História

ARTIGO | A tal da Ismene Mendes

Lutadora dos trabalhadores, a advogada foi atraída para uma emboscada, espancada, estuprada e morta

Brasil de Fato | Uberlândia (MG)

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Em protesto, população da cidade renomeou praça Tubal Vilela para homenagear Ismene / Guilherme Gonçalves

O nome de Ismene tem aparecido bastante nos últimos tempos, sobretudo depois que parte da população uberlandense se mobilizou para renomear a praça Tubal Vilela com seu nome. Mas, até 2014, sua história era desconhecida pela maioria das pessoas. Pois foi justamente nesse ano, em janeiro, quando um grupo de teatro se reuniu com uma professora do curso de Direito da Universidade Federal de Uberlândia, a fim de pensar no roteiro de uma peça teatral que abordasse a temática da Ditadura. Nisso, a professora exibiu um livro que tinha recebido do Ministério de Direitos Humanos, sobre vítimas da Ditadura Civil-Militar e lá constava: “Ismene Mendes, morta em Patrocínio (MG) em 1985”.

Só isso.

Ismene Mendes nasceu na Fazenda Tijuco, na zona rural de Patrocínio, em 29 de janeiro de 1956, tendo aí vivido até meados de 1965, quando seus pais decidiram se mudar para a cidade, a fim de proporcionar uma melhor educação para a filha.

Por muitos anos, foi filha única de seu Almando, sindicalista, e dona Almelinda, dona de casa. De família humilde, sua infância e adolescência foram comuns, exceto pelo fato de, quase sempre, acompanhar seu pai nas reuniões dos sindicatos e dos camponeses. Desde muito cedo, inclusive, ela auxiliava o pai na condução e na organização dessas reuniões.

Seu Almando, em depoimento à Comissão da Verdade, conta que era bem comum que as sessões sindicais fossem espionadas por agentes da Polícia Federal. Além disso, muitas vezes, após essas reuniões, sindicalistas e trabalhadores eram perseguidos, por fazendeiros ou pelos próprios policiais, os quais lhes ameaçavam e agrediam, e, em alguns casos, assassinavam-nos. Importante lembrar que estamos falando de fatos ocorridos nas décadas de 1960 e 1970, ou seja, em plena Ditadura.

Ao terminar seus estudos em Patrocínio, veio para Uberlândia para cursar Direito na UFU. E, antes mesmo de se formar, Ismene presta serviços de assessoria jurídica gratuita tanto para os trabalhadores rurais quanto para o sindicato em que o pai atuava. Já graduada, tornou-se oficialmente advogada do sindicato.

Do depoimento de seus pais, consta que Ismene não advogava só para os trabalhadores rurais, mas também para qualquer pessoa da cidade que lhe procurasse na busca de socorro jurídico. Era comum, inclusive, que os habitantes de Patrocínio acreditassem que Ismene era uma espécie de “advogada remunerada pelo governo”, pois era notório seu empenho na defesa dos direitos dos mais humildes. Sobre isso, seu Almando afirma com orgulho que “quem batia na porta dela precisando de ajuda jurídica nunca recebia um não, e eram sempre os pobres explorados pelos poderosos”.

A vereadora

Em 1982, Ismene se candidatou ao cargo de vereadora do município de Patrocínio, pelo PMDB. Segundo seus pais, ela nunca teve grandes pretensões políticas e que a vereança foi muito mais um instrumento de luta pelos direitos dos trabalhadores do que um meio de satisfação pessoal. Fato que ilustra isso é que sua campanha eleitoral foi quase toda desenvolvida por companheiros e pessoas que, antes disso, foram ajudadas por Ismene, as quais se prestavam a andar pela cidade conversando e fazendo campanha.

O pai de Ismene afirma que “ela era muito honesta, muito franca e não aceitava nada errado”. Essa sua característica foi causa de frequentes embates dentro de seu partido, o PMDB, haja vista a intolerância de Ismene com práticas moralmente questionáveis.

O caso dos 70 trabalhadores mortos

Como membro do legislativo municipal, Ismene soube usar muito bem sua posição política em prol dos vulneráveis. Chama-se a atenção para sua influência no trâmite do Projeto de Lei 998/1983, que visava a obrigar o transporte de trabalhadores rurais e urbanos em ônibus adequados, proibindo que este fosse feito por meio de caminhões boiadeiros, por exemplo.

Tal fato se deu após um acidente trágico no município de Ituiutaba, o qual foi causa da morte de 70 trabalhadores rurais que estavam sendo transportados na gaiola de um caminhão, de forma totalmente perigosa e temerária. Ismene, além de ter atuado como advogada no caso, requerendo, judicialmente, a indenização das 70 famílias, deu início a uma grande mobilização política nacional, a fim de se regulamentar o transporte dos trabalhadores.

Por meio dessa atitude, a deputada federal Bete Mendes, também do PMDB, apresentou o projeto de lei já mencionado. Nas atas da Câmara dos Deputados, há, inclusive, um pedido de remissão do trâmite do processo a Ismene, feito por Bete Mendes.

Perseguição e morte

Na tarde do dia 10 de outubro de 1985, numa quinta-feira, Ismene, na volta do trabalho para casa, foi chamada por uma criança, um menino pequeno, em estado de desespero, "porque a mãe dele, grávida, estava embaixo de uma árvore sentindo-se mal e precisando de socorro". Ismene foi até o local imediatamente, acompanhando o menino, mas, ao chegar, foi rendida por fortes homens encapuzados que a arrastaram pelo mato, espancaram e violaram sexualmente. Antes de irem embora, seus agressores deixaram claro que, caso Ismene procurasse a polícia, o próximo encontro entre eles seria para matá-la.

