DESCUMPRIMENTO

Prisão e ameaça de extradição de líder da FARC ocorre a um mês da eleição na Colômbia

Mandado de prisão de Jesus Santrich realizado pelos Estados Unidos desrespeita o Acordo de Paz firmado em 2016

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Jesús Santrich, líder político das FARC, foi eleito para a Câmara dos Representantes do país na eleição legislativa de março de 2018 / Colombia Informa

O membro do partido político colombiano Força Alternativa Revolucionária do Comum (FARC), Jesús Santrich, foi detido nesta segunda-feira (11) por suposta fabricação e tráfico de entorpecentes e pode ser extraditado a mando dos Estados Unidos e da Agência Antidrogas do país (DEA na sigla em inglês). O ex-guerrilheiro foi eleito na última eleição legislativa da Colômbia, realizada em março deste ano, para assumir uma das cadeiras na Câmara de Representantes do país. Esta foi a primeira participação da FARC nas eleições do país, após sua oficialização como partido político em agosto de 2017.

A embaixada dos Estados Unidos ordenou a invasão de domicílio na casa de Santrich, localizada no bairro de Modelia, em Bogotá, capital do país. No documento emitido pela embaixada estadunidense, foi exigido o confisco de computadores, livros, cadernos com anotações e informações sobre as movimentações financeiras do líder político colombiano.

Entretanto, o Acordo de Paz firmado pelo governo da Colômbia e pelo partido FARC, criado após a entrega de armas das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, estabeleceu que os mandados de prisão e pedidos de extradição ficariam suspensos.

"A extradição não poderá ser concedida nem serão tomadas medidas para assegurar a prisão para fins de extradição a respeito dos fatos ou condutas objetos do Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e não Repetição", diz o artigo 71 do Acordo Final de Paz.

A presidenta da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), Patricia Linares, assegurou que haverá uma investigação para saber se os supostos crimes dos quais Santrich é acusado "foram cometidos antes ou depois do dia 01 de dezembro de 2016, data de encerramento do conflito armado" e do início do acordo de paz.

Linares também afirmou que se a JEP verificar que os supostos crimes foram cometidos antes dessa data eles "serão encaminhados à Sala de Reconhecimento da Verdade e Responsabilidade para pertinência, sem que haja possibilidade de extradição".

A Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol, na sua sigla em inglês) incluiu o nome de Santrich na lista de difusão vermelha, com base em uma acusação formal de um jurista da Corte Federal de Nova York, por supostos delitos de narcotráfico. A ordem diz que os supostos crimes foram cometidos entre junho de 2017 e abril de 2018, como afirmou o procurador colombiano Néstor Humberto Martínez. O crime em questão se trata de um suposto "acordo para exportar dez toneladas de cocaína para os Estados Unidos", segundo Martínez.

O advogado de Santrich anunciou que recorrerá a todas as cortes internacionais para denunciar a detenção do porta-voz da FARC, que anunciou uma greve de fome contra a sua prisão.

Um dos integrantes da direção nacional da FARC, Iván Márquez, declarou que "este é o pior momento que o processo de paz poderia atravessar" e que "o governo tem o dever de impedir que estas 'montagens jurídicas' desemboquem em acontecimentos como este, que geram desconfiança em todos os combatentes".

Em coletiva de imprensa realizada na manhã desta terça-feira (10), a FARC denunciou que a prisão de Santrich "faz parte de um plano orquestrado pelo governo dos Estados Unidos em colaboração com a Procuradoria Geral colombiana", que pretende "decapitar a direção política do nosso partido e enterrar os anseios de paz do povo colombiano".

Eleições

A detenção de Jesus Santrich ocorre no contexto da campanha para a eleição presidencial na Colômbia, que será realizada entre maio e junho deste ano, e da visita dos representantes dos Estados Unidos ao país para uma reunião bilateral com o presidente Juan Manuel dos Santos.

Donald Trump, que tinha anunciado sua visita ao país, informou na manhã desta terça-feira (10) que não irá ao país e que enviará o vice-presidente estadunidense, Mike Pence, para substituí-lo.

Ainda durante a coletiva de imprensa realizada pela Farc, Iván Márquez afirmou que "(Jesús) Santrich não pode ser o troféu entregue a (Donald) Trump durante a sua visita à Colômbia" e exigiu que o governo de Juan Manuel Santos permita a atuação dos garantidores do processo de paz, entre eles, a Organização das Nações Unidas (ONU).

*Com informações da teleSUR.

Edição: Vivian Neves Fernandes | Tradução: Luiza Mançano