Memória

Crônica | No sertão cearense, um caso sobre a final da Copa de 1994

“Era uma TV azul preto e branco e bem pequena. De vez em quando eu conseguia ver um lance”

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"Quando Baggio perdeu o pênalti e o Brasil foi campeão, na alegria e correria na hora de sair da casa de seu Cornel derrubaram o fogão" / CBF

"Meu pai era doente por futebol. Ele era obcecado, então a TV era tudo para ele. Isso fez dele uma espécie de prefeito da cidade. Eu me lembro que, durante a Copa de 1994, a nossa casa era como o centro do mundo. O país inteiro ficava paralisado por quatro semanas, e ninguém na nossa cidade tinha lugar para ir ver os jogos. Então, todo mundo vinha até nossa casa, todo mundo. Era como se a casa se tornasse em um mini-estádio de futebol. Imagine 50 pessoas em volta de uma TV pequena, berrando, gritando e fazendo a festa."  (Trecho do texto de Daniel Alves, jogador do Paris Saint Germain, que, por conta de uma lesão, está fora da Copa 2018).

Agora deixa eu contar uma historinha sobre a minha experiência na Copa do Mundo de 1994.

Em 1994 eu tinha 13 anos de idade. No dia da final da Copa eu estava no distrito de Curatis (CE) onde meus pais moram até hoje (distrito do município de Tamboril a mais ou menos 300km de Fortaleza). Curatis tem uns 300 a 400 habitantes e não tinha nessa época energia elétrica. Durante a noite a luz era proporcionada por um motor a óleo diesel (um gerador) que ligava às 18h e apagava às 22h. Mas na Copa do Mundo o prefeito autorizava ligar o gerador para assistirmos os jogos durante o dia. Em Curatis tínhamos umas 10 casas com televisões, então população se distribuía entre essas casas para assistir aos jogos. Assistimos todos os jogos do Brasil até as semifinais.

Mas no dia da final da Copa, quando ligaram o gerador constataram que metade do distrito estava sem energia. Daí um bêbado (nosso amigo Cain) foi tentar consertar e de tanto mexer no gerador a outra parte também ficou sem energia. Faltavam 30 minutos para começar a grande final da Copa entre Brasil e Itália. Toda a população ficou revoltada com o Cain. Os que tinham motocicletas foram às pressas para o município sede Tamboril assistir à final.

Eu e a grande maioria ficamos em Curatis sem ter como assistir. A nossa única opção era pelo rádio. De repente, chega a notícia que do outro lado do rio o morador Cornel tinha uma TV à bateria. Então em 20 minutos boa parte da população de Curatis estava na casa do seu Cornel. Muito apertado. Eu mesmo não consegui entrar. Era uma TV azul preto e branco e bem pequena. De vez em quando eu conseguia ver um lance. Muitos sentados no chão, outros sentados em tambores de guardar feijão. Quando Baggio perdeu o pênalti e o Brasil foi campeão, na alegria e correria na hora de sair da casa de seu Cornel derrubaram o fogão da casa dele e acho que até a TV parece que caiu no chão também. Depois fomos comemorar com o Cain. O texto do Daniel me fez lembrar esse fato.

*Leidiano Farias é cearense e vive em São Paulo, historiador e militante da Consulta Popular.

 

Edição: Redação