Ismene, mesmo imunda e gravemente ferida, arrastou-se até seu carro e foi até a delegacia, onde fez o exame de corpo de delito. Nela, foram encontrados cascalho e lascas de madeira.

No inquérito policial, contudo, consta que Ismene teria simulado seu estupro e seu espancamento.

Importante ressaltar que ao menos cinco delegados foram sucessivamente nomeados para apurar tais acontecimentos. Um deles, aludindo ao seu predecessor, afirma que no final de seu brilhante trabalho, concluiu que os fatos do dia 10 de outubro de 1985 não passaram de uma SIMULAÇÃO ou AUTO-FLAGELAMENTO da vítima Ismene Mendes por se tratar de uma mulher de comportamento difícil e recalcada, com um comportamento instável em relação às pessoas.

Aqui chama-se a atenção para a perspectiva sempre machista das autoridades em relação a Ismene.

Doze dias após esse episódio, no dia 23 de outubro de 1985, Islene, irmã de Ismene, conta que a encontrou de manhã, ao que as duas almoçaram juntas em casa. Islene afirma que a irmã estava tranquila e não apresentava nenhum indício do suicídio que supostamente cometeria horas depois. Apenas soube-se, posteriormente, que houve fortes discussões na cooperativa em que Ismene trabalhava.

No final do mesmo dia, quando Islene retornou à residência da família, encontrou a casa cheia de gente estranha e várias pessoas em volta de Ismene, que estava deitada em sua cama. Ismene tentou falar alguma coisa à irmã, mas não conseguiu. Islene, então, perguntou se já haviam chamado a ambulância, ao que responderam que sim. Contudo, apesar de a casa da família ser muito próxima ao hospital, a ambulância só chegou quando já era demasiado tarde.

Ismene foi encontrada, já agonizando, por seu patrão, depois de ter (pelo menos de acordo com o inquérito) cortado os pulsos e ingerido Gastoxin, um veneno utilizado nas lavouras de café. Segundo seu patrão, Ismene deixara escritas várias cartas, em que explicitava a  intenção de se matar. Ao chegar em casa Islene viu tais cartas, mas não reconheceu nelas a caligrafia da irmã. Além disso, ocorreram dois outros fatos estranhos:

i. essas cartas simplesmente desapareceram do inquérito policial;

ii. o primeiro delegado responsável pelo caso questionou, diversas vezes, ao patrão de Ismene e aos demais membros da cooperativa que tinham ciência das cartas, por que eles, se sabiam da intenção dela de se matar, não tomaram nenhuma atitude no sentido de evitar o suicídio.

No outro dia, na Igreja Matriz, celebrou-se uma missa de corpo presente, pela alma de Ismene. Sobre isso, ressalta-se a já presente desconfiança em relação à versão de que Ismene teria se suicidado, haja vista a precaução da Igreja Católica em relação a pessoas que cometem suicídio, ainda mais nessa época.

Nos próximos meses, no âmbito estatal, os vários delegados incumbidos de apurar, tanto o caso da agressão e estupro, quanto do suicídio, não concluíram nada de substancial. Ademais, apenas dois meses depois, no dia 17 de dezembro de 1985, o promotor de justiça responsável pede o arquivamento dos autos, alegando que a pobre moça tinha problemas que a atormentavam, razão pela qual decidiu ela praticar o ato extremo de suicidar-se.

Aparentemente, o promotor estava se referindo a “versão oficial” usada para explicar o extermínio de Ismene Mendes, a qual foi mantida por quase 30 anos: a versão de que ela mantinha um relacionamento adulterino com seu patrão na cooperativa em que trabalhava e que, por ter engravidado e sido enjeitada por ele, simulou a agressão e estupro. Posteriormente, pela humilhação por ter sido “desmascarada”, não suportou a vergonha e se suicidou.

Mas Ismene Mendes, conforme autópsia, não estava grávida.

Também conforme diversas testemunhas, ela jamais manteve qualquer proximidade ou intimidade com o patrão.

Não que isso seja relevante. Tais comentários sempre tiveram tão somente o intuito de desqualificar a pessoa de Ismene Mendes como mulher, querida pelo povo e mais inteligente, competente e profissionalmente bem-sucedida do que a maioria dos homens que a cercavam.

Ismene não foi morta por nenhum detalhe inventado de sua vida pessoal. Tudo o que lhe aconteceu foi devido à sua coragem de desafiar as estruturas injustas de um sistema opressor e desigual ao qual ela estava inserido. 

O inconformismo e a bravura de Ismene foram sua própria sentença de morte.  

Teatro resgata história

A peça "Ismênia", encenada pela Companhia Artimanha, com roteiro escrito por Felippe Alves e por mim e direção de Geovânia Dias da Costa, foi apresentada para mais de 5 mil pessoas em Uberlândia, no Teatro Municipal, em Passo Fundo (RS) e em Belo Horizonte. 

Além disso, a Comissão da Verdade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, além de ter adotado o nome de Ismene, homenageou-a em seu primeiro relatório, "Caso Ismene Mendes: o legado classista, machista e fascista da ditadura civil-militar".

Por fim, no dia 25 de maio, será inaugurada na Faculdade de Direito da UFU, onde Ismene estudou, um busto seu, como ato de justiça e de reparação histórica. 

*José Renato Resende é advogado e pesquisador de Direitos Humanos, integrou a Comissão da Verdade do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba - Ismene Mendes e também escreve literatura.

Edição: Joana Tavares