VIDA NA OCUPAÇÃO

Como é viver em uma ocupação urbana?

Apesar de ameaças de despejo e de violência, famílias constroem laços e expectativas

English version | Versión en español | Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Ocupação Carolina Maria de Jesus, em Belo Horizonte, homenageia a escritora mineira que escreveu “Quarto de despejo” / Thainá Nogueira / Brasil de Fato MG

“Depois do ocorrido em São Paulo, a mídia descobriu que existe sem-teto no país. O que eles esqueceram é que existe pessoa sem-teto o ano inteiro e quero ver se vão vir agora pra falar das ameaças que estamos sofrendo”, desabafa Edinho Vieira, do Movimento de Luta dos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), de Belo Horizonte. Ele, junto com outras 200 famílias, mora desde setembro de 2017 na ocupação Carolina Maria de Jesus, bem no centro de Belo Horizonte.

Entre as ameaças, ele cita os constantes voos de helicóptero da polícia, além da perseguição feita pelos agentes do Estado contra os moradores do prédio. Mas a principal não é tão visível: é o medo de não ter para onde ir caso aconteça um despejo. A maioria foi morar lá por dificuldade – ou impossibilidade – de pagar aluguel, ou mesmo para sair da situação de rua.

Agora, um organizado sistema de funcionamento permite que todos os 15 andares do edifício, que antes era abandonado, abriguem famílias com suas crianças e idosos. Márcia Ferreira dos Santos, auxiliar de cozinha no vizinho bairro Serra, mora com seu marido, dois filhos e uma neta em um apartamento feito por eles mesmos.

Foi o marido – que trabalha na limpeza urbana – quem fez os móveis e ela decora com capricho e limpeza o canto onde todos podem dormir. “Depois de 14 anos na fila do Minha Casa, Minha Vida essa foi minha alternativa para ter moradia”, conta. “Antes era pra quem tem renda baixa, agora parece que é pra quem já tem situação boa”, acrescenta. Apesar da angústia que vem do medo do desemprego e do despejo, Márcia conta que na ocupação a vida melhorou e é um alívio ter com quem deixar as crianças quando sai para trabalhar.

Creche e cozinha

Na ocupação, por medidas de segurança, não são permitidos fogões. Assim, uma cozinha coletiva funciona todos os dias e garante quatro refeições diárias. Os moradores se revezam ainda na creche, que cuida das cerca de 70 crianças que vivem lá.

 “Hoje a gente tem a cozinha coletiva, que funciona para todos os moradores. Tem a escala, que a gente vai revezando, tem a creche. Com a creche aqui, na ocupação, as crianças têm divertimento e facilita muito a vida das mães, que têm um espaço para deixar as crianças”, conta Karina Estefânia, uma das coordenadoras da ocupação, também do MLB.

A ocupação ainda tem bazar, horta comunitária, organização de eventos e segurança interna. As roupas recebidas vão para as famílias e ajudam a fazer renda para o coletivo. Nos eventos, geralmente se arrecada comida, que também é dividida. O matagal do pilotis do prédio agora tem mudas e plantas.

 “Aqui tem semeado quiabo, vamos plantar rúcula, almeirão, serralha, e, lá pra frente, couve e alface”, enumera com carinho de Edima Siqueira dos Santos Cristo, que é uma apoiadora sempre presente, e cuida da horta. Ela conta que aprendeu com sua mãe – que era parteira – o valor de ajudar os outros.

A menina Emily da Silva Costa, de 10 anos, mora na Vila Pinho, mas vai até o centro com sua mãe não só para ajudar, mas também para participar das brincadeiras com os amigos que fez na Carolina. Várias outras crianças se juntam para também dar seu depoimento e todas frisam o quanto foi legal fazer novas amizades e poder “brincar, desenhar” com os colegas que moram tão pertinho.

Apesar do clima tranquilo, elas também destacam o medo de sair de lá e não ter para onde ir. “Espero que a gente consiga parar o despejo e conseguir nossas casas. Se minha mãe não conseguir, a gente vai morar debaixo do viaduto, porque minha mãe não tem casa”, resume Adriele Cristina Oliveira Rodrigues.

Negociação

A ocupação Carolina Maria de Jesus – que homenageia a escritora mineira que escreveu “Quarto de despejo”, sobre a vida numa favela em São Paulo – não entrou no pacote de reconhecimento das ocupações urbanas, assinado pelo prefeito de Belo Horizonte e pelo governador de Minas. 

O prédio da avenida Afonso Pena funcionou como Secretaria de Saúde e seria de propriedade da Fundação Sistel de Seguridade Social. O advogado da empresa afirma que existe uma ordem de reintegração de posse que ainda não foi cumprida. Depois do incêndio em São Paulo, aumentou a pressão contra outros terrenos ocupados.

“O que a gente quer é que as famílias tenham moradia digna. Não dá pra ter despejo e elas irem morar num galpão ou debaixo de marquise. A gente quer uma alternativa digna”, sublinha Edinho Vieira, da coordenação da ocupação.

Segundo a Fundação João Pinheiro, o déficit de moradia em Belo Horizonte – ou seja, a ausência de casas – chega a 78 mil casas. Os dados oficiais são de 2010 e podem estar defasados.

Edição: Joana Tavares