Cruzando fronteiras

As mulheres que querem acabar com 68 anos de Guerra entre as Coreias

Christine Ahn conta sobre seu sonho e ativismo pela paz, comenta o histórico da guerra e o encontro entre Trump e Kim

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Para Ahn, em situações de conflito, mulheres são a que mais têm a perder. "E também a ganhar com a paz" / Foto: Wikimedia Commons

Certa noite, em 2009, Christine Ahn teve um sonho. Nele, ela esperava no leito do Rio Imjin – que cruza as duas Coreias –, durante a alvorada, um socorro. Com a chegada do dia, chegaram também pessoas carregando luzes em suas mãos. Conforme se aproximavam, as pessoas se transformavam no encontro entre velhos irmãos e irmãs separadas pela guerra. Curiosa, Christine subia o rio e encontrava mulheres em círculo, despejando luz em pequenos barcos. Então, ela acordou com uma certeza: “Eu sei quem vai acabar com a Guerra das Coreias: as mulheres”. 

Pouco antes de dormir, Christine havia lido sobre a enchente do Rio Imjin, segundo ela, um rio cantado em inúmeras canções e poemas, que atravessa o “coração das duas Coreias”. Para evitar um desastre em seu país, com a inundação de fazendas, perda de colheitas e vidas, e uma possível crise alimentar, Pyongyang (capital da Coreia do Norte) liberou as comportas da represa que continha o rio, inundando as terras baixas da Coreia do Sul e causando a morte de pescadores e habitantes de comunidades ribeirinhas. Uma ligação poderia ter evitado o desastre, porém, a linha-direta entre as duas Coreias estava cortada por crises diplomáticas. 

“Por que esses homens não conseguem simplesmente conversar?”, se perguntou Ahn, que é nascida na Coreia do Sul e atualmente tem cidadania estadunidense. Na época, ela trabalhava em um um projeto chamado Mulheres Desmontando o Militarismo, com atuação em diversas zonas de conflito pelo mundo. Foi então que ela resolveu fundar o Womens Cross DMZ (Mulheres Cruzando a Zona desmilitarizada das Coreias, em tradução livre), uma organização de mulheres que luta pelo fim da guerra entre as Coreias.

Em 2015, em um gesto simbólico, ela, em conjunto com centenas de mulheres e ativistas feministas, cruzou a zona desmilitarizada entre as Coreias, realizando simpósios e encontros entre as mulheres dos dois lados fronteiras, alimentando o sonho do fim da guerra.

Christine Ahn destaca o papel do imperialismo japonês e estadunidense na divisão das Coreias. (Foto: Youtube/Reprodução)

Esta segunda-feira (23) marcou os 68 anos do começo da Guerra das Coreias, que até hoje não foi formalmente terminada. Após os dois encontros entre os presidentes das Coreias, em abril e maio deste ano, foi prometido que até o final de 2018 um tratado será assinado terminando de vez o conflito.

Para marcar a data, o Brasil de Fato conversou com a analista política, ativista pela paz e fundadora da Women Cross DMZ, Christine Ahn. Na entrevista, Ahn explica o histórico da guerra entre as Coreias, sua relação com a guerra fria e o imperialismo estadunidense, avalia o encontro entre Donald Trump e Kim Jong-Un, explica quem é o presidente sul-coreano que intermediou esse encontro, o papel da Revolução das Velas no processo de paz, conta um pouco sobre seu trabalho e discute a relação entre militarismo e patriarcado. Confira.

Brasil de Fato: Gostaria de pedir para você falar um pouco sobre o histórico da guerra e quanto disso ainda vive nos dois países.

Christine Ahn: Bom, eu começaria falando sobre a colonização da Coreia no último século pelo Japão. Em 1905, os EUA e o Japão negociaram o chamado Acordo Taft-Katsura. Foi um acordo secreto em que os EUA basicamente concordaram em fazer vista grossa enquanto o Japão colonizava a Coreia, e o Japão faria vista grossa enquanto os EUA colonizavam as Filipinas.

De 1910 até 1945, foi uma ocupação bem brutal [pelo] Japão. Meus pais nasceram e viveram nesse período. Eles tiveram que adotar nomes japoneses, não podiam falar coreano na escola, então tinham que falar japonês. Meu avô era carpinteiro e minha mãe contava histórias de como as autoridades japonesas vinham e acusavam meu pai de alguma coisa e, basicamente, roubavam todos os móveis que ele fazia. Então, foi um período bem difícil para os coreanos.

