CRISE

"Acredito que teremos uma rebelião", diz sindicalista argentino sobre volta do FMI

Em entrevista, Juan Grabois afirma que acordo com FMI viola a soberania nacional e pode trazer a fome ao país novamente

Grabois qualifica os acordos com o FMI como "uma ditadura economica estrangeira" e um "autogolpe" do governo Macri. / Melisa Salvatierra/Tercer Condón

A fome tira o sono de Juan Grabois. A fome real, essa pela qual ele nunca passou, mas que viu nas panelas do povo em 2011. “Agustín Tosco dizia que não somente se luta contra a injustiça de qual se padece, mas também por aquela compreende. Porque como a compreende, pode senti-la como própria”, disse, em sua conversa com o Tercer Condón.

Esse sofrimento, que logo aprendeu no início deste século, é o que ele não quer ver de volta com o regresso da Argentina ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Sentado em um das salas da Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), que fica em Constitución, bairro de Buenos Aires, capital da Argentina, o representante da entidade, professor de Teoria do Estado na Universidade Federal de Buenos Aires e dirigente social, não hesita em afirmar que a chegada do FMI provocará uma rebelião. Ressalta que o povo argentino não suportará uma ditadura econômica estrangeira que cause a fome como aconteceu nos anos 90. Qualifica de autogolpe o que acontece no país. E propõe uma grande frente opositora para fazer frente ao neoliberalismo. Confira a entrevista.

Tercer Condón - Como você analisa o possível acordo com o FMI?

Juan Grabois - Estou obcecado com este assunto e o estudo em termos científicos – não apenas ideológicos. Por hora, eles não revelam as condições do acordo e não querer revelar é um problema. De maneira sutil, Cristine Lagarde [diretora-gerente do FMI] disse que o plano econômico deste acordo foi desenhado inteiramente por [Mauricio] Macri [presidente da Argentina]. Ela até se pronunciou no Twitter, dizendo algo como “depois não me culpem”. Uma das coisas que eles vão buscar com esse acordo é que ele sirva depois para justificar os ajustes. Para a geração 2001, a palavra FMI é miséria, fome e desesperança. É muito perigosa a subordinação política e econômica da Argentina a organismos que não tenham sequer representantes físicos aqui.

Como você acha que o povo vai reagir ao acordo?

Acredito que vamos ter uma rebelião. Para além da vontade dos dirigentes, se isso chegar esquematizado de maneira similar aos anos 90, creio que teremos uma rebelião bastante séria.

Estão dadas as condições para que isso aconteça?

O povo não vai engolir uma ditadura econômica estrangeira que o fará passar fome. Uma coisa é suportar um mau governo eleito. Outra coisa é aguentar uma ditadura econômica estrangeira. O povo argentino, quer gostemos ou não, escolheu que essa gente que nos governa defina as políticas econômicas do país - e não a Cristina Lagarde e um bando de tecnocratas da Universidade de Chicago que por todos países que passaram, deixaram um rastro de sofrimento. Não podemos deixar que a fome de 2001 volte. É para isso que não queremos voltar.

Isso mudará completamente a relação dos argentinos com o governo?

Nós sempre dizemos que o pior que pode acontecer com nosso povo é voltar a uma situação como foi a de 2001 ou que o governo não termine seu mandato, por que os que mais sofrem são nossos companheiros. Por isso sempre dialogamos. Mas o que temos agora de fato não é um governo, e sim uma administração colonial dos interesses do capital, que o usa e o joga fora como fizeram com tantos personagens sinistros da história de nosso país. Pensar que o inimigo é Macri é ter uma visão muito pequena.

Se o acordo com o FMI sair do papel, os métodos de fazer oposição vão mudar?

Entendemos que o método de luta deste momento histórico tem a ver com a construção do poder popular, com a luta de reivindicações e, para alguns companheiros, com a luta institucional. Todos os métodos sempre dentro dos marcos institucionais. Se o contrato se quebra porque volta a haver uma administração colonial na Argentina, seguramente vai mudar a visão de muitos de nós sobre quais são os métodos de luta que devem ser aplicados. Tem a ver com não voltarmos à fome grave. Eu tenho muito respeito por esse conceito tão terrível como é a fome, nunca usamos ele para justificar uma luta específica. Se isso chegar ao ponto da luta pela subsistência, os métodos mudam e adianto que serão muito diferentes do que temos hoje.

E se o governo garante que as políticas sociais continuarão, mesmo com o FMI?

A garantia disso tem que ser bastante clara. Estamos com um patamar muito baixo de direitos sociais, não podemos baixar ainda mais. E muito menos podemos seguir abaixando nosso patamar para garantir que um bando de delinquentes internacionais siga levando 40% dos juros das Lebac [títulos da dívida em curto prazo licitadas pelo Banco Central argentino]. Nenhuma pessoa que tenha responsabilidade com os trabalhadores, com os mais humildes, pode tolerar isso.

Você se arrepende de ter priorizado o diálogo durante este período?

Estou muito orgulhoso de ter priorizado o diálogo. Entendemos que, mesmo se quiséssemos, não havia nenhuma possibilidade e nenhuma correlação de força para poder impor, neste momento na Argentina, um modelo de distribuição da riqueza radicalmente diferente do que temos agora. Um modelo que implicaria, por exemplo, na nacionalização de todo setor agroexportador. Então temos que dialogar e coexistir. Por isso sempre buscamos os melhores acordos possíveis. Mas o contexto muda quando sai dos marcos institucionais da democracia e aparecem atores externos que não são democráticos, porque o nosso povo não votou no FMI.

