ANTIMANICOMIAL

Repórter SUS | Por que dizer não aos manicômios?

O dia 18 de maio é marcado como a data nacional da luta antimanicomial

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Usuários da saúde mental, profissionais da saúde e movimentos populares lembram que ainda é preciso lutar por uma sociedade sem manicômios / ABRASCO

O dia 18 de maio é marcado como a data nacional da luta antimanicomial. A cada ano, nesta data, usuários da saúde mental, profissionais da saúde e movimentos populares lembram que ainda é preciso lutar por uma sociedade sem manicômios.

Há poucas semanas, no final de abril, o governo federal anunciou a liberação de R$ 87 milhões para o atendimento a usuários de drogas nas chamadas comunidades terapêuticas enquanto os Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, considerados mais eficientes por muitos pesquisadores, continuam sem recursos e expansão.

Uma vistoria feita em comunidades terapêuticas no ano passado pelo Conselho Federal de Psicologia em parceria com a procuradoria federal dos direitos do cidadão do ministério público federal identificou problemas como a privação de acesso à escola para menores de idade e trabalho forçado.

No Repórter SUS desta edição, o psiquiatra e professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz, Marco Aurélio Soares Jorge, fala sobre a importância da data, principalmente no atual contexto que tem trazido retrocessos na atenção em saúde mental no SUS.

POR DENTRO DA LUTA ANTIMANICOMIAL

Algumas pessoas que assumiram cargos no governo, após o golpe, são pessoas que sempre foram resistentes às mudanças relacionadas ao SUS por conta de outros interesses e, na calada da noite, sem passar por um debate, ele vem fazendo mudanças, que na verdade, estão trazendo retrocessos, principalmente no campo de álcool e drogas. 

A luta que a gente tem que ter, junto com a luta antimanicomial, é pensar que as formas terapêuticas têm que ser em liberdade, em primeiro lugar. É um pressuposto básico do movimento da luta antimanicomial. Não precisa fechar ou trancar ninguém para tratar. O importante do trabalho, tanto no campo da saúde mental como no campo de álcool e outras drogas, é o cuidado junto com a família, porque a família também é afetada.

O que leva uma pessoa  a fazer o uso prejudicial de drogas? Muitas pessoas fazem uso recreativo, se divertem, confraternizam. As festas têm uma tradição milenar de ter bebida e ninguém vira alcoólatra por conta de ir num casamento e beber um champanhe. Não temos que focar na bebida, na droga, mas na pessoa e tratar desta pessoa e não da droga. 

O QUE SÃO AS COMUNIDADES TERAPÊUTICAS?

Essas portarias que saíram da chamada comunidade terapêutica, que é um termo equivocado para essas instituições, pois vem de uma experiência de um pós-guerra através da experiência de Maxwell Jones, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Ele via que você dando liberdade de participação, o paciente não fica tão passivo e submetido ao tratamento, ele passa a ser co-participativo e a participar também da organização da instituição. Então, quanto mais democracia você dava na instituição, melhor era o tratamento, e por isso ele chamou de comunidade terapêutica. Trabalho em grupo, de troca entre eles, de ajuda mútua, isso facilitava o tratamento.

OS ESTADOS UNIDOS, AS IGREJAS E A COMUNIDADE TERAPÊUTICA

Esse termo nos Estados Unidos foi adotado também para essas instituições fechadas de abstinência total, forçada, que a gente chama também de comunidade terapêutica, que é um termo equivocado, porque não tem nada de democrático nessas instituições. O trabalho é forçado e a abstinência também. Não há liberdade. São administradas por grupos religiosos e complica muito. Eu já vi uma pessoa que trabalha numa instituição dessas falar que os 'pacientes quando têm recaída é porque ele ainda não colocou Jesus no coração'. Isso é um problema sério. A política da proibição é fracassada, tanto no sentido da política, como no sentido terapêutico. E essas pessoas estão tentando retroceder nesse processo por interesses econômicos, políticos e de poder, mas a gente tem que resistir.

RESISTÊNCIA

Se não temos mais um representante na coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde que leva adiante essa política, a gente luta nas ruas, nos espaços que temos, ou mostrando no campo científico o que entendemos com relação a isso. E a gente luta na resistência do trabalho do CAPS e de consultórios na rua, que existem ainda. Neste ano, a luta antimanocomial, além de todas essas questões contrárias ao manicômio, a gente está colocando também a discriminação do negro. A gente entende que um bom trabalho, uma boa estratégia de cuidado no campo da saúde mental, álcool e outras drogas tem que ser dentro de instituições públicas, para a população de modo geral. O SUS tem que estar fortalecido.

*O quadro Repórter SUS é uma parceria entre a Radioagência Brasil de Fato e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz)

Edição: Brasil de Fato RJ