DIVERSIDADE

Fenearte traz legado dos mestres do artesanato e da cultura pernambucana

Feira de artesãos e artesãs de Pernambuco e outros estados se despede nesse domingo (15)

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Mestre José Lopes da Silva, aos 68 anos, é reconhecido como patrimônio vivo da cultura pernambucana / Vinícius Sobreira

A já tradicional feira de artesanato de Pernambuco, a Fenearte, se encerra nesse domingo (15). O evento, que ocorre desde 2000, homenageou em sua 19ª edição o legado do Mestre Salustiano para a arte e cultura popular do estado. A feira teve início no dia 4 de julho e reúne centenas de artesãos e feirantes, oriundos do sertão ao litoral, com muitos povos indígenas e stands internacionais, trazendo grande variedade de produtos, da tapeçaria à gastronomia, do barro ao couro. Os ingressos custam R$5 (meia) e R$10 (inteira).

A família Salustiano, herdeira do Mestre homenageado, também tem seu espaço para mostrar e vender sua arte. Em conversa com o Brasil de Fato, Imaculada Salustiano, filha do Mestre, se disse feliz pela homenagem na feira internacional. “Para nós é como um presente. É muito importante saber que Salú permanece vivo não só nos corações dos filhos, mas nos admiradores de seu trabalho e do seu legado para a cultura popular de Pernambuco”, afirma. E no stand está disponível para venda uma coletânea com os quatro discos do mestre: do “Sonho da Rabeca” (1998) ao “Rabeca Encantada (2006). Os quatro discos são vendidos conjuntamente por R$50.

Mas seu legado vai para além da música. Mestre Salustiano, nascido em Aliança, zona da mata norte do estado, aprendeu com seu pai não só a tocar, mas a produzir rabecas, talhando-as na imburana, na praíba, no mulungu, pinho e no cadreiro – que, segundo ele, eram as madeiras que davam melhor sonoridade. Sempre gostou de brincar nos folguedos populares e era um apaixonado pelo Cavalo Marinho. No stand podemos encontrar rabecas decorativas esculpidas por Dinda Salú e Cleiton Salú, no preço de R$250. Mas também as rabecas de tocar, por preços entre R$500 e R$1.000 – os compradores ganham 5 aulas com Dinda, na Casa da Rabeca, em Olinda.



Estão à venda também adereços do Cavalo Marinho. “Trouxemos para a feira os chapéus do galante, do Capitão Marinho, porque é um objeto que merece destaque, já que era a paixão de Salú”, afirma Imaculada. A peça, em diferentes opções de cores, custa R$150. Estandartes decorativos também estão à venda. Falecido em 2008, Mestre Salustiano foi também fundador do Maracatu Piaba de Ouro, em 1997. Estão disponíveis ainda camisas com a imagem do mestre, além de uma grife do filho e também artista Maciel Salú. Um outro filho, Manoelzinho, pinta quadros e os borda com lantejoulas. As peças variam entre R$2 mil e R$3 mil.

Mas a Fenearte tem também outros mestres. Um deles é Eronildo José Carlos Honorato, ou simplesmente “Mestre Nido”. Cortador de cana em Sirinhaém, no litoral sul, Nido descobriu seu talento para esculpir madeira quase que “por acaso”, ao se desafiar, quando tinha apenas 21 anos. “A usina em que eu trabalhava foi vendida e fiquei desempregado. Nesse tempo, fui tomar um banho de mar em Porto de Galinhas e, no caminho, a van passou ao lado de peças esculpidas em madeira, à venda na beira da pista. Eu coloquei na cabeça que poderia fazer melhor que aquelas”, lembra Nido. Ele nunca havia trabalhado com madeira.

De volta para casa, começou a esculpir num tronco de coqueiro. Após uma semana, tinha pronta uma coruja. “Mas o pessoal falava que coruja dava azar. E minha mãe botou fogo na minha escultura. Fiquei muito triste. Pensei ter descoberto um talento interessante, mas ela colocou fogo”, lembra. Passou quase 3 meses “de luto”, mas voltou a esculpir. Desta vez escolheu uma ave que alimentasse menos desconfiança: um papagaio. A peça fez sucesso. Depois vieram uma arara, uma cobra e, o divisor de águas, um macaco. “Quando vi ele pronto, senti que poderia esculpir qualquer coisa que quisesse”. E já se passaram 18 anos.

E a usina de cana de açúcar em que Nido trabalhava – antes de descobrir seu talento – pertencia a Ricardo Brennand, dono do museu mais visitado do estado. “Quando ele vendeu a usina, descobri a arte e anos depois nos encontramos novamente, mas ele como colecionador e eu como artista”, relata Mestre Nido. “Esse é o resultado da persistência. Na minha cidade ninguém trabalhava com isso e eu decidi começar ‘na tora’. Não é fácil viver da arte”, conta.



Seu stand chama atenção pelo vaqueiro de mais de 2 metros de altura, esculpido num tronco de jaqueira. “Sempre coloco a madeira em pé para ficar olhando para ela e pensando o que vou fazer nela. Passei dois anos só estudando ela, para então começar. Depois foram 8 meses de trabalho”, conta. Mas ele também vende peças menores, como araras e galos de campina, a partir de R$12. Os tubarões em madeira estão por R$75.

Também estão na feira o Artesanato Cana Brava, grupo de 10 mulheres de famílias de pescadores da região de Ponta de Pedras, em Goiana, e que trabalham com a fibra da cana brava, plantada na própria região – e que é mais resistente que a cana de açúcar. Adélia Tavares, uma das integrantes do grupo, conta que a técnica existe há gerações, mas só em 2001 conseguiram se organizar para fortalecer a produção de cestas. “O Sebrae procurou as esposas dos pescadores para nos qualificar no trabalho da cestaria cana