Mas, como em qualquer ocupação colonialista, sempre existem colaboradores. Acho que trago esse histórico, porque, quando o Japão foi derrotado na Segunda Guerra Mundial, depois do bombardeio de Nagasaki e Hiroshima, os EUA viram, obviamente, a disseminação do comunismo e da União Soviética e quiseram evitar isso na Península da Coreia.

A Guerra Fria começou, de fato, na Península da Coreia. Os estadunidenses chegaram por Incheon [atualmente uma importante cidade da Coreia do Sul]. E eles não sabiam o que fazer com a Coreia, que era colônia do Japão. Então, dividiram o território no paralelo 38. Ao Norte do paralelo fica Pyongyang, que ficou para os soviéticos, e os estadunidenses ficaram com Seul [capital sul-coreana], ao Sul do paralelo 38. De 1945 a 1948, aconteceu a ocupação militar.

Eu resgato esse histórico colonial japonês porque os EUA basicamente colocaram no poder os coreanos que tinham colaborado com os japoneses. Isso incluía grande parte dos militares e da polícia. Isso é bem importante, na minha opinião, porque havia, durante o período colonial, uma organização extraordinária de coreanos que se preparavam para a libertação.

Na verdade, historiadores, sociólogos e antropólogos afirmam que esses comitês populares foram, talvez, a organização mais democrática, principalmente nesse período. E eles estavam se preparando para quando a Coreia seria libertada.

Havia guerrilheiros. Kim Il-sung, avô de Kim Jong-un [líder da Coreia do Norte], foi um desses guerrilheiros, na Manchúria [vasta região no leste da Ásia], lutando com os chineses contra os imperialistas japoneses.



Esse período é crucial para entender a situação atual [na ilha], porque é uma guerra que não é só essa divisão em vigor há tanto tempo – o que é real – mas também luta de classes, financiamento do imperialismo, justiça social.

Enfim, tenho a impressão que ameaças do período da divisão e depois o governo militar e a instauração daqueles que eram os colaboradores, o que se teve basicamente foi de fato uma ditadura apoiada pelos EUA na Coreia do Sul até 1987, quando houve a primeira eleição democrática de [Kim Dae-jung]. Então, foram basicamente 40 anos de ditaduras apoiadas pelos EUA na Coreia do Sul.

Houve repressão por muito tempo na Coreia do Sul. Reprimia-se o que acontecia. Nesse período, todos os movimentos sociais ou de esquerda foram reprimidos sob o pretexto do macartismo [política de perseguição aos comunistas iniciada pelo senador estadunidense Joseph McCarthy, nos anos 1950].

Acabei de voltar da Ilha de Jeju [na Coreia do Sul], onde [no passado] houve uma revolta imensa contra a realização de eleições separadas sob o governo militar estadunidense, que resultou em um massacre. Isso aconteceu. E sabemos que os EUA deram a ordem para começar a destruição de todas as estruturas da região. Eles sabiam que os manifestantes de Jeju não eram comunistas, mas ainda assim fizeram esse ataque como justificativa que levou ao massacre de dezenas de milhares de moradores de Jeju, que eram camponeses comuns inocentes que não tinham nada a ver com o comunismo, mas foram vítimas desse fogo cruzado.



Tanques estadunidenses cruzam a fronteira da Coreia do Norte durante a Guerra. (Foto: Wikimedia Commons)

Depois desse período de governo militar, foram feitas eleições separadas e isso começou um período de ataques dos dois lados. Nos EUA, normalmente consideramos o dia 25 de junho como data oficial da Guerra da Coreia, quando os norte-coreanos atravessaram a fronteira, mas historiadores mais críticos dizem que já havia conflitos bem antes disso.

Por três anos, de 1950 a 1953, houve uma guerra devastadora. Quatro milhões de pessoas foram mortas – sabemos que, na maioria, civis coreanos. E o bombardeio mais indiscriminado aconteceu, na Península da Coreia, em grande parte no Norte. Oitenta por cento das cidades norte-coreanas foram destruídas.

Se você olhar os registros, principalmente de jornalistas ocidentais do Reino Unido, da Polônia e outros não estadunidenses que estavam lá registrando o que estava acontecendo, eles contam que parecia que eles estavam andando na lua, porque a única coisa que tinha ficado de pé eram as chaminés. O resto virou pó.

