ELEIÇÕES

Aliados de Temer querem governar Pernambuco

Partidos de direita começaram a apresentar chapa golpista no último dia 11 de junho

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Ato de lançamento do “Pernambuco Quer Mudar”, grupo de partidos de direita que no plano nacional são aliados fieis de Michel Temer / Divulgação

No fim de 2017 alguns políticos do estado anunciaram a formação do “Pernambuco Quer Mudar”, grupo de partidos de direita que no plano nacional são aliados fieis de Michel Temer e favoráveis às reformas propostas pelo governo golpista. No ato de lançamento eram 11 políticos homens numa mesa sem espaço para as mulheres. Estavam presentes nomes relevantes para a direita no estado, como a deputada Priscila Krause (DEM) e a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra (PSDB), mas ambas foram relegadas ao segundo plano. A aliança conta com PTB, DEM, PSDB, Podemos, PRB, PV, PPS e PRTB.

No evento o grupo mostrava interesse de lançar uma candidatura de oposição a Paulo Camara (PSB), apesar de terem apoiado o governador de 2014 a 2016. Muitos nomes foram ventilados como possíveis postulantes ao Palácio do Campo das Princesas. Especulou-se que Fernando Bezerra Coelho iria encabeçar a aliança de direita. Eleito para o Senado em 2014 pelo PSB de Paulo Camara, FBC não demorou para romper com o próprio partido e “abraçar” Temer, colocando seu filho no Ministério das Minas e Energia.

Para se candidatar ao Governo de Pernambuco, o senador migrou para o partido de Temer. O problema é que, em Pernambuco, o MDB é liderado por Jarbas Vasconcelos. A disputa pelo partido foi parar na Justiça e ainda não se resolveu. O MDB nas mãos de Jarbas deve se aliar a Paulo Camara.

Assim, o candidato de Temer ao Governo de Pernambuco será o senador Armando Monteiro (PTB). Ele já se candidatou ao cargo em 2014 – na época, com apoio do PT – e pouco depois foi nomeado ministro da Indústria no governo Dilma Rousseff, no qual ficou por pouco mais de um ano. Na votação do impeachment Armando votou em defesa de Dilma. Mas logo após o golpe seu partido se aliou a Temer e até ganhou ministério. Armando, por sua vez, tem votado a favor das reformas do governo golpista, como a reforma trabalhista e a emenda constitucional que congelou os investimentos em saúde e educação por 10 a 20 anos.

O sociólogo Eduardo Mara considera que a coalisão é formada pelos “pernambucanos que sustentam o golpe de estado” e lembra que, apesar de Armando Monteiro ter votado contra o impeachment, “ele e os demais votaram a favor das reformas que retiram os direitos dos trabalhadores”. Na avaliação de Mara, esse grupo político é “ligado ao que há de mais atrasado no empresariado pernambucano, que são o latifúndio, os usineiros da cana de açúcar”. “Além de quererem a retirada de direitos trabalhistas, eles querem o enxugamento dos direitos sociais, para sobrar mais recursos públicos a serem utilizados para apoiar o agronegócio”, afirma.

Outro nome dessa aliança é o deputado federal Mendonça Filho (DEM), pré-candidato a senador e que também ganhou um ministério de Temer, o da Educação e Cultura. Mendonça manteve a tesoura em mãos, cortando verbas que iriam para as universidades públicas. De acordo com levantamento realizado pela União Nacional dos Estudantes (UNE), só este ano o ministro já contingenciou 23% das verbas que viriam para a UFPE, por exemplo. Sobre o pré-candidato ao Senado, o sociólogo comenta que, como ministro, “Mendonça levou adiante o desmonte da educação pública, favorecendo e direcionando recursos para os empresários da educação”. “Esse é o programa político do golpe. Por isso esses candidatos são a base de sustentação do golpe”, resume Eduardo Mara.

Uma outra característica destacada pelo sociólogo sobre esse grupo de políticos é que “eles não têm apreço pela democracia”. “São oligarquias antigas de Pernambuco, que consideram a democracia apenas uma formalidade. Eles olham o Estado como um comitê de seus negócios privados. A soberania popular, o voto do povo, a participação da maioria é algo que não tem importância para eles”. Segundo Mara, “essa aliança quer que Pernambuco volte a ser um estado voltado para os interesses do latifúndio, da cana de açúcar e da classe dominante”.

Na chapa majoritária ainda resta uma vaga para o Senado e outra para vice-governador, mas a chapa quer ganhar tempo para barganhar com outros partidos e candidatos. Um possível nome para o Senado é Bruno Araújo (PSDB), escolhido de Temer para o Ministério das Cidades. Como ministro o tucano cortou sucessivamente verbas que iriam para a construção de novas casas populares do programa Minha Casa Minha Vida. Para 2018 chegou ao extremo de propor orçamento zero para programas de habitação.

Outro possível nome que pode compor essa chapa é o do deputado estadual André Ferreira (PSC), que tem liderado a formação de um verdadeiro clã familiar na política através das pautas conservadoras. Além de André, seu irmão Anderson Ferreira (PR) já foi eleito deputado federal e hoje é prefeito de Jaboatão dos Guararapes; a família também elegeu o cunhado Fred Ferreira (PSC) como vereador do Recife. O plano para este ano, além de colocar André Ferreira no Congresso Nacional, é trazer de volta ao tabuleiro o pai Manoel Ferreira, que deixou os cargos eletivos desde 2010.

