COTIDIANO DAS FAVELAS

Escritor carioca é a nova revelação da literatura brasileira

O livro “O Sol na Cabeça” já teve o direito de publicação vendido para nove países

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Geovani Martins conseguiu superar as expectativas e tornar-se uma revelação no campo literário / (foto: divulgação)

Uma trajetória que começa ainda criança com as histórias dos livros infantis contadas pela avó. O universo literário conquistou o menino da periferia carioca Geovani Martins que aprendeu a ler muito cedo, antes de entrar na escola, por conta do fascínio causado pelas palavras impressas nas páginas dos livros.

Hoje, 20 anos depois, o menino cresceu, superou as dificuldades, tornou-se escritor e lançou o seu primeiro livro pela Companhia das Letras: “O Sol na Cabeça”, que já teve o direito de publicação vendido para nove países. Aos 26 anos, Martins, que nasceu no bairro de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro e morou em favelas como Rocinha e Vidigal, encontrou na escrita uma forma de retratar o cotidiano singular da favela.

“Meus contos têm muito das crônicas de registrar momentos, registrar costumes de rua, a fala urbana. Eu sou muito pautado pelas histórias que estão acontecendo na rua e dão base para gerar pensamentos e tentar entender mais a sociedade. Me motiva muito também os grandes contadores de histórias que eu tenho acesso na rua, me fascinam pessoas que contam histórias muito bem e elas me influenciam na hora de pensar o argumento”, conta o escritor.

Ouvindo as histórias que ninguém ouve, atento aos detalhes da cidade que ninguém vê e com uma capacidade de traduzir a essência do cotidiano, Martins conseguiu superar as expectativas e tornar-se uma revelação no campo literário. O escritor relata que a passagem pela Festa Literária das Periferias (FLUP) foi essencial para a sua formação e o encorajou na aposta de dedicar a sua vida, durante quase um ano, na produção do livro “O Sol na Cabeça”. Martins conta que o apoio da mãe foi fundamental para que pudesse terminar a obra.

“Antes de começar eu falei com ela que faria o livro e que este livro me faria viver de literatura. Ela topou, até porque já tinha visto que eu estava conquistando espaço com a literatura, tinha ido à Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) e ela assistiu. Minha mãe acreditou que eu estava realmente interessado. Eu não tinha um centavo para ajudar em casa. Minha mãe e minha namorada que me ajudavam com as coisas mais básicas e eu tinha o compromisso de me dedicar como se fosse um emprego, seis, sete horas por dia ao livro”, explica.

Durante a escrita do seu primeiro livro, Martins, que não concluiu a escola e trabalhou como ajudante de pedreiro, homem placa e atendente de quiosque de praia, desenvolveu um método próprio de produção, devido à falta de recursos para consertar o computador, que pretende repetir em suas próximas obras.

“Eu estava começando a escrever um livro, que nem era este que estou lançando agora, e meu computador quebrou. Fiquei desanimado. Minha mãe me deu uma máquina de escrever e eu escrevi um conto com esta máquina, se chama A Viagem e está no livro. Eu já tinha outros contos que estava trabalhando, escrevendo à mão e, a princípio, comecei a usar a máquina por necessidade. E aos poucos eu fui descobrindo um método de trabalho, que é aquela coisa da máquina me obrigar a reescrever as histórias e isso acabou contribuindo bastante para o desenvolvimento da narrativa,” explica.

O livro “Sol na Cabeça” é uma coletânea de treze contos que retratam o universo da infância e adolescência nas favelas cariocas permeado pela violência e discriminação racial. A obra recebeu elogios de intelectuais como Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva. 

 

Edição: Mariana Pitasse