E, também, [há relatos desse tipo] nos documentos de arquivo dos generais e militares que comandaram o primeiro ano da guerra. Por ser uma guerra desigual, assimétrica, empreendida pelos EUA contra a Coreia do Norte, depois do primeiro ano, [o general] Emmett O'Donnell deu um depoimento para o Congresso [norte-americano] dizendo: "Não existem mais alvos na Coreia do Norte". Foi uma guerra devastadora.

Acho que essa experiência definiu e moldou muito o que a Coreia do Norte é hoje. Você vê isso na Coreia do Norte. O que se tem é um Estado que criou um país muito militarizado, por causa dessa experiência e da observação da mudança de regime dos EUA e de outros países. E, claro, as políticas militares, econômicas e políticas dos EUA que começaram a isolar e fomentar o colapso do regime norte-coreano.

Ainda existe uma lei de segurança nacional na Coreia do Sul. Embora estejamos em um período bom com [o atual presidente] Moon Jae-in, que está tentando promover reformas importantes dentro do país, nos últimos dez anos, o que se teve foram governos bem intransigentes, com repressão de sindicalistas trabalhistas e todos que questionassem os regimes [anteriores] de Lee Myung-bak e Park Geun-hye.

Acredito que o legado da Guerra Fria nunca acabou de verdade na Península da Coreia. E ainda se vive na Coreia do Sul.

Nesse sentido, eu gostaria de perguntar um pouco sobre qual é a sua opinião da Cúpula de Singapura, que simbolizou a aproximação entre os EUA e a Coreia do Norte. Qual sua opinião sobre isso?

A cúpula foi muito surpreendente. Nós sabemos que o documento não trouxe nada substancial, mas acho que o compromisso assumido tanto por Kim [Jong-un, líder norte-coreano] quanto por [Donald] Trump [presidente dos EUA], mesmo o fato de os dois terem assinado o documento já é importante. E o fato de ser o primeiro presidente dos Estados Unidos a se encontrar com um líder norte-coreano e de reconhecer a República Popular Democrática da Coreia é histórico.

Existe uma opinião comum na mídia liberal nos Estados Unidos de ir contra e censurar o resultado do encontro. Do meu ponto de vista e, principalmente, do ponto de vista do movimento pela paz na Coreia; 85% dos sul-coreanos apoiam Moon Jae-in e os dois lados apoiam a declaração de Panmunjeom [pela paz] entre a Coreia do Norte e do Sul. Eles têm uma visão bastante favorável da cúpula com Trump e Kim.

Mas acho que o mais importante foi a decisão de Trump de suspender os exercícios militares e considerá-los uma provocação – porque são mesmo. Quer dizer, em uma cúpula Donald Trump disse o que o movimento pela paz vem dizendo há muito tempo: que esses exercícios militares são uma provocação. Eles simulam [mudanças de regimes] e derrubada de líderes de governo na Coreia do Norte. É por causa deles que a Coreia do Norte sente a necessidade de desenvolver armas nucleares.

A Coreia do Norte concordou com o início da suspensão dos testes com mísseis de longo alcance. Sabemos que, em novembro, a Coreia do Norte deu uma demonstração da sua capacidade de fazer ataques nucleares, mas ainda assim havia uma ambiguidade sobre a capacidade real do país. Sendo ou não verdade, a Coreia do Norte estava jogando o jogo como se fosse capaz. É por isso que, em seu discurso de ano novo, Kim Jong-un afirmou: "Conseguimos desencorajar. Agora estamos prontos para lutar".

Os dois voltaram para casa com sucessos, na minha opinião. Para mim, isso é incrível.

Na verdade, acho surpreendente ver esse tipo de resposta, em especial do Partido Democrata [de Trump]. A Câmara dos Representantes [dos EUA] aprovou uma resolução que garante algo no sentido de que Donald Trump (ou o presidente) precisará ter a aprovação do Congresso para ter menos de 22 mil militares dos EUA na Coreia do Sul – no momento, são cerca de 30 mil tropas.

É incrível, para mim, que o chamado "partido da paz" é basicamente o partido da militarização. Existe uma obsessão de desmontar o programa nuclear da Coreia do Norte sem reconhecer a militarização absurda que está acontecendo na Península da Coreia como um todo.

