Moradia

Ocupação Mulheres Guerreiras é exemplo de protagonismo feminino

Duzentos e cinquenta famílias sem teto moram em obra inacabada do minha casa minha vida a quase uma ano em João Pessoa.

João Pessoa (PB)

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Moradores da ocupação Mulheres Guerreiras decidem resistir a despejo marcado pela Polícia Federal para o dia 21, segunda próxima. / Christian Woa



Há onze meses mais de 300 famílias fizeram de um emaranhado de concreto e mato um lar. Os 24 blocos de 16 apartamentos cada estavam sujos, sem fiação, porta ou janela. A obra iniciada pela Caixa para beneficiar famílias do projeto habitacional Minha Casa Minha Vida, no bairro das Indústrias, em João Pessoa, estava abandonado há quatro anos.

             Nidia (de amarelo) mora na ocupação com seus cinco filhos.

“No dia que ocupamos aqui, tinham aproximadamente trezentas pessoas, quando entramos o mato estava praticamente cobrindo os prédios, não tinha rede de esgoto, não tinha água, não tinha luz, estava praticamente tudo acabado. Nós entramos, tiramos o mato, arrumas a rua, colocamos energia, água encanada e hoje em dia estamos aqui porque precisamos”, explica Nidia da Silva Medeiros, de 27 anos. Mãe de cinco filhos, ganha um salário mínimo como funcionária pública. “Se não precisássemos não estaríamos aqui não. Quem ficou é porque não tem para onde ir. Tem outras pessoas de outras ocupações que vieram aqui, mas porque moravam em barracos e quando chove estoura de água, só sabe quem mora nessas condições”, completa.

     Duzentas e cinquenta famílias vivem na ocupação Mulheres Guerreiras no Bairro das Indústria em João Pessoa (PB).

 

Em novembro uma comissão com quatro moradores foi montada. Agindo de má fé esses negociaram suas casas e levaram os moradores a assinar documentos sem a devida checagem. Poucos dias depois, acompanhada da Policia Federal, a representante da Caixa Economica chegou com um ultimato: todas as famílias teriam de sair. O resultado foi uma primeira evasão do local.

Jociane dos Santos, 33 anos, foi uma das que permaneceu como ocupante. “Teve noite da polícia chegar aqui onze horas dizendo que veio só fazer uma visita pra ver como estava aqui dentro. Isso é muito constrangedor, temos filhos pequenos que ficam nervosos, nós também com isso, desde agosto, não temos mais o psicológico cem por cento”.



Janicléia da Silva é moradora em Mulheres Guerreiras e disse que não deixará a ocupação pois não tem alternativa de moradia.



A comissão foi deposta e uma revolução ocorreu. As mulheres assumiram a liderança do movimento, nomearam a ocupação de “Mulheres Guerreiras” e com o apoio do movimento por moradia Terra Livre reorganizaram a luta. Aos poucos, como a situação da moradia não melhora, as famílias foram voltando. Hoje são 250 apartamentos ocupados. “A importância das mulheres aqui é fundamental, porque fomos nós que tomamos a frente. Decidimos ficar só mulheres na comissão. Eu acho que as mulheres têm é tomar a frente de tudo”, diz Nidia com um sorriso no rosto.

Mas se a resistência se reorganiza, a repressão também. Na semana do dia 8 de maio, mais uma vez uma representante da Caixa Econômica, acompanhada da Policia Federal e da Polícia Militar deram um ultimato para as famílias saírem do condomínio. Mas, qual a alternativa que ofereceram? “Essa última vez que a Policia Federal veio eles não ofereceram nada. O negócio deles foi com a primeira comissão, eles ofereceram e aquela comissão aceitou. Como eles viram que com a gente não tem acordo, o negócio é ameaçar. Vieram dia oito e disseram que voltam dia 21, segunda-feira, já ameaçando com bomba, bala de borracha, spray de pimenta e que se não sair por bem vai sair por mau”, denuncia Nidia.





  A ocupação é habitada por famílias inteiras, é grande o número de crianças.



Janicléia da Silva, de 26 anos, também denuncia a truculência. “Aqui ficamos todos apreensivos, o mental fica a flor da pele. Não temos para onde ir aí vem a polícia tratar a gente como bandido? Não existe isso, somos pai e mãe de família, se a gente está aqui é porque a gente precisa”.

Mas todas essas mulheres guerreiras não fogem a luta. Mesmo com a iminência de desocupação e um possível enfrentamento com a polícia, mesmo temendo por seus filhos, pais e mães idosos, a palavra que guia seus passos é resistência. “Não tem lugar para ir não. Ficar lá na porta da Prefeitura junto com eles, ou dentro da casa do prefeito, tomando banho de piscina que é bom, os pirralhos gostam”, ironiza Janicleia.



  A obra inacabada do minha casa minha vida encontrava-se parada à quatro anos.



Já Nidia sugere continuar ocupando. “Eu iria procurar outro terreno. Eu tenho é cinco filhos, um salário mínimo não dá pra nada, tenho um bebê. Se for pra sair daqui, já que não tenho pra onde ir, todo mundo vai se juntar e ocupar outro lugar”. E no mesmo sentido segue Jaciane: “Eu ocupo qualquer lugar de novo, mas não volto para o aluguel”.

Em comum todas são mulheres, todas são negras, todas são mães. Mas, fundamentalmente, toda são guerreiras.

Edição: Paula Adissi