que é liberdade e democracia. E o que está na base disso é o ódio. Mas o ódio é criado pelos meios de produção da linguagem. O povo que a gente chama de direita são pessoas que ficam falando de uma coisa que vai acabar com elas mesma. Elas vão aceitando aquilo goela abaixo, sem questionar essa postura, muitas vezes por não reconhecer o contexto onde vive. São jogos de poder. O fascismo é estratégico para o neoliberalismo.

Como responder a esse discurso de ódio que existe contra a esquerda?

Acho que a gente pode combater o ódio produzindo amor. O ódio destrói. O amor produz unidade. Essa constituição dos laços da esquerda é o contrário do ódio. A esquerda precisa evitar a sua autodestruição. A esquerda cresce e isso é um efeito contrário ao discurso de ódio da direita. Eu sempre fui crítica ao PT e comecei a rever a história e o sentido do PT, inclusive nesse momento contemporâneo, e por isso me filiei. Sou o exemplo desse pragmatismo de ir além. Ser menos moralista. Pra combater não se pode cair no ódio, não repetir o discurso. Claro que vamos sentir raiva, mas a gente não deve transformar isso em politica.

A politica da esquerda é o amor, da democracia, do respeito. O respeito a história, ao voto a Dilma, que foi politicamente ceifada pelo golpe e respeitar o Lula. Gostemos ou não, é um problema de cada um. Agora, respeitar o ex-presidente, um líder comunitário, que tem sua imagem manchada por mil jogos inconstitucionais.

Acho que os brasileiros não aprenderam a olhar para o Lula, não aprenderam a ver os efeitos que o governo dele produziu. O Lula ajudou a construir o país. Enquanto o governo do golpe, seja na figura do Temer ou de outro participante, simplesmente promove a destruição do Brasil. A gente não vai sucumbir ao ódio.

Edição: Juca Guimarães