MORADIA

Movimento de moradia denuncia ameaças do governo contra lideranças na África do Sul

Desde novembro foram assassinadas ao menos três lideranças do maior movimento de moradores de favelas do país

São Paulo

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Maior movimento de moradores de favelas da África do Sul denuncia ameaças de líderes de governo municipal / Abahlali baseMjondolo

O movimento de favelas sul-africano Abahlali baseMjondolo (AbM) denunciou o que considera declarações “antidemocráticas, autoritárias e ameaçadoras” feitas pela prefeita de eThekwini, Zandile Gumede, e pela líder da bancada do partido no legislativo, Nelly Nyanisa, durante audiência realizada na semana passada. “Diante do clima de intimidação e violência [na província de] KwaZulu-Natal, que inclui o assassinato de várias de nossas lideranças, recebemos essas ameaças com máxima seriedade”, declarou a organização em nota.

Na audiência, segundo o AbM, a prefeita do município afirmou que não negociará com o movimento nas questões de moradia, preferindo a cooperação da Aliança Internacional de Moradores de Favelas Sul-africanos, braço no país de uma organização não governamental internacional. “É absolutamente antidemocrático e autoritário por parte do ANC [Congresso Nacional Africano, partido do governo de eThekwini] decidir qual organização vai representar os moradores de favelas. Os moradores de favelas têm a mesma liberdade de associação que qualquer outra pessoa. Podemos formar e apoiar a organização que quisermos”, defende o AbM.

A mídia sul-africana noticiou que, durante a audiência da semana passada, o governo municipal acusou o AbM de ser controlado por “forças externas” e que S’bu Zikode, líder do movimento, estaria “determinado” a tornar a cidade ingovernável. “Nós vamos dar um jeito neles”, afirmou a líder parlamentar segundo o Daily News.

O movimento defende que as acusações feitas contra a liderança de moradia na cidade “não passam de fúria e paranoia de uma elite autoritária e corrupta confrontada por um movimento de massa que vem de baixo e se recusa aceitar a opressão”. “S’bu Zikode, como todos os nossos líderes, segue o que é definido em reuniões e assembleias abertas e democráticas”, explica a nota.

Perseguição

O AbM vê com preocupação as declarações do governo, lembrando o histórico de perseguição promovido pelo Congresso Nacional Africano contra o movimento de moradia. “Houve muitas ocasiões desde 2005 em que o ANC, em diversos níveis, afirmou que somos uma organização ilegítima”, afirma o movimento. 

Desde novembro do ano passado, pelo menos três lideranças do AbM foram assassinadas na África do Sul. A vítima mais recente foi S’fiso Ngcobo, presidente da ocupação Marianhill, morto com sete tiros em maio dentro de sua própria casa. Até hoje, ninguém foi preso pelos crimes.

“Também deixamos registrado que vários de nossos líderes de Durban [cidade do município metropolitano de eThekwini] receberam diversas ameaças telefônicas nas últimas semanas”, alerta o movimento. “Se acontecer alguma coisa com qualquer um dos nossos líderes, responsabilizaremos a prefeita e a líder parlamentar pessoalmente pelos comentários levianos feitos na audiência [da semana passada]”.

Edição: Aline Scátola