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A esquerda e os caminhoneiros: quando a vontade não basta

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Um dos principais pontos de reivindicação da categoria foi a isenção da alíquota de PIS/Cofins sobre o diesel / Tomaz Silva / Agência Brasil
A contradição é real e com potencial mobilizador

Tudo sempre está em disputa. Mas, diversas lideranças e correntes de esquerda defenderam que era possível disputar o recente movimento dos caminhoneiros. O debate não é secundário, situações similares tendem a ocorrer na conjuntura e precisamos saber como enfrentá-las.

A contradição é real e com potencial mobilizador. A bandeira de luta contra os reajustes no diesel e na gasolina é legítima. Também é inquestionável a presença de caminhoneiros trabalhadores nas empresas e autônomos que enfrentam um cotidiano de exploração. 

Serão estes, porém, os fatores que determinam a possibilidade ou a correção de disputar um movimento? Ou a resposta se encontra no campo da política? 

O recente movimento que se disse dos caminhoneiros nasceu articulando grandes e médias empresas de transporte a caminhoneiros autônomos e agregados. Uma combinação de locaute e greve. 

Ou seja, frações burguesas associadas à pequena burguesia, com uma direção frágil, controlada por representações destes setores de classe, empunhavam uma bandeira reacionária: a extinção de impostos que incidem sobre os combustíveis, como a CIDE e COFINS, para reduzir o preço do diesel. 

Portanto, o movimento atendia mais aos interesses das transportadoras. Primeiro porque a redução do preço do diesel, com a retirada dos impostos, incide negativamente sobre os próprios caminhoneiros, uma vez que repercute sobre políticas sociais como saúde, educação e segurança pública, das quais eles são dependentes.

Por outros lado, a única vantagem, que seria a queda do preço do combustível, tende a ser apropriada pelas transportadoras e pelos embarcadores de carga via a redução do frete.

Importante também levar em cosideração que enfrentamos um contexto em que o golpe do neoliberalismo impôs às forças populares o poder repressivo do Estado, o poder das mudanças econômicas e dos valores fascistas. 

A consequência é que, desavergonhadamente, se brada hoje nas ruas, na mídia e nas redes sociais – e a isso não estiveram estranhos os caminhoneiros – a defesa da intervenção militar, da tortura, do racismo, da misoginia e da homofobia. 

Além disso; defende-se a entrega do patrimônio da Petrobras e das riquezas do Pré-Sal ao capital estrangeiro e se defende a repressão e o ódio aos sindicatos e movimentos populares, como o fizeram em grande medida os caminhoneiros.

O movimento locaute/greve dos caminhoneiros era impermeável à disputa pelas forças de esquerda, mas a solução política à contradição que ele enfrentava tem que ser disputada.

Numa tal situação, a disputa possível e necessária não se colocava lançando a militância de esquerda ao encontro daqueles vinculados ao movimento pela redução do preço do diesel, o que parece ter sido naturalmente apreendido até mesmo pelos que defendiam essa atitude, eis que, com raras e honrosas exceções, se privaram eles mesmos de adotá-la.

Edição: Simone Freire