Desigualdade

O ontem e o hoje da cidade não tão maravilhosa

Rio de Eduardo Paes e Marcelo Crivella lembra o de Pereira Passos

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Cronista João do Rio mostrou mazelas da cidade no início do século passado / Reprodução

Numa sequência de gestão Eduardo Paes e Crivella na prefeitura do Rio de Janeiro, somada à crise do estado, os cariocas não escondem suas preocupações. Aumento de violência, descaso com a saúde pública, desemprego, o crescente número de moradores de rua. Tudo isso está, paradoxalmente, presente na Cidade Maravilhosa. A cidade dona desse título, na verdade, sempre se revelou partida, como informou o jornalista Zuenir Ventura em seu livro de 1994. 

A bem da verdade, suas mazelas sempre estiveram presentes, até mesmo quando a cidade se encontrava no período denominado belle époque, outro paradoxo. A “beleza” da época foi apenas para alguns, como ocorreu recentemente nas reformas urbanas orquestradas por Eduardo Paes sob a justificativa dos eventos olímpicos. 

Na belle époque, quem estava à frente era o então prefeito Pereira Passos. De um lado, um Rio que queria ser Paris: alargamento de ruas, saneamento urbano, embelezamento de praças, construção do Teatro Municipal e da Avenida Central (atual Av. Rio Branco), entre outros projetos de urbanização e modernização. No entanto, para isso, foram demolidos prédios e casas. Na construção da Avenida Central, por exemplo, foram demolidos 550 prédios. Dados do Censo Demográfico de 1906 do Rio de Janeiro revelam que no Distrito de São José, onde foi construída a Avenida Central, o número de habitantes por prédio era de 24,2 pessoas. Isso significa que, aproximadamente, 13 mil pessoas foram desalojadas, ou seja, 6% da população da cidade. Ao aplicar esse índice sobre o total da população atual do Rio de Janeiro, chega-se a 388 mil pessoas. Para se ter ideia da dimensão do bota-abaixo, é como se toda população dos bairros do Flamengo, Botafogo, Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon fosse desalojada.

Assim, grande parte dos moradores dessas regiões foi viver nos subúrbios e outra passou a habitar os morros do centro da cidade, os quais eram até então pouco ocupados. O que existiu foi uma reforma excludente, um aburguesamento em detrimento das camadas populares. A população de baixa renda ficou, então, fadada a viver sem as benesses oferecidas pelas renovações urbanas. 

Essas contradições da modernização do Rio de Janeiro ficaram eternizadas nos textos do cronista João do Rio, publicados na “Gazeta de Notícias”. Está aí uma das importâncias do papel do jornalista e da imprensa: ser a escrita de um tempo, como bem nos fala a historiadora Margarida de Souza Neves. No caso do jornalista, que também se revelou escritor, a relação com a cidade estava marcada no seu próprio nome. Paulo Barreto se tornou João do Rio. Em seus textos do início do século XX, nos deparamos com os problemas que permanecem até os dias atuais: excesso de benefícios para a classe política brasileira; corrupção; má gestão pública que, segundo o jornalista, é peça fundamental para atrasar o crescimento de um estado e a qualidade de vida dos que nele vivem; diferenças entre a Zona Norte e a Zona Sul; enchentes em dias de chuva; precárias condições de trabalho; exploração de mão de obra; falta de acesso à saúde pública. Depois de mais de um século, percebemos que não faltam problemas. O que está faltando, honestamente, é um projeto que rompa com a política de manutenção de privilégios e governe para toda a população. Em ano de eleição, não custa olhar para o passado a fim de tentar compreender o presente. 

* Aline Novaes é professora titular do IBMEC-RJ. Doutora em Literatura, Cultura e Contemporaneidade e mestre em Comunicação Social, desenvolveu pesquisa de Pós-Doutorado na PUC-Rio. É autora do livro “João do Rio e seus cinematographos: o hibridismo da crônica na narrativa da belle époque carioca” (Mauad X/Faperj, 2015), indicado ao Prêmio Rio de Literatura, e co-organizadora de “Rio Circular: a cidade em pauta” (Autografia, 2016).

Edição: Eduardo Miranda