MACHISMO

Copa do Mundo na Rússia é marcada por episódios de assédio

Expressão utilizada por brasileiros é reproduzida por grupos extremistas russos que culpabilizam mulheres assediadas

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Diversos casos de assédio já ocorreram nas primeiras duas semanas de evento / Foto: Reprodução

Além do futebol, a Copa do Mundo na Rússia está mostrando que o machismo não tem fronteiras. O torneio começou há duas semanas, mas diversos vídeos já circulam na internet com mulheres que foram vítimas de assédio em diferentes cidades do país, sejam elas jornalistas ou torcedoras. 

Brasileiros protagonizaram, contra russas, os primeiros episódios de assédio que ganharam repercussão durante a realização do Mundial. Sem que elas entendessem o que estava sendo dito, os homens pediram para que as mulheres repetissem apelidos em referência às suas genitálias e frases em português que afirmavam que elas estariam interessadas em manter relações sexuais.

Os brasileiros foram identificados e são alvo de inquérito criminal aberto pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF-DF). Um dos homens que apareceu nas imagens foi demitido pela empresa na qual trabalhava, em consequência da exposição internacional do caso. A partir desse primeiro vídeo, outros no mesmo tom se multiplicaram.

Grupos extremistas russos têm usado as redes sociais para ofender as mulheres que foram vítimas de assédio e utilizado a expressão dos brasileiros, “b* rosa”, como hashtag, como nome de grupos em aplicativos de mensagens e na rede social russa VK. De acordo com reportagem da BBC, os extremistas criticam um suposto “mau comportamento” das russas que apareceram nos vídeos e as responsabilizam pelos assédios, afirmando que “tal comportamento” ofende a "masculinidade dos patriotas".

Copa dos assédios

Outro caso de assédio envolveu a jornalista russa Bárbara Gerneza, correspondente do Portal IG, que foi cercada por um grupo de brasileiros que cantaram uma música de cunho sexual para ela, que ainda sofreu a tentativa de um beijo forçado de um desses homens. O mesmo aconteceu dias antes com a jornalista colombiana Julieth Gonzalez Theran, beijada ao vivo enquanto fazia uma transmissão sobre a Copa, na cidade de Saransk.

No último domingo, um torcedor também tentou beijar à força a repórter brasileira Júlia Guimarães, correspondente da TV Globo, enquanto se preparava para entrar em uma transmissão ao vivo. Durante essa cobertura da Copa do Mundo, Júlia passou por duas situações de assédio, pela primeira vez, antes do jogo entre Egito e Uruguai e pela segunda antes do jogo entre Japão e Senegal, em Ecaterimburgo.

A repórter brasileira foi enfática ao repreender a ação. “Não faça isso! Nunca mais faça isso! Eu não te dei permissão! Isso não é educado, não é certo. Nunca faça isso com uma mulher, respeite!”, disse Júlia, em inglês.

Machismo

Renata Mendonça, jornalista e uma das fundadoras do coletivo Dibradoras, está na Rússia a trabalho e condena os episódios de assédio. “Infelizmente, não é uma realidade vista só aqui em Moscou, mas que é comum a todas as mulheres que estão no futebol de alguma forma, seja como torcedoras, jornalistas ou jogadoras, é uma realidade constante”.

A jornalista ressalta que casos de machismo e assédio sempre aconteceram e que não é possível falar que apenas os brasileiros são os protagonistas na Rússia. “Eu vi aqui, pessoas em Moscou, de outras nacionalidades, fazendo coisas similares, com comportamento parecido [ao dos brasileiros]. Nós vemos situações em que homens, de várias nacionalidades, tentando forçar um beijo, tentando cercar a menina de todas as formas, ela diz não, e o cara fica insistindo”, denuncia Renata. “Isso é cultural, infelizmente, e de todas as culturas. Não é algo exclusivo dos brasileiros e nem de nenhuma nacionalidade". 

Renata afirma que as mulheres não vivem essa realidade machista apenas durante a Copa do Mundo, e que esses episódios são muito comuns a todas. 

Segundo ela, a perpetuação dessa cultura machista, em que o homem é visto como superior a mulher, é a responsável por permitir que eles se sintam confortáveis para invadir a situação de trabalho de uma mulher e beijá-la à força, por exemplo. 

“Toda mulher que gosta de futebol, que já foi no estádio, já passou por algum tipo de assédio. Isso é muito grave, muito constante e sempre foi levado como brincadeira”, critica a jornalista, que apesar de tudo, vê um avanço nessa discussão.

“Esses episódios não passam mais despercebidos. Sempre falamos, comentamos e gera revolta. E que bom. Tem muita gente que antes não enxergava problema algum e agora está enxergando, então que bom que estamos falando sobre isso. É o primeiro passo que temos que dar para combater esse tipo de problema. Precisamos parar de aceitar, de tratar como natural, de dar risada. Precisamos entender que isso é um problema grave”, complementa. “Que bom que agora estamos dando luz a esses casos, percebendo o problema. Acho que isso vai fazer com que não aconteça de novo. Pelo menos as pessoas vão pensar duas vezes antes de fazer”.

