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Skatistas fazem da Praça XV, no Rio de Janeiro, lugar de resistência e cultura

A ampliação da voz dos skatistas da Praça XV teve como desdobramento a criação de uma associação cultural

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Skatista Arthur Guedes faz uma manobra em apresentação do encontro “I Love XV” / Foto: Fernando Menezes Jr/ Instagram @fmajuniorphoto

Com marcas da história da Monarquia e da República no Brasil, a Praça XV, no Centro do Rio, também guarda índices da contestação ao poder e à autoridade, como o monumento a João Cândido Felisberto, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata. 

Em tempos atuais, a resistência se transformou em ocupação do espaço público. Essa é a proposta do Coletivo XV, que surgiu há dez anos com a ideia de integrar a prática de skate à vida urbana dos cariocas. Como explica Wilson Domingues, mais conhecido como Wilbor, o coletivo, do qual ele é um dos fundadores, nasceu como fruto da desobediência ao poder público que havia proibido a prática do skate. 

“Na primeira fase, éramos expulsos da Praça. Agora, a modificamos visualmente. Mas modificamos não para transformá-la em uma pista de skate. Sentimos a necessidade de andar de skate na rua, porque nossa modalidade é o street skate. E não só para praticar o skate, mas também viver a rua, encontrar as outras pessoas, outros grupos urbanos, grupos de bicicleta, de hip-hop, de dança, estar no meio da rua e ver esse movimento, ter a liberdade de reinterpretar o espaço e ter a oportunidade de repensar o espaço e modificá-lo”, afirma Wilbor. 

Responsável pelo projeto mobiliário que começou a ser instalado na Praça XV a partir de 2012, à medida em que o Coletivo XV ia conseguindo vencer as barreiras da Prefeitura do Rio, Pharrá Buarque conta que a proposta sempre teve como objetivo a interação dos objetos com o espaço público, para que eles fossem utilizados não apenas pelos skatistas. 

“A ideia é que não tivesse cara de obstáculo de skate, queria que ele tivesse cara do mobiliário urbano onde não só os skatistas se identificassem para andar, mas como qualquer pedestre que estivesse passando entendesse aquilo ali da forma que ele achasse melhor, se ele visse como um banco e tivesse vontade de sentar, ou uma criança passando que quisesse passar em cima, se equilibrando e transformando aquilo em um brinquedo, então a ideia é que qualquer pessoa também que quisesse se apropriar ficasse à vontade para fazer isso”. 

Para Fabrício Sacramento, frequentador da Praça XV desde 1997, a tomada de consciência dos skatistas para reivindicar seus direitos foi a virada na relação com o poder público. Ele lembra que o Coletivo XV fez um levantamento do que era considerado patrimônio histórico-cultural, como o Paço Imperial e o Chafariz do Mestre Valentim, e do que não era, para rebater os argumentos da Prefeitura. 

“A partir daí, a própria Prefeitura começou a perceber que éramos um movimento organizado, embasado e com conteúdo para contar. Não era só uma reivindicação do tipo ‘ah, eu quero andar de skate’. O nosso primeiro projeto propunha soluções de como se adaptar o mobiliário urbano já existente na Praça para a prática de skate. Com a construção de um diálogo é que a gente foi crescendo perante os olhos do poder público, até de fato conseguir esse respeito”, comenta Fabrício. 

A ampliação da voz dos skatistas da Praça XV teve como desdobramento a criação da Associação Cultural do Skate, que desenvolve projetos para eventos sem fins lucrativos, como é o caso do encontro anual “I Love XV”. O principal evento do coletivo reúne skate, música, artesanato, gastronomia e atividades também voltadas para crianças, além de contar com uma “skateata” que parte de algum ponto da cidade até a Praça XV para lembrar sempre que a ocupação deve ser contínua e coletiva. 

Edição: Vivian Virissimo