Trump se comprometeu a interromper exercícios militares na península (Foto: Stephanie Chasez/Casa Branca)

Acabei de voltar da Ilha de Jeju e passei pela vila de Gangjeong, onde acontece uma luta imensa há anos. O governo sul-coreano começou a construir uma base em 2007 e enfrentou uma oposição fortíssima. Em 2011, a situação atingiu um ponto crítico e a pergunta que se fazia era: a base militar é dos EUA ou da Coreia do Sul?

São os estadunidenses que estão fazendo pressão para construirmos essa base. Então, sabemos que, nos planos dos EUA, é uma questão de voltar a atenção para a Ásia e cercar a China, com bases e sistemas de defesa contra mísseis.

Sabemos que os Estados Unidos colocaram um sistema de defesa antimíssil THAAD [Terminal High Altitude Area Defense, que intercepta mísseis de alcance curto, médio e intermediário] na Coreia do Sul durante um vácuo político, antes de Moon Jae-in assumir o governo. E sabemos que esse sistema de defesa THAAD está fazendo a patrulha e evitando míssil norte-coreano, porque ele está em um lugar tão perto desse sistema, não sei, a mais ou menos uns 80 quilômetros. E ele serve mesmo como vigilância.

Sabemos também, de acordo com documentos, que navios de guerra dos EUA atracaram na vila de Gangjeong [litoral sul da Ilha de Jeju]. Eu estava lá em 2011. É um lugar incrível. É um dos patrimônios mundiais da UNESCO, uma reserva de biosfera. Essa vila fornecia uns 80% da água para a região sul da ilha.

Era uma vila ancestral com natureza intacta, com mergulhadores, pescadores e produtores de tangerina. E, agora, quando você chega lá, só tem concreto. É uma visão terrível, cercas com arame farpado, um templo da Marinha, uma igreja católica da Marinha, cafeteria da Marinha. Eles pegaram uma vila ancestral e transformaram em uma base militar que serve como preparação para a guerra contra a China.

Então, o que aconteceu na cúpula de Singapura pode ter um impacto imenso e muito importante. E Donald Trump, com toda a sua loucura, acho que o que o move é essa ideia nacionalista de "Estados Unidos primeiro", muito racista e xenófoba. Mas algumas das coisas que ele disse, como "deixe que eles cuidem disso, é a região deles, deixe a China, o Japão e a Coreia do Sul cuidar disso, eles que vão ter que pagar o preço pelo processo de desnuclearização". De certa forma, essa visão racista, muito orientalista, está beneficiando, eu acho, a luta por independência, a luta por uma Coreia que seja finalmente soberana e livre de forças externas.

Outro artigo que li seu fala da importância da Revolução das Velas para a realização dessa cúpula. Você poderia falar um pouco sobre o que foi a Revolução das Velas e qual é a importância dela para fazer esse processo acontecer?

A Revolução das Velas começou no outono [do hemisfério Norte] de 2016. Foi um movimento espontâneo, de verdade. Alguns cidadãos começaram a expressar indignação pela falta de resposta do governo de Park Geun-hye [ex-presenta sul-coreana, de 2013 a 2017]. Tinham havido casos bastante graves de corrupção [em seu governo]. Acho que o principal foi o caso da Balsa Sewol, quando 350 estudantes secundaristas se afogaram. Ironicamente, a balsa estava com sobrecarga de equipamentos que estavam sendo enviados para a Ilha de Jeju, para a base naval.

Basicamente, a presidenta sumiu durante essa crise. E deu para acompanhar em tempo real as imagens de helicóptero da balsa virando. Parecia o Titanic, mas aconteceu em 2015 ou 2014. Foi a indignação dos cidadãos diante desse descaso total pelo povo coreano dessa presidenta corrupta, Park Geun-hye é filha de Park Chung-hee, o ditador que ficou 17 anos no poder na Coreia do Sul.

As pessoas começaram a se reunir toda semana na Praça Gwanghwamun, que fica no centro de Seul, bem em frente à embaixada dos Estados Unidos. Massas de pessoas. E elas discutiam pelas redes sociais quais seriam os temas do ato da próxima semana. Foram 16 milhões – um em cada três coreanos – participando nessas vigílias à luz de velas. E mesmo no frio cortante do inverno, elas saíam e faziam vigílias à luz de velas, pedindo a renúncia de Park Geun-hye.

