Acampamento Lula Livre

Artigo | É hora de tomar partido. E eu tomei: o da democracia e da justiça

O que nos dá esperança é o povo que se organiza e resiste

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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O que nos dá esperança é o povo que se organiza e resiste / Joka Madruga

Escreveu Carlos Drummond de Andrade no poema “Nosso tempo”: “Este é um tempo de partido, tempo de homens partidos”.

Este poema, publicado no livro Rosa do povo, de 1945, como a maior parte desse volume, retratava os impasses da época: no exterior, a guerra mundial contra o nazi-fascismo; no Brasil, a ditadura do Estado Novo.

Mesmo para os poetas, seres sonhadores por natureza, há horas de tomar partido. Aqui, no Brasil, foi assim na campanha da abolição da escravatura, nos tensos anos 30 e ao longo da ditadura militar (1964 – 1985). E é assim também agora.

Não há como duvidar que o Brasil, apesar do que tenta apresentar a mídia comercial, passa por tempos obscuros, para dizer o mínimo: um impeachment sem crime de responsabilidade, uma condenação sem provas do presidente mais popular da história.

Por isso deixei o conforto de minha torre de marfim e fui visitar a vigília Lula Livre, ali em frente à sede da Polícia Federal, em Curitiba.

E o que vi foi solidariedade, esperança e fé – e uma vibrante energia que se percebe nas barraquinhas, nos cumprimentos, nos cânticos entoados. Apesar dos tempos sombrios em que vivemos, para citar outro poeta que tomou partido, Brecht, o que nos dá esperança é o povo que se organiza e resiste.

Sei que diante do que ocorre esta resistência é pouca, é pálida. Mas já é o começo.

E foi por isso que eu fui, mais como cidadão do que como poeta, prestar minha solidariedade. Há horas de tomar partido. E eu tomei: pela democracia, pela decência, pela justiça.

Encerro com o final do poema de Drummond inicialmente citado: “O poeta / declina de toda responsabilidade / na marcha do mundo capitalista / e com suas palavras, intuições, / símbolos e outras armas / promete ajudar / a destruí-lo / como uma pedreira, uma floresta, / um verme.”

*Otto Leopoldo Winck é professor universitário e escritor. Em 2006 lançou pela editora Garamond, seu romance Jaboc. Este ano, pela Kotter editorial, sairá um volume de versos, Cosmogonias.

Edição: Pedro Carrano