Lula

Artigo | Lula: os vinte e um livros em cinquenta e sete dias

"Quando cada uma das linhas das suas leituras traz em si um mundo que não cabe em nenhum livro"

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"Nas vinte e quatro horas que vão do piquete no sindicato ao claustro em Curitiba já tem mais de 3 mil páginas de história" / Francisco Proner Ramos/Farpa Coletivo

Nos três primeiros dos 57 dias, você não lê nada. Há muita adrenalina por ter sido amado, abraçado, retido no sindicato longe do alcance da polícia, depois ter ido ao palanque falar um dos discursos mais importantes de sua vida, um discurso histórico, emocional, emocionado e emocionante para, por fim, ser carregado pela multidão. Tornar-se uma ideia para além do homem é coisa que te mexe por dentro. Então chega o bando dos autoritários que se acham acima do melhor presidente que o Brasil já teve. Tudo isso mexe muito com a cabeça e viver isso já é por si só escrever, muito mais do que ler. Nas vinte e quatro horas que vão do piquete no sindicato ao claustro em Curitiba já tem mais de 3 mil páginas de história.

Digamos que, então, chegado o quarto dia, você se deu conta de que estão te isolando do mundo. Os policiais te contaram em tom de chacota que seu amigo Leonardo Boff não teve permissão para te encontrar. Depois veio o Eduardo Suplicy e, finalmente, aquele argentino que é prêmio Nobel, o Adolfo Pérez Esquivel. Não deixaram eles entrarem. Você se senta em posição de lótus e pensa no que fazer neste momento. Tanta vida já rolou, tanta transformação você já produziu. Acho que agora você já pode se acalmar e deixar que o tempo consolide melhor as coisas. As coisas, você sabe, elas têm seu próprio ritmo de maturação. A agonia e os pensamentos em alta velocidade vão te consumindo as horas. Não tem internet. Não tem TV a cabo.

"Seu guarda, tem um lugar aqui onde o detento possa fazer exercícios físicos?", você pergunta. "Preciso encontrar meios de aproveitar esse tempo." Então começam a chegar as cartas. Cartas de todos os cantos do país. O povo brasileiro te ama. São inúmeras as cartas. Muito mais do que 3 mil páginas. E você está com tempo livre. Quer ler todas. A cela toda tomada de lágrimas e assim o tempo voa, flutuando no afeto daquela gente que você tanto gosta.

Agora começa a poder receber algumas visitas. "Tragam-me uns livros, por favor?", você pede aos familiares. Você relê primeiro "O manifesto comunista". Curtinho. Esse foi rápido. Olha para a pilha que te deixaram e encontra o título "Escuta, Zé-Ninguém" e se sente atraído. Você pensava que falava do povo simples e, para sua surpresa, se dá conta de que o Zé Ninguém deste livro é o povo que te prendeu, como havia também prendido o autor deste livro desabafo, décadas atrás. Você agora se identificou:

"Para não ser escravo fiel de um único senhor, e ser escravo de todos, terás primeiro que matar o opressor, digamos, por exemplo, o Czar. Este crime político nunca poderia ser perpetrado sem um grande ideal de liberdade e motivos revolucionários. É, portanto, necessário fundar um partido revolucionário de liberdade sob a égide de um homem verdadeiramente grande, seja ele Jesus Cristo, Marx, Lincoln ou Lenin. Claro está que este grande homem tomará a tua liberdade muito a sério", diz o Reich ao Zé Ninguém e isso fala diretamente à sua alma. Em algum lugar do livro, você lê que o título original era "Rede an Den Kleinen Men", Kleinen Men significa homem pequeno. Difícil você não chamar o Kleinen Men de Moro, de Temer, de pato, de paneleiro.

Mas depois de ler um texto tão emocionante, é hora de ler algo mais leve. Um romance. Que tal "Cem anos de solidão"? Longo e te ocupará por muito tempo. Mas uma hora você acaba se identificando com as lutas anticoloniais de Aureliano Buendía. Os cem anos se passaram em 3 dias. Seus 57 dias de cárcere seriam, então, muito mais do que cem anos de solidão. Te trouxeram na pilha um exemplar em português de "Gandhi, o apóstolo da não violência", de Adolfo Pérez Esquivel. É curtinho também. O único livro do Esquivel em português. Que pena.

