Cinema

Sala cheia na noite de estréia de "O Processo" em João Pessoa

Documentário premiado internacionalmente narra os bastidores do golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff

João Pessoa (PB)

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Os ingressos esgotaram na primeira noite de exibição do filme em João Pessoa. / Fotos: Christian Woa

Poucas vezes se viu um trâmite político e jurídico tão absurdo quanto o que culminou no impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT). O filme O Processo, que estreou dia 17 de maio no Cine Banguê, em João Pessoa, acompanha a crise política e as etapas de cassação do mandato de Dilma, como bem resumiu a Senadora Gleisi Hoffman: "o que nós estamos fazendo aqui? O que estamos vendo é um jogo de cartas marcadas, com gado no brejo indo para o matadouro. Deveríamos poupar o tempo do Senado e da Nação. Este é um processo viciado”.

 Na Paraíba o filme está sendo exibido apenas em uma sala de cinema, no Cine Bangue, cinema da Fundação Espaço Cultural.

A diretora Maria Augusta Ramos esteve seis meses em Brasília captando imagens. O documentário passa exclusivamente pela ação do momento: os eventos vão se desencadeando sem nenhum tipo de locução, entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. O espectador tem acesso às reuniões que antecedem as comissões de ética e justiça, análises políticas, jurídicas, a estratégia da base aliada de Dilma e a todo o julgamento.

Segundo Nézia Gomes, presidenta da Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc), “é uma honra exibir esse filme porque a recebemos aqui na Praça do Povo, no Espaço Cultural, na última vez que ela veio à Paraíba, e agora vemos o filme sobre o golpe”. Ela também comentou que muitas salas de cinema comercial no país não o exibirão. No entanto, O Processo estará em cartaz em 60 salas de cinema de 24 cidades do país. No Banguê, ficará em exibição até junho. 

Estiveram presentes a sessão o governador Ricardo Coutinho e o advogado José Eduardo Cardozo, advogado de ex-presidente Dilma

Para Emanuelle Costa, estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a sociedade deve ter acesso ao filme. “A gente que está na militância acha de extrema importância mostrar como foi todo o falso impeachment da Dilma, trazer para a população, como se deu e quem estava por trás dessa grande farsa”.

O filme se desenrola a partir da denúncia aceita pelo Senado. A diretora acompanha, especialmente, a atuação de três personagens, que funcionam como linha condutora: os senadores Gleisi Hoffmann e Lindbergh Farias e o advogado de defesa de Dilma, José Eduardo Cardozo. Há uma tensão evidente, no esforço tático, no estresse psicológico e na luta para resistir ao golpe. 

Como peças de contraste na obra, também acompanhamos a atuação da advogada Janaina Paschoal e dos senadores Cássio Cunha Lima e Aloysio Nunes. A necessidade de aprovar o impeachment é, para eles, tão crucial que torna suas atuações caricatas. Na verdade, quando o absurdo se instala, as coisas ficam mais cômicas do que trágicas mesmo.

No meio de tanta bizarrice, onde não há devido processo legal, não há defesa, nem sequer crime, não há explicação lógica para o que está acontecendo, e assim o golpe é consolidado. A diretora Maria Augusta traz ainda uma série de elementos que expõem mais contradições simbólicas: congresso lotado/vazio, camisas da CBF/camisas vermelhas, polícia/cidadão. O roteiro, espontâneo, foi dos donos do poder, das elites e da mídia golpista. 

Oona Caju, professora de Direito da Universidade Federal Rural do Semi Árido (Ufersa) diz que o que aconteceu foi, sem dúvida, um golpe, e comenta que este foi um golpe muito sofisticado, que seguiu um rito constitucional, mas não tem conteúdo jurídico sustentável. E também elogia o filme: “provoca uma reflexão. Hoje, parar e olhar o passado, encaixar as peças, como esse golpe foi programado, nos dá um aprendizado muito grande, inclusive para trazer justiça para aqueles que lutam como o Lula e todo o povo brasileiro que está perdendo direitos a cada dia no país”.

Edição: Homero Baco