Mariana

“É preciso cessar essa fonte de exposição e adoecimento”, diz médica dos atingidos

Evangelina Araújo acompanha população de Barra Longa e fala sobre os exames que comprovaram contaminação

Colaboração para o Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Evangelina Araújo: “Essas substâncias podem se armazenar nos órgãos e prejudicá-los” / Rurian Valentino

A saúde da população de Barra Longa, na Bacia do Rio Doce, não vai muito bem. A cidade, a 60 km de Mariana, foi a única a ter sua área urbana atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em 5 de novembro de 2015. A mineradora Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, empreendeu o calçamento da cidade com a mesma lama encontrada nas ruas. Segundo a empresa, essa foi uma maneira de reutilizar parte do rejeito que não seria tóxico.

Nesta entrevista, a médica Evangelina Araújo Vormittage, do Instituto Saúde e Sustentabilidade, fala sobre um estudo feito no ano passado, mas divulgado só agora, sobre a situação de saúde dos moradores da cidade. Dois anos depois da tragédia, foram encontradas doenças de pele, respiratórias, estomacais e intestinais. Além disso, de 11 pessoas examinadas, 100% apresentaram níquel alto e baixo zinco, uma evidência de contaminação tóxica.

Brasil de Fato: Evangelina, o que vocês encontraram neste estudo sobre a saúde das pessoas de Barra Longa?

Evangelina Araújo Vormittage: Os sintomas que encontramos foram principalmente de pele, respiratórios, gastrointestinais. No final do estudo, decidimos fazer a coleta de sangue e cabelo de 11 pacientes e os resultados mostraram que todas tinham níquel elevado no sangue e deficiência em zinco. Essas substâncias podem se armazenar nos órgãos e prejudica-los, principalmente do fígado, pulmão, músculo e ossos. Se o contato continuar, pode vir a alterar algum órgão. O níquel tem um efeito teratogênico (pode causar defeitos em fetos) e é também carcinogênico (pode causar câncer no futuro).

Além das 11 já examinadas, é possível que existam outras pessoas contaminadas?

Os exames das 11 mostram que as pessoas que vivem em Barra Longa tinham contato com elementos tóxicos no momento da coleta do sangue, pois o metal fica na circulação sanguínea de horas a alguns dias. Não podemos dizer que a população está contaminada, mas, sim, isso traz uma evidência de que outras pessoas podem ter a contaminação. No caso desse primeiro grupo, 100% estavam contaminadas.

A curto prazo, o que pode ser feito para as pessoas que já têm a contaminação confirmada?

Não existe um tratamento específico. A medicação usada, que é a quelante para retirar o metal do corpo, não está indicada no caso delas, pois não têm exposição crônica e nem adoecimento grave. O que é preciso fazer imediatamente é retirá-los da exposição. Elas receberam a orientação de mudar de Barra Longa e continuar a ir ao médico para tratar os sintomas e fazer um acompanhamento.

Como parar essa contaminação?

Precisa ser feita uma pesquisa para saber onde está esse elemento tóxico no meio ambiente, para evitar que as pessoas continuem expostas. O contato pode se dar no organismo por diversas formas: pode ser via cutânea [pele]; pode ser via inalatória [nariz e boca], se tiver a presença de poeira com elementos tóxicos; pode ser pela ingestão da água ou alimentos contaminados. Mais do que tratar os pacientes ou acompanhá-los, é preciso cessar essa fonte de exposição e adoecimento.

Existe algum método para descobrir a presença de metais no ambiente?

É preciso fazer o exame de solo, água, ar e alguns outros que chamamos de bioindicadores, ou biomarcadores, na natureza, em que se busca o metal ou avalia se há algum sinal de toxicidade nos seres vivos. Outros exames podem ser feitos para mostrar a presença de metais ao longo do tempo, desde muitos anos atrás até hoje. 

É possível ter certeza de que essa contaminação é consequência do desastre de Mariana?

Pode haver. É mostrado que já existia, antes do rompimento, a presença de metais tóxicos. É possível que essas pessoas estivessem expostas antes e com o desastre houve uma piora. Isso só será confirmado a partir do momento que se buscar a evidência de intoxicação no meio ambiente.

O que acontece com a população que ainda não fez os exames?

As pessoas que têm sintomas devem procurar um médico para tratamento. Não adianta se preocupar em fazer o exame, porque ainda não há um tratamento específico. Eu diria para elas se acalmarem e, se apresentarem qualquer sintoma, procurar o serviço médico. Nós estamos buscando um serviço próximo da cidade de Barra Longa para que a população tenha um serviço específico sobre intoxicação.

 

Edição: Joana Tavares