A profissional, que acumula passagens pela ESPN Brasil e BBC, comenta ainda que é a partir desse assédio diário que as mulheres perdem sua liberdade e tem suas vidas limitadas, pois precisam repensar as roupas que irão usar, por exemplo, para evitar serem vítimas de assédio ou abuso, quando são as próprias vítimas dessas violências.

Assédio nos estádios

Torcedora do São Paulo, a universitária Bruna Bandeira Botechia sempre foi assistir jogos no estádio com o pai quando criança, mas, a partir de sua adolescência, passou a frequentar as partidas apenas com sua irmã, e juntas, já foram assediadas diversas vezes. 

“Paramos o carro longe e vamos andando até o estádio, porque geralmente está tudo fechado. Nesse percurso, somos assediadas inúmeras vezes, como também somos assediadas indo pro metrô, indo pra faculdade e pro trabalho. São olhares, falas, assobios e coisas do tipo”, conta Bruna, que considera o mundo do esporte muito machista, principalmente o do futebol.         

Já dentro do estádio, a torcedora relata que as mulheres são praticamente ignoradas ou retratadas como acompanhantes de algum homem, nunca como uma pessoa que gosta e está ali para apreciar a partida e acompanhar seu time. “É como se aquelas mulheres não pertencessem àquele local, eles nos veem como um objeto. Dentro do estádio, existe uma coisa diferente. Não é que eles curtam que as mulheres estejam lá. É como se elas não fossem nada. É como se aquelas mulheres que estão no estádio pra torcer, estivessem lá pra acompanhar homens”, diz a são-paulina, que frequentemente tem sua opinião sobre futebol questionada apenas por ser mulher.

O mesmo sempre aconteceu com Renata Mendonça, que critica uma lógica ainda vigente de que o esporte, no geral, é voltado para os homens e mulheres que entendem ou se interessam sobre o assunto são exceções. 

“Passei a vida inteira rindo de pessoas que me questionavam quando sabiam que eu gostava de futebol: ‘O que é um impedimento?’, ‘Fala a escalação do seu time’, dando risada. Tudo isso era 'engraçado' e faz com que o preconceito seja naturalizado. Chegamos em uma situação, finalmente, que estamos reagindo a isso”, relata Renata. “Passamos a vida inteira assistindo programas de esporte, de futebol, mesa redonda, transmissão de jogo, e nunca nos questionamos porque não tinha uma mulher ali”, desaprova.

Violência cotidiana

Os casos de assédio contra jornalistas estão presentes não só no jornalismo esportivo, mas em todas as editorias. É o que explica o movimento Jornalistas Contra o Assédio, que registra e publica situações de machismo vividas por repórteres mulheres, redatoras e assessoras no exercício da profissão. A criação do grupo foi motivada pela demissão de uma repórter do portal IG após ter feito uma denuncia contra o cantor Biel, que a havia assediado. 

Na opinião de Janaina Garcia, que participa do movimento, os casos de assédio na profissão refletem décadas de uma cultura patriarcal e machista. Uma colega nossa da rádio CBN foi fazer uma pergunta a um deputado que tinha feito uma tatuagem em homenagem ao Temer e ele sugeriu que ela olhasse a tatuagem que ele tinha pelo corpo. Será que isso seria perguntado para um repórter homem? Claro que não”, enfatiza a jornalista, que relembra o caso de uma crônica publicada no jornal Correio Braziliense, de autoria do próprio editor do veículo, que naturalizou o assédio sexual contra uma estagiária. 

Mesmo com avanço nas discussões sobre gênero e assédio em toda a sociedade, Janaina avalia que, apesar das empresas e redações estarem atentas, muitas empresas ainda não tem canais de abertura para que as mulheres façam denúncias. “Acho que falta deixar o discurso um pouco de lado e tomar uma atitude, de fato. Fazer treinamentos, investir em qualificação das pessoas que trabalham nas empresas para que haja o entendimento que a questão de gênero é importante, inclusive para o convívio”. 

A jornalista sugere também que as próprias jornalistas se auto-organizem contra o assédio na profissão. “Uma mulher sozinha relatar uma situação de assédio é muito mais difícil, mas se ela se organizar com outras mulheres e buscar uma acolhida entre os seus, isso facilita. São passos que independentes dos canais de denúncia da empresa, as mulheres precisam se ligar disso. Juntas, nós somos mesmo mais fortes”.  

O machismo nas redações também se reflete nas escolhas das editorias. Segundo Janaína, as áreas de comportamento, meio ambiente e beleza, tradicionalmente são consideradas áreas de cobertura jornalística de mulheres. O inverso acontece com as áreas de jornalismo político e econômico, por exemplo, onde muitas jornalistas têm dificuldades para se inserir. 

Edição: Tayguara Ribeiro