Finalmente, foi o parlamento que aprovou o impeachment da presidenta, com apoio da Suprema Corte. Então foi a revolta extraordinária do povo que basicamente derrubou Park Geun-hye e conduziu Moon Jae-in ao poder. Eles anteciparam as eleições. E Moon Jae-in venceu com uma vantagem imensa. Foi a maior participação dos sul-coreanos em uma eleição presidencial.

Protestos em Seul em 2016 pela derrubada da presidenta Park Gyun-Hye. (Foto: Wikimedia Commons)

E aí ele entrou com um mandato limpo, porque ele defendia um programa de combate à corrupção política e de transformações profundas na economia, mas principalmente de diálogo com a Coreia do Norte. Em seu primeiro grande discurso sobre política externa, na Alemanha, ele afirmou: "Eu irei até o fim na questão da desnuclearização da Coreia do Norte e dos tratados de paz". E ele tem feito isso, como o interlocutor que habilmente tem feito o "leva e traz" entre os EUA e a Coreia do Norte. Para mim, isso é impressionante, o ritmo com o qual os coreanos têm ido em frente.

Há uma verdadeira mudança – basta olhar como o ano passado foi tão aterrorizante, foi o ano do Fogo e Fúria –, a Coreia do Norte fez testes nucleares com mais de 20 mísseis e Donald Trump ameaçou destruir totalmente a Coreia do Norte. Então, qual foi a mudança? Eu acredito que foi em novembro, depois que eles fizeram os testes nucleares, e Moon Jae-In disse a Trump que ele condenava esses testes, mas que ele também mandava uma mensagem a Trump de que não haveria uma guerra na península enquanto ele for presidente. A Coreia do Sul terá uma voz ativa no fato de haver ou não haver uma guerra.

Não estou querendo dizer que os EUA não são significativos nisso tudo, eles são, e os norte-coreanos sentem que eles são tão dependentes da China, a China tem sido um banqueiro bastante custoso para a Coreia do Norte, porque eles estão tão isolados, não conseguem empréstimos internacionais por causa das sanções dos EUA, e então eles vêem a normalização das relações com a Coreia do Sul como algo crucial para que eles não sejam tão dependentes da China e, certamente, isso serve aos interesses norte-americanos.

Moon Jae-In têm tido um papel muito importante nas negociações e tem sido um pouco subestimado nas análises sobre essa situação. Quem é ele e qual a importância de suas ações? 

O Moon Jae -In é filho de refugiados norte-coreanos, então ele tem uma relação muito umbilical com o tema. Teve uma trajetória de ativismo na universidade contra a ditadura sul-coreana, foi preso e arrolado no Exército, onde ele participou de uma operação retaliatória contra a Coreia do Norte, que havia matado dois soldados americanos na fronteira quando eles tentavam cortar uma árvore, que segundo os norte-coreanos, foi plantada por Kim Sung-Il [líder da Coreia do Norte desde a fundação do país, em 1948, até à data da sua morte, em 1994].

Depois disso, ele se estabeleceu como advogado de direitos humanos, o que é bem significativo durante os anos de luta do movimento pró-democracia, basicamente lutando contra as ditaduras apoiadas pelos EUA na Coreia do Sul. Ele também foi chefe de gabinete de Roh Moo-hyun, o último presidente liberal que supervisionou a Sunshine Policy [Política do Sol, elaborada pelo governo sul-coreano entre 1998 e 2008, para aproximar as duas Coreias]. 

Eu o considero um ser humano profundamente sábio. Ele perdeu as eleições por uma margem pequena para a Park Geun-hye em 2012 – e agora se sabe que ele perdeu em grande medida por conta de que Park Geun-hye, em conluio com grupos neoconservadores, contratou a Agência Coreana de Inteligência (NIAS) para financiar blogueiros para fazer uma campanha de difamação contra Moon, chamando ele de "comunista norte-coreano".

Após a derrota, ele foi em uma jornada de autoconhecimento para o Butão e tem fotos dele andando pelo país com uma barba enorme, com um cajado. E a primeira pessoa que ele ligou quando ganhou, o primeiro líder internacional, foi o presidente do Butão, um país famoso por ser "o mais feliz do mundo". 

Então, eu não sei, talvez a Coreia do Sul tenha agora um líder benevolente, que vem dos movimentos pró-democracia e que tem uma profunda experiência de negociar com a Coreia do Norte por conta da Política do Sol. E que entende as complexidades de gerenciar as relações desiguais da Coreia do Sul com os EUA. Se você olhar para o ritmo rápido com o qual as duas Coreias têm se aproximado, é chocante. Eu acho que a diferença é que você tem muitas pessoas nessa administração que foram parte das administrações do anos da Política do Sol, que construíram relações de confiança com o povo da Coreia do Norte. 