Os mandatos de André Ferreira, Bruno Araújo, Mendonça Filho e Armando Monteiro se encerram em dezembro deste ano. Os que forem derrotados nas urnas ficarão sem mandato público por pelo menos dois anos. A chapa, apesar de não ter muita popularidade, tem grande poder para angariar recursos em Brasília, o que pode turbinar suas campanhas.

Dentro da aliança nem todos estão felizes com a família Ferreira. Elias Gomes (PSDB), ex-prefeito de Jaboatão, tem feito ataques públicos, declarando que André estaria fazendo um “leilão” e “chantagens” tentando vender o apoio da família tanto à aliança de direita como à chapa do governador Paulo Camara. O fato é que nesta segunda-feira (25) foi confirmada a entrada do PSC dos Ferreira para a chapa.

A família Ferreira, por sua vez, estava à espera das conversas entre PT e PSB, que podem firmar uma aliança e garantir Humberto Costa (PT) como candidato ao Senado, “fechando as portas” de uma aliança do PSB com a família Ferreira. Antes da decisão do PT, no entanto, os Ferreira confirmaram entrada para a chapa dos aliados de Temer.

Impopularidade de Paulo Camara

As pesquisas apontam uma grande rejeição do eleitorado pernambucano ao Governo Paulo Camara (PSB). Algumas chegam a afirmar que 65% dos pernambucanos consideram a gestão ruim ou péssima, enquanto menos de 10% a considera positiva. Mas o sociólogo alerta: “eu também estou descontente com o PSB em Pernambuco. Nos últimos anos eles serviram mais aos interesses dos grandes empresários do que dos trabalhadores”. Mas, na análise do sociólogo, “mudar de Paulo Camara para Armando Monteiro significa fortalecer o que há de pior no atual governo, que é o apoio aos interesses de uma classe de poucas pessoas”, diz, em referência aos latifundiários e grandes empresários.

Eduardo alerta que “as candidaturas não se definem por aquilo que eles dizem ser, mas por aquilo que eles realmente são. Quando olhamos para um governo, devemos julgá-lo pelo que ele fez, pelo que ele deixou de fazer e principalente para quem ele serviu”, sugere. Para Mara, a esperança está numa candidatura popular à esquerda e com capacidade de dialogar com a população. “Uma candidatura própria do PT é importante, porque ela recoloca uma alternativa de fortalecimento da democracia e dos direitos, que atenda aos interesses da classe trabalhadora de Pernambuco”.

O candidato truculento

A chapa “Pernambuco Quer Mudar” deve apoiar a candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República. E outro presidenciável da direita ainda busca formar uma base eleitoral em Pernambuco: Jair Bolsonaro (PSL), que no estado tem apenas 7% de apoio dos eleitores. Seu provável candidato a governador é o coronel Luiz Meira (PRP), ex-diretor geral de operações da Polícia Militar. No cargo, Meira ficou conhecido pela violência com a qual tratava torcedores em dias de jogo e por agredir, ele mesmo, estudantes em dias de protesto.

Em 2016, já aposentado, Meira foi trabalhar como responsável pela segurança do metrô no Recife. Ele disse que os ambulantes não poderiam vender mercadorias dentro dos trens e, quem o fizesse, iria “levar borracha”, em referência ao cassetete.

Questionado sobre quais interesses atuam por trás de candidaturas como Coronel Meira e Jair Bolsonaro, o sociólgo Eduardo Mara analisa que elas também atendem aos interesses da classe dominante, mas cumprem um papel diferente dos candidatos descritos anteriormente. E explica o cenário. “Quando os empresários, os donos de grandes terras, dos meios de comunicação, das universidades privadas usam o governo em benefício próprio, eles entram em contradição com a democracia. Como se poderia manter uma sociedade democrática se uma minoria tem tantos privilégios enquanto a maioria passa dificuldades?”, questiona.

E, continua Mara, tal contradição é percebida pela população, que quer mudanças. “Essa insatisfação popular pode ser explorada tanto no sentido progressista, de buscar mais democracia; como pode ser explorada no sentido conservador, que apontaria a democracia em si como problema e, portanto, seria necessário interrompê-la”. O sociólogo diz que para a classe dominante é importante manter essa ameaça de interrupção da democracia, porque isso deixa a população acuada, aceitando com maior facilidade os candidatos que defendem os interesses das elites. “A ameaça torna possível para as elites disputar esse ideal de democracia, mas mantendo a democracia nos limites de hoje. É isso que essas candidaturas representam”, afirma.

Segundo ele, Bolsonaro e Meira não foram colocados na disputa para serem eleitos, mas apenas para manterem acesa a ideologia fascista, para a população aceitar votar num candidato de centro-direita como “o menos pior”. “O problema deles é que nacionalmente eles não conseguiram ainda viabilizar essa candidatura 'menos pior' da centro-direita. A única candidatura forte até agora é uma candidatura popular, de fortalecimento da democracia, que é a candidatura de Lula”, pontua.

Meira tem um irmão prefeito de Camaragibe e que usa o mesmo nome. Mas eles não têm relação próxima na política. O irmão prefeito é filiado ao PTB e deve apoiar a candidatura de Armando Monteiro.

Nas próximas edições o Brasil de Fato Pernambuco vai abordar as candidaturas do campo democrático para o Governo de Pernambuco. Além do nome de Paulo Camara (PSB), estão postas as pré-candidaturas da vereadora Marília Arraes (PT) e da advogada e historiadora Danielle Portela (PSOL).

Edição: Monyse Ravenna