"O Capital no Século XXI". Esse livro do Thomas Piketty estava na sua fila de leituras havia algum tempo. Chegou a sua hora. Você o devora em poucos dias também. Mas essa já foi uma leitura mais cansativa. Complicada, falando economês, 672 páginas.

"Preciso ler poesia", você diz. E então começa uma saga. Você se lembra de um abraço bom que ganhou da Alice Ruiz. E lê o livro "Dois em um" numa só sentada. Que delícia! Poemas que falam de vida, do universo feminino! "Como se chama a autora daquele poema tão bonito sobre a morte da Marielle Franco?", você pergunta a um visitante. A pessoa se debulha para encontrá-lo. E acha: Micheliny Onça Verunschk. Te trazem, então a "Geografia íntima do deserto".

A pessoa que te trouxe este último aproveita para mostrar aquele lindo poema "Bendigo os altos céus que te azulam, Garanhuns", do Ricardo Aleixo, em que num trecho vibrante, ele diz:

"Ao bendizer-te, cidade,

saúdo todo o teu povo,

esse povo abençoado

por ter como conterrâneo

alguém que por onde passa

deixa um rastro de luz

tão intensa quanto a que

deixaram Gandhi, Luther King,

Toussaint Louverture, João

Cândido, Rosa Luxemburgo,

Nzinga, Zumbi, Malcom, Che,

Mandela, Bolívar, Martí, Jesus:

alguém que desde menino

soube que o seu destino

é espalhar pelo mundo]

sua palavra de força,

que, transformada em ação,

azula o cinza dos dias

de tanta gente sofrida,

sem casa, trabalho, estudo,

saúde e festa, sem água,

sem paz, sem pão; alguém

que eu nunca vi de perto,

mas guardo na parte mais

bem guardada do quilombo

que é o meu coração."

"Que coisa maravilhosa que é a poesia!", você pensa. E consegue um exemplar de "O mundo palavreado". E depois você começa a se atualizar. Avisa para os seus fornecedores de livro que quer ler só poesia. E lê então a antologia "É agora como nunca: antologia incompleta da poesia brasileira contemporânea", organizada por Adriana Calcanhotto. Chega a ensaiar um bailado ao ler o lindo poema do Paulo César de Carvalho. Consegue um livro do Ricardo Chacal, "Tudo e mais um pouco". Depois um outro da Meimei Bastos, "Um verso e mei". Agora um clássico: "A rosa do povo" do Drummond volta a pedalar diante de seus olhos. E Murilo Mendes também te entusiasma, embora ache esse um pouco mais estranho. Te trazem a nova edição do "Maiakovski" traduzido por Augusto, Haroldo de Campos e Boris Schnaidermann.

"Ah, deixa eu ler um livro de contos agora!", você diz. E lê "Olhos d'água" da Conceição Evaristo. Fica tão emocionado que resolve ler outro dela. "Deixa eu ver esse "Ponciá Vicêncio". Conceição te enredou. "Estão querendo que ela vá para a Academia Brasileira de Letras", alguém te diz. E você concorda que ela merece, enquanto abraça "Becos da memória".

"Aquele negócio de antologia, achei legal." Então lê "50 poemas de revolta". E depois volta pros autores: "Um útero é do tamanho de um punho", da Angélica Freitas. E "Cair de Costas", do Ronald Augusto, "Dia bonito para chover", da Liv Natália. E "As aventuras de Cavalodada em mais realidades que canais de TV", do Reuben Da Rocha. E este "Mastodontes na sala de espera", do Bruno Brum, que tem um poema engraçado sobre um certo "Congresso internacional de Pessoas Jurídicas". Mas que curioso o nome deste: "Use o assento para flutuar", de Leo Gonçalves. A frase do avião. Ando mesmo flutuando nas leituras. Vou lê-lo.

Pois é. Tem gente aqui fora que pensa que você está se esforçando como um cavalo para ler 150 páginas por dia, quando cada uma das linhas de suas leituras traz em si um mundo que não cabe em nenhum livro de 3 mil páginas. E amanhã chega um novo carregamento de poesia contemporânea, Lula. Você vai se esbaldar.

*Leo Gonçalves é poeta, tradutor e autor de “Use o assento para flutuar” (Ed. Crisálida, 2018). Escreve no www.salamalandro.redezero.org.

Edição: Joana Tavares