CULTURA

O que tu indica? | Pedro Sorongo

O ritmista fez parcerias com Baden Powell, Clara Nunes e Milton Nascimento

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Além de tocar, pedro inventou diversos instrumentos / Reprodução

"Eu sou de uma poção que nem pó

De uma porção de um só

Sempre pra lá e pra cá

Eu só de um pedacinho de nada

De um pedacinho de cada

Dentro tudo que há

Aquele que na palavra entender

No nome não se prender

Pode ver bem quem eu sou

Mas quem no pé da letra cair

Do nome não vai sair

Porque no nome não estou.”

(Letra da música ‘Um Só’)



Pedro Santos ou Pedro Sorongo, como artisticamente ficou conhecido, foi um percussionista (ou ritmista, como se dizia antigamente) que gravou com artistas como Baden Powell, Clara Nunes, Milton Nascimento e tocou com Gilberto Gil, Maria Bethânia e Paulinho da Viola, dentre outros. Muita gente não conhece ele nem como grande instrumentista que foi, muito menos sua maior obra, o disco “Krishnanda”, lançado em 1968. A história se parece muito com a de Di Melo e tantos outros artistas que lançaram discos nos anos 1960 e 1970, na época, não tiveram sucesso e reconhecimento, mas foram redescobertos e resgatados dos anos 2000 pra cá, primeiro na Europa, depois no Brasil. Várias de suas músicas foram regravadas por nomes como Bexiga 70 e Elza Soares.

A diferença de Krishnanda e Pedro Santos é a densidade do disco, ele é quase um tratado sobre o Brasil, sua pluralidade, a violência opressora da música dita clássica europeia abrindo espaço pra uma africanidade latente, somada a influências árabes, orientais, ritualísticas, etc. O que hoje pode parecer já batido, como as influências são mais amplamente difundidas e utilizadas, devido à facilidade de acesso, na época era muito complicado de ser feito, uma pesquisa rápida e fácil faz ter acesso a uma bibliografia mais extensa sobre o assunto. Fora que, todas essas pautas, do resgate da música ritualística, sensorial, aos temas universais e humanos sobre a existência, não eram tão comuns. Tudo isso resulta numa musicalidade única, impossível de ser descrita, e que conta, não uma, mas várias estórias através de suas canções imagéticas. Sorongo, autodidata, além de criar instrumentos rítmicos, escrevia melodias e letras sem saber ao menos uma nota musical, trouxe do seu empirismo observador e marcado pela vida uma expressão única do que dizemos ser, do que negamos ser, uma impressão sobre nós como nação, como povo, sem ao menos falar disso, partindo de dentro pra fora. Escolher esse caminho naquela época já era fazer algo revolucionário. 

Edição: Monyse Ravenna