Retrocessos

Corte da Bolsa Permanência é racismo institucional, afirma estudante indígena

A ameaça no auxílio a estudantes indígenas e quilombolas também atingem as comunidades em fortalecerem suas lutas

Brasil de Fato | Belém (PA)

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Ato reuniou estudantes, professores, parlamentares e lideranças indígenas e quilombolas em Belém no auditório da UFPA / Márcio Nascimento

Estudantes indígenas e quilombolas da Universidade Federal do Pará (UFPA) se reuniram nesta segunda-feira (11) com parlamentares do estado, representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e a associação dos discentes para discutir os cortes na Bolsa Permanência.

A reunião ocorreu no auditório central do Centro de Convenções da UFPA, em Belém. O Programa de Bolsa Permanência é um auxílio financeiro a estudantes matriculados em instituições federais de ensino superior em situação de vulnerabilidade socioeconômica, além de estudantes indígenas e quilombolas.

O Ministério da Educação (MEC) anunciou que irá ofertar 800 bolsas este ano a nível nacional, mas a demanda, de acordo com o levantamento feito pelos indígenas e quilombolas, é que até o final do ano cerca de cinco mil novas vagas seriam necessárias para o programa.

Edimar Kaingang, representante da associação dos povos indígenas estudantes da UFPA, conta que ao todo há 190 alunos indígenas matriculados, 185 na graduação e 5 da pós-graduação. Dos 185, 73 ingressaram esse ano e estão sem poder acessar o auxílio.

A Bolsa Permanência de R$ 900 é a oportunidade que muitos estudantes têm para custear seus estudos, sejam alunos que moram no estado do Pará ou então são de outros estados, como é o caso dele, natural de Santa Catarina e faz doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA. Edimar avalia que os retrocessos nas políticas púbicas aos estudantes que pertencem aos povos e comunidades tradicionais é uma prática de racismo institucional do governo golpista.

“O Retrocesso é tão grande que ele compromete a permanência indígena e quilombola na universidade. É uma política racista, porque é um outro tipo de racismo, que a gente chama na academia de racismo institucional, aquele racismo que está enlameado pelas decisões, por leis, por documentos que são elaborados no sentido de excluir povos étnico-raciais e nós que pertencemos aos povos indígenas estamos no sentindo excluídos nesse momento”, argumenta.

Ana Lu Santos, mais conhecida como Quilombola Lu, pertence a Comunidade dos Remanescentes de Quilombo Rio Gurupá, localizado no município de Cachoeira do Arari, no Marajó. Para a estudante de direito os cortes na educação, por meio da bolsa permanência, não atingem apenas os discentes, mas toda uma comunidade.

“Para as nossas comunidades a manutenção do povo dentro desses cursos é muito importante no processo de ajudar nas lutas das comunidades e as aldeias. A gente acredita que formar um quilombola ou um indígena médico ele vai ter vontade de atuar e atender as especificidades do povo dele, assim como professores, que se precisa de professores formados que tenham essa identidade, que tenham esse pertencimento, então pra nós essa bolsa é de fundamental importância”, explica. 

A partir de diálogos com a reitoria e as associações dos discentes quilombolas e indígenas criou-se alternativas e os alunos que ingressaram esse ano na UFPA recebem um auxílio emergencial no valor de R$ 400.

Edição: Juca Guimarães