Moon Jae In e Kim Jong-Un posam para fotos durante encontro em Panmunjon - Créditos: KCNA

Moon Jae In e Kim Jong-Un posam para fotos durante encontro em Panmunjon. (Foto: KCNA)

E eu considero que as Coreias conseguiram virar essa situação, porque, antes, eles não tinham qualquer controle sobre se haveria ou não uma guerra. Me vem à mente a Bloody Nose Strike [ataque preventivo ameaçado pela administração Trump contra instalações nucleares na Coreia do Norte no começo deste ano]. Um ataque assim seria devastador para as Coreias. Então, eu acho que evitar isso é o maior incentivo paras as Coreias se recomporem e dizerem: "Nada disso vai acontecer. A Coreia vai falar pela Coreia". 

Você falou em uma entrevista sobre um sonho que fez com que você se mobilizasse e cruzasse a fronteira.  Como foi isso?

Em 2009, eu tive esse sonho. Na época, eu trabalhava numa organização de São Francisco [nos EUA], chamada Fundo Global para as Mulheres, e gerenciava um projeto chamado Mulheres Desmontando o Militarismo, que financiava grupos de mulheres pelo mundo em zonas de conflito – na Colômbia, no Congo, nas Filipinas – e, então, isso estava muito na minha cabeça, sobre o poder da organização das mulheres o para pôr fim aos conflitos.

Nessa noite, eu fui dormir e acordei de madrugada. Liguei meu computador e vi uma notícia no New York Times sobre a enchente de um rio que atravessa o coração da Coreia, o Imjin, que é um daqueles rios que têm muitos poemas e canções sobre ele. Há um famoso no qual o poeta diz "Pássaros voam sobre o rio Imjin/Mas não posso encontrar a minha amada”. E foi muito simbólico que fosse esse rio inundando, era o fim do verão, e a Coreia do Norte supostamente abriu as comportas daquela represa e não informou a Coreia do Sul, porque a linha-direta entre os dois países havia sido fechada.

Por conta disso, muitas pessoas morreram na Coreia do Sul, incluindo um pai e seu filho, que estavam pescando no rio pela manhã, e eu me lembro de ler essa história e me sentir tão brava, acho que o Kim Jong Il estava no poder nessa época e eu pensei, "por que esses homens não podem pegar o telefone e conversar?", porque o Jong Il não pode dizer: "Olha, eu tenho que levantar as comportas, porque senão nossas fazendas serão inundadas e teremos falta de alimentos e muitos dos nossos irão passar fome"?

Mas nada disso aconteceu. Então eu voltei a dormir e tive esse sonho: eu estava esperando no rio, antes da alvorada, e pensava se eles iam vir. Conforme o dia raiou chegou também uma grande luz e havia pessoas carregando luz em suas mãos – talvez a Revolução das Velas [risos] – e elas desciam o rio e se transformavam em reuniões familiares, esses irmãos e irmãs já idosos trocavam abraços após não se verem por tanto tempo e me deu a vontade de subir o rio e descobrir qual era a fonte daquela luz. Foi aí que encontrei um círculo de mulheres e elas estavam mexendo algo e o que quer que elas estivessem mexendo era derramado em pequenas naves que se tornavam a luz e então eu acordei e disse ao meu marido: "Eu sei quem vai acabar com a guerra: são as mulheres".

Comecei a pesquisar e descobri que o primeiro encontro entre mulheres do Norte e do Sul da Coreia aconteceu graças à uma japonesa, em 1991. Ela escutou a demanda de mulheres sul-coreanas que diziam que para parar a corrida armamentista na Ásia, era necessário acabar com a Guerra da Coreia. Na época, o Partido Comunista japonês tinha uma relação aberta com a Coreia do Norte aberta e assim aconteceu a primeira reunião entre mulheres do Japão e das Coreias.

