Reforma agrária

Ponto de cultura alimentar oferece comida "sem grilagem e sem veneno" em Belém

Espaço na capital paraense oferece cardápio feito só com produtos de pequenos agricultores e de assentamentos do MST

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Tainá Marajoara e Carlos Ruffeil (centro) visitaram a terceira edição da Feira Nacional da Reforma Agrária / Daniela Moura/ Voz do Movimento

"Quando tu conheces a origem do teu alimento, tu vais escolher quem tá na mesa contigo: se vai ser o agricultor ou se vai ser quem está matando o agricultor; se vão ser os povos originários ou quem está secando as nascentes", afirma a cozinheira paraense Tainá Marajoara.

Há nove anos, ela e o ativista e chef de cozinha Carlos Ruffeil fundaram o Ponto de Cultura Alimentar Iacitata em Belém (PA).

Assim como a Feira Nacional da Reforma Agrária, cuja terceira edição ocorre em São Paulo (SP) até domingo (6) e que ambos visitaram nesta sexta-feira (4), o objetivo do espaço é fazer o diálogo com a população sobre temas como alimentação saudável e soberania alimentar.

"Quando iniciamos o trabalho, fizemos uma conversa sobre como iríamos trabalhar com os alimentos, que têm nome e território. O alimento não chega sozinho na mesa e isso precisava ser dito", afirmou Marajoara, que também é conselheira nacional da Cultura Alimentar.

Ela relaciona a democracia alimentar, que é a promoção do acesso a uma diversidade de produtos e alimentos saudáveis a preço justos, com o processo de desapropriação de terras para reforma agrária. 

"Não existe alimentação saudável vindo de terra grilada. A reforma agrária, a garantia de direito, a garantia da soberania alimentar e da soberania sobre os nossos territórios e sobre o conhecimento é intimamente ligada à conservação das nossas culturas alimentares. E quem faz isso são os povos tradicionais do Brasil." 

Os cozinheiros sabem nomear a origem de todo e qualquer alimento que entra no ponto de cultura e fazem questão de apontar isso para quem passa pelo local — o objetivo é conscientizar a população sobre os caminhos que os alimentos percorrem até chegar à mesa.

No Iacitata, o cardápio oferecido respeita a sazonalidade dos alimentos. A logística não é uma barreira para os cozinheiros, que recebem produtos de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de todo o país. 

"Eu tenho arroz do Rio Grande do Sul, eu tenho café Guaií de Minas Gerais, açúcar Copavi do Paraná, cachaça de Goiás… Então, se para gente é possível para qualquer pessoa é possível", disse. 

Ruffeil elogia a organização das feiras da reforma agrária pela ponte que faz entre os centros urbanos e as pautas camponesas.

"As mídias ficam dizendo que o agro é pop. Não. O agro é morte. Essa relação da reforma agrária com a cidade não tem como não existir. Sem o alimento do pequeno agricultor, a cidade não come. E é muito mais caro uma caixa de remédios do que um alimento limpo", finalizou.

Edição: Diego Sartorato