Ataques

Israel mata enfermeira em Gaza durante Marcha do Retorno

Ao mesmo tempo, o Parlamento israelense visa impedir a documentação em foto e vídeo de soldados israelenses em serviço

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Com a morte da jovem Razan Ashraf Al Najar, o número de vítimas fatais subiu para 126, desde 30 de março
Com a morte da jovem Razan Ashraf Al Najar, o número de vítimas fatais subiu para 126, desde 30 de março - Reprodução

A enfermeira Razan Ashraf Al Najar, 21 anos, foi baleada por soldados israelenses, em Khan Yunis, em Gaza, enquanto resgatava feridos palestinos, na última sexta-feira (1). Razan foi atingida enquanto prestava os primeiros socorros a feridos que participavam da Marcha do Retorno, segundo o Ministério da Saúde da Palestina.

Com a morte de Razan, aumenta para 126 o número de óbitos desde o início da Grande Marcha do Retorno, em 30 de março. Vinte e três corpos ainda estão sob poder das autoridades israelenses.

Diante desse cenário e dos inúmeros crimes cometidos por Israel na Faixa de Gaza nos últimos meses, o deputado israelense de direita Robert Ilatov, com o apoio do ministro israelita da Defesa, Avigdor Lieberman, elaborou uma proposta de lei que foi apresentada na semana passada no Knesset – o Parlamento de Israel – e visa impedir a documentação fotográfica e videográfica de soldados israelenses em serviço.

De acordo com o texto, divulgado pela imprensa israelense, "quem filmar, fotografar e/ou registar soldados no exercício das suas funções, com a intenção de minar o espírito dos soldados do Exército e dos habitantes de Israel, incorre numa pena de cinco anos de prisão. Quem procurar prejudicar a segurança do Estado será condenado a dez anos de cadeia".

O autor da proposta defende que Israel tem a "responsabilidade de garantir às tropas israelenses ótimas condições para a execução das suas tarefas, sem se preocuparem com organizações de esquerda" – nome que é dado a diversas organizações de defesa dos direitos humanos, como a B'Tselem, que têm documentado a ação das tropas de ocupação de Israel no terreno.

O documento está sendo alvo de fortes críticas por constituir mais uma tentativa de silenciar quem divulga e põe em xeque as práticas do Exército israelense.

Em comunicado, o Sindicato dos Jornalistas Palestinos (SJP) classificou a medida como "um ataque severo à profissão", que visa "legitimar as práticas criminosas cometidas pelo Exército de ocupação israelense contra o povo palestino". A proposta constitui também uma tentativa de Israel de "escapar do castigo e da Justiça internacional", garantindo "legitimidade a futuros crimes da ocupação", denuncia ainda o SPJ, citado pela PressTV.

A Organização de Libertação da Palestina (OLP) destacou o ataque aos direitos de liberdade de imprensa e de expressão contido na proposta, acrescentando que, se as tropas do Exército israelense não têm nada a esconder, "não há mal algum em documentar as suas ações contra os palestinos". 

"Israel está manipulando o seu chamado sistema legal democrático para garantir cobertura aos seus crimes de guerra" e "proteger os seus soldados de qualquer responsabilidade judicial", lê-se no comunicado emitido pela OLP, citado pela agência russa RT.

Violência histórica

Existem registros fotográficos e em vídeo da brutalidade da ocupação israelense na Palestina ao longo dos anos. Em tempos mais recentes, esses registos multiplicaram-se, tornando-se "virais" nas redes sociais e levando a uma condenação mais ampla das ações das tropas israelenses e da sua brutalidade contra os palestinos.

Os exemplos recentes aumentaram exponencialmente com a brutal resposta militar aos protestos pacíficos da Grande Marcha do Retorno, na Faixa de Gaza ocupada, nos quais foram mortas mais de 110 pessoas, desde 30 de Março.

Houve fotos que assumiram um caráter "icônico", pelo modo como registaram a brutalidade da repressão israelense contra o povo palestino, ajudando a combater os discursos, também midiáticos, que põem lado a lado vítimas e assassinos.

Em um dos materiais em vídeo – filmado pela B'Tselem em 2016 – vê-se o soldado Elor Azaria atirando, a sangue frio, em um palestino ferido e imobilizado no chão, em Hebron (margem Ocidental ocupada).

Por causa do vídeo, o soldado foi levado a tribunal e condenado por homicídio. A pena de 18 meses de cadeia foi reduzida pelo menos duas vezes, de acordo com a PressTV, e Azaria já se encontra em liberdade.

Segundo declarações de um deputado da esquerda israelense à RT, o caso de Elor Azaria está na base da proposta apresentada, que tem como objetivo evitar que situações como essa se repitam. Ou seja, que soldados israelenses sejam condenados pelos crimes que cometem contra o povo palestiniano.

*Com informações da Abri Abril.

Edição: Portal Vermelho