Aí surgiu a ideia do DMZ Crossing [Cruzando a Zona desmilitarizada das Coreias, em tradução livre], um ato simbólico para desafiar a divisão das Coreias, para chamar a atenção da não-resolução da Guerra e apontar a responsabilidade, principalmente dos EUA, de dividir a península coreana. Então nós fizemos uma marcha para a paz em Pyongyang, com 5 mil mulheres sul-coreanas e 2 mil norte-coreanas. Após isso, fizemos um Simpósio das Mulheres pela Paz, em Pyongyang, com milhares de mulheres coreanas e cruzamos até a Coreia do Sul e fomos recebidas por 3 mil mulheres, e realizamos um congresso em Seul.

Mulheres coreanas cruzam as fronteiras em 2015. (Foto: Women Cross DMZ/Reprodução)

Qual seria a estratégia de vocês para acabar com a guerra?

Eu não sei qual é a estratégia. Nós precisamos, de alguma forma, de inclusão significativa de mulheres. Quando você olha quem está nos encontros diplomáticos, como foi o de Singapura, tem muito poucas mulheres na mesa. E o que nós estamos dizendo é que, quando há inclusão de grupos de paz de mulheres nos processos de paz, isso leva a acordos. E mais do que isso: quando as mulheres estão envolvidas na elaboração destes documentos, eles têm muito mais durabilidade, cerca de 35% mais do que os feitos por homens. Então, estamos obviamente nadando contra a corrente, em termos de conseguir o entendimento dos EUA e da Coreia do Norte, e até da Coreia do Sul, mas seguiremos tentando.

Em uma entrevista, você afirma que a militarização está na raiz do fortalecimento do patriarcado e do machismo. E ambas as Coreias são duas nações bastante militarizadas. A Coreia do Sul, inclusive, pratica o alistamento obrigatório para homens…

As duas Coreias são sociedades profundamente patriarcais e altamente militarizadas. E eu acho que é tão crucial que as mulheres sejam envolvidas na discussão, porque não apenas há impactos de gênero como, olhando pela pela perspectiva sul-coreana, as bases militares dos EUA e o campos sexuais que foram estabelecidos, havia um abuso sistemático de mulheres para prover "conforto" às tropas americanas, para que eles ficassem por lá. Foi uma violência massiva que foi cometida pelos soldados estadunidenses contra mulheres sul-coreanas. Isso nos leva a perguntar: O que é segurança? Segurança para quem os EUA estão mantendo aqui na Coreia? 

Na Coreia do Sul há o serviço militar obrigatório, e os homens que não querem servir acabam na prisão e suas vidas são destruídas, não conseguem empregos públicos, são vistos como não-patrióticos. Há uma noção tóxica de masculinidade que leva a tudo isso. Não há como não pensar na relação entre o serviço militar obrigatório e as taxas absurdas de violência doméstica na Coreia do Sul. Eu sei, por experiência própria, porque meu irmão serviu ao Exército Americano na Coreia, e quando ele voltou ele se tornou extremamente abusivo contra todas nós, suas irmãs.

E eles são treinados basicamente para matar pessoas, usando violência, força e poder como meios de resolução de conflitos e, evidentemente, isso vai ter efeitos violentos e deletérios no corpo social. 

Mulheres coreanas se reencontram na zona desmilitarizada (Foto: David Guttenberg/Cross DMZ/Reprodução)

O modo com o qual a violência é perpetuada não pode apenas ser compartimentalizada, temos que encarar que alguém que é treinado para matar pessoas e volta pra vida civil vai carregar consigo um efeito tóxico na vida cotidiana. Então, as mulheres da Coreia do Sul que fazem parte do movimento pacifista têm demandado o fim do alistamento compulsório. 

O militarismo, a ideia de que conflito será resolvido por meios militares, precisa ser questionado. O que há para além dessas noções de "segurança nacional" ou até mesmo de "segurança". O que isso quer dizer? 

Estes dias estive na ilha de Jeju, que era uma comunidade intacta, com mulheres mergulhadoras que proveram alimentos para suas vilas por séculos. O que fizeram? Instalaram uma base militar e despejaram concreto no oceano, destruindo ecossistemas. Como isso melhora a segurança dos nativos de Jeju? Isso os coloca na linha de fogo entre EUA e China!

Por isso que eu acho tão importante que nós sejamos ouvidas. Ao fim e ao cabo, as mulheres são aquelas que são mais amplamente impactadas pelas guerras, nós somos aquelas que têm mais a perder e, ao mesmo tempo, as que têm mais a ganhar com o fim da guerra, com a resolução pacífica e justa de conflitos.

Edição: Vivian Neves Fernandes