DIREITOS HUMANOS

Danny Glover recebe denúncias no RJ de violência contra religiões afro-brasileiras

Ele afirmou que os movimentos populares têm um papel importante no combate à intolerância e ao racismo

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Glover compôs a mesa com integrantes da Comissão Popular da Verdade / Eduardo Miranda

Na tarde deste domingo (27), o embaixador da ONU para os direitos humanos e questões raciais, Danny Glover, se encontrou com representantes religiosos e de movimentos populares para debater a violência e a intolerância contra religiões de matriz africana. Glover compôs a mesa com integrantes da Comissão Popular da Verdade e com o babalaô Ivanir dos Santos, no Centro de Teatro do Oprimido (CTO), na Lapa, região central do Rio de Janeiro. Mais cedo, ele esteve na Rocinha para coletar depoimentos sobre violações de direitos humanos durante a intervenção militar.

Em denúncia contundente, a Ialorixá Luizinha de Nanã, que já recebeu, por iniciativa de parlamentares do PSOL, a Medalha Pedro Ernesto da Câmara dos Vereadores e o Prêmio Dandara da Alerj, mas que teve seu templo de candomblé, na Vila Autódromo, demolido pela Prefeitura do Rio por conta das obras dos Jogos Olímpicos de 2016, fez um pedido aos órgãos internacionais.

“Venho pedir a órgãos internacionais ou à própria ONU a interferência nos casos de violência, destruição, morte, espancamento, tortura de nós, negros seguidores de religiões afro-brasileiras, estamos sofrendo. Existem casos por todo o país, sendo o Rio de Janeiro lidera esses índices nefastos. Em vários municípios, homens armados com metralhadoras e fuzis invadem as casas religiosas, obrigam líderes religiosos a quebrarem toda a casa e os artefatos sagrados, com ameaça de cortarem as mãos das vítimas que não obedecerem”, contou ela, em carta entregue ao embaixador da ONU

Secretária de combate ao racismo da CUT, a professora Glória Ramos também denunciou a intolerância às religiões afro-brasileiras a partir de relatos que chegam dos presídios. Ela disse que a bancada neopentecostal na política entra nas celas para converter os presos, oferecendo privilégios, e para impedir a liberdade de fé religiosa de religiões de matriz africana.

“As pessoas que são da nossa religião, quando são presas, têm dificuldade de ter acesso ao seu sacerdote, já que os sacerdotes de religião de matriz africana dificilmente conseguem entrar em um presídio por conta da bancada neopentecostal, que cria dificuldades sutis que não podemos alcançar ou provar. Temos muitos desses relatos, sendo que ainda podemos assistir a privilégios de pessoas que se convertem dentro do presídio para poder ter acesso a uma TV, uma geladeira, um ar-condicionado, uma visita. Há uma disputa desses religiosos para dentro do presídio, onde pegam pessoas fragilizadas que não podem ter o conforto da sua fé”, relatou a secretária da CUT.

Após ouvir as denúncias, o embaixador da ONU fez uma analogia entre o Brasil e os Estados Unidos da Era George W. Bush. Segundo Glover, quando o republicano foi eleito, em 2000, “algo aconteceu na aliança entre a direita e as igrejas evangélicas”. Ele lembrou que o então candidato recebeu grandes benefícios, inclusive o apoio destas igrejas, fossem elas de brancos ou negros.

Glover afirmou que os movimentos populares do Brasil têm um papel importante na construção de uma frente de combate à atual conjuntura de intolerância e racismo. Ele se comprometeu a amplificar em todo o mundo, na condição de embaixador da ONU, as denúncias e as histórias que ouviu dos religiosos.

“Eu vim para ouvir. São histórias que eu posso abraçar e encontrar maneiras de disseminá-las para o resto do mundo, para que todos saibam  que está acontecendo aqui. Como embaixador da ONU na década de 2015 até dezembro de 2024, vou levar adiante essa luta. Todas essas estatísticas sobre a vida negra, a educação e a saúde do povo negro, a religião, as perseguições do povo negro, tudo isso vou usar para continuar a nossa luta”, ressaltou.

Após o encontro, o grupo Cor do Brasil, do Teatro do Oprimido, apresentou trecho de uma peça teatral em que discute a opressão causada pelo racismo e pela intolerância religiosa no Rio de Janeiro e no Brasil.

Edição: Vivian Virissimo