"Nós sempre dizemos que o pior que pode acontecer com nosso povo é voltar a uma situação como foi a de 2001". (Foto: Melisa Salvatierra)

Você escreveu no Facebook que este é um autogolpe…

Dar o controle da economia de um país a um núcleo transnacional, estrangeiro, é delegar a soberania, que é algo indelegável. Então há um autogolpe, não tenho a menor dúvida. Temos que avaliar em termos bastantes sérios esse acordo porque há muito em jogo.

Você chegou a alguns dias de Roma. Como você avalia a posição do Papa em relação ao FMI?

É uma atitude indigna se esconder atrás da batina do Papa. Me refiro ao fato de que qualquer dirigente social ou político que tenha uma relação com ele não possa justificar sua opinião pela dele. Nossas posições e nossas decisões são nossas e assim deve seguir sendo. Seria muito ruim que nós justificássemos o que fazemos a partir do que ele diz, e também seria muito ruim se ele nos dissesse o que temos que fazer.

Mas o acordo do FMI não parece contrário à mensagem do Papa?

O Papa se expressou com bastante clareza em muitas ocasiões de maneira diametralmente oposta ao programa do governo, não há dúvida. É um governo subordinado à idolatria ao dinheiro. O dinheiro não apenas como elemento econômico, senão também em sua pior faceta que é a financeira. Ademais, em termos filosóficos, aqui se tenta importar uma ideia que tem a ver com a cultura anglo-saxã da meritocracia. Isso é um ideal que não compartilho e o Papa falou disso de maneira bastante clara: há um ideal superior que é da justiça social, que foi formulado por Santo Agostinho e que depois foi retomado por Marx, que diz “cada qual segundo sua capacidade, cada qual de acordo com suas necessidades”. Esses valores comunitários são contrários à ideia da meritocracia.

Existe meritocracia na Argentina?

Temos um governo e uma classe empresarial que é parasitária na Argentina. É dependente de uma pátria contratista. São todos uns canalhas. Há pouco talento, pouca inovação, poucos daqueles que os liberais chamariam de iniciativa própria. Aqui não foram feito ricos como Bill Gates, que chegou lá inventando coisas. Entendo que o presidente não inventou nada e nem é filho de um trabalhador. A maioria dos funcionários do governo não tem mérito algum. A meritocracia é falsa como conceito de fundo e é falsa em sua aplicação prática.

Porque o setor da economia popular segue crescendo em nível mundial?

Há um conceito do pensamento social do Papa Francisco que me parece bastante interessante, que é o paradigma tecnocrático. Na fase atual do desenvolvimento do capitalismo existe uma aliança entre as altas finanças e a alta tecnologia, aliança esta dominada pelas finanças. A tecnologia, assim, está a serviço da ganância e não ao bem-estar da humanidade. Esse paradigma não é algo que foi escrito em um escritório dos Estados Unidos onde se conspira contra a humanidade, senão que é uma lógica de funcionamento que faz com que se aplique a robótica, a biotecnologia, os processos de automatização unicamente para gerar maiores benefícios para as empresas. E isso gera dois fenômenos sociais: o primeiro é a exclusão. Tem a ver com o descarte do ser humano, que é visto como um recurso, substituível por outro de maior produtividade do ponto de visto mercantil. Isso faz crescer nosso setor. E o segundo fenômeno social é a degradação do meio ambiente, que ninguém pode dizer que é uma consígnia “hippiezona” do Greenpeace. Essa destruição está afetando de maneira concreta e real a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

E como ela pode ser freada?

Esse paradigma global é a mãe de todas as batalhas. Essa aliança entre tecnologia e finanças pede uma aliança popular entre os trabalhadores que seguem mantendo o emprego clássico com os descartados, que são os que estão na economia popular e produzem sua existência com aquilo que o sistema descartou. Poderíamos agregar um terceiro componente para esta aliança que são os indignados. Os que não sofrem na própria carne essas injustiças, mas que observam que não há futuro para a humanidade se ela continuar assim.

Como se daria essa aliança na Argentina?

Acreditamos que precisamos de uma central sindical que agrupe toda a classe trabalhadora. Isso envolve trabalhar pela unidade em dois sentidos: um mais estrutural, que é a incorporação dos trabalhadores da economia popular nas estruturas sindicais argentinas; a outra é a unidade político do movimento dos trabalhadores. E ambas as coisas são difíceis.

Por que?

É difícil para um dirigente com a mentalidade da sociedade industrial entender que a exclusão do mercado laboral não é um estado transitório no desenvolvimento capitalista, senão algo permanente dentro do paradigma tecnocrático. Que entenda que não é algo que se resolva com uma política ou com a aplicação de certo conceito neokeynesiano – e nem tampouco com um governo popular. Nosso setor seguirá existindo enquanto existir o capitalismo. Por outro lado, há níveis de mesquinhez e de posicionamento que tem muito pouco a ver com os interesses dos trabalhadores. Esses interesses lamentavelmente determinam como se organiza o movimento laboral hoje. Então, essa arte de construir unidade nessas condições é complexo.

Edição: Traduzido e adaptado por Pedro Ribeiro Nogueira