EXPERIÊNCIA

Curso de especialização inicia projetos de intervenção em saúde popular

Ação integra especialização em promoção e vigilância em saúde e meio ambiente e trabalho realizado em Pernambuco

Brasil de Fato | REcife (PE)

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Curso acontece em Pernambuco, desde o final do ano passado. / Divulgação

Acontece em Pernambuco, desde o final do ano passado, uma experiência formativa de promoção em saúde e vigilância discutidos de forma transversal ao cotidiano das pessoas. É o Curso de Especialização em Promoção e Vigilância em Saúde Ambiente e Trabalho, que compartilha saberes entre pessoas vinculadas ao debate da saúde e do meio ambiente, e reúne militantes de movimentos e organizações populares, profissionais da área de saúde, estudantes e usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

O curso é uma realização da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares e da Escola Fiocruz de Governo da Gerência Regional de Brasília (EFG/Gereb/Fiocruz), em cooperação com o Instituto Aggeu Magalhães/Fiocruz Pernambuco (IAM/Fiocruz) e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz (EPSJV). Os módulos acontecem uma vez por mês na cidade de Caruaru, no Centro de Formação Paulo Freire. 

Augusto Cezar, médico e integrante da Rede de Médicos e Médicas Populares, explica que o curso segue até dezembro deste ano, com períodos de alternância, ou seja, um tempo educacional teórico e os tempos de imersão prática nos territórios, onde os educandos e educandas tem planejado em como intervir e propor caminhos que possam superar as condições de saúde nos seus territórios. Ele reforça que a proposta é fazer leituras da realidade, aliada a uma reflexão também sobre o campo democrático e interiorizar o processo de formação, popularizando os processos formativos, que geralmente estão centrados em capitais e centros urbanos. 

“Iniciamos o curso com o debate das ferramentas de análises da saúde de maneira mais ampla, discutimos Estado, territórios, a macrovisão no debate da saúde. E como casar os nossos debates setoriais de saúde com a reflexão do adoecimento das populações, como algo socialmente determinado de acordo com o que vivem os povos sem seus territórios”, pontua Augusto. 

Sobre esse processo de intervenção que está sendo planejado pelos educandos, Jorge Machado, médico sanitarista da Fiocruz e integrante da coordenação do curso, explica que “a proposta é fazer uma discussão dos processos de desterritorialização e dos problemas vivenciados, trazendo algum tipo de solução e das possibilidades de convivência com o território de forma a produzir soluções de redução de riscos e alternativas que produzam uma melhor qualidade de vida das pessoas daquele lugar”. 

A educadora popular Maria Claudia Custódio Xenofonte é de Ouricuri, o Sertão do Araripe de Pernambuco, e de início confessa que se perguntava se seria interessante fazer uma especialização na área de saúde, por conta da ideia construída socialmente sobre o papel da medicina na vida das pessoas. Mas logo com o início das aulas percebeu se tratar de uma perspectiva diferente. “Essa especialização tem sido, eu costumo dizer, algo bem inovador na minha vida enquanto feminista militante, enquanto mulher na região do Araripe”, diz. Claudia integra o Fórum de Mulheres do Araripe e em sua vivência, junto com outra educanda do território, percebeu, em seu projeto de intervenção, a necessidade de se fazer um trabalho com mulheres da região. 

“Percebemos que é alto o número de mulheres que fazem o uso de medicação. Elas vão aos consultórios médicos se queixando da dificuldade em dormir, muito cansadas, e já são receitadas a tomarem remédios. Assim, muitas se tornam dependentes dessa medicação. Algumas por reflexo da violência que sofrem dos parceiros”, explica. 

Ela, que também é educadora do Centro Nordestino de Medicina Popular (CNMP), percebeu que a reflexão e os aprendizados obtidos no curso de especialização, aliados a proposta de intervenção, poderiam ser uma forma de contribuir com seu território. “Diante desse contexto, pensamos em fazer algo para chegar nessas mulheres, conversar, tentar ajudá-las a enfrentar os desafios da vida, mas sem tomarem medicação desnecessária, pois muitas deixam de ter vida social por conta dos efeitos dos remédios, por isso ficam muito sonolentas, ficam sem tempo para sair. A proposta do projeto é ajudá-las a terem um outro olhar para a vida, a seguir pelo lazer, pela atividade física, com conversa com outras mulheres, integrá-las a atividades que contribuam com suas vidas, e animá-las a participarem do fórum”, explica. 

Edição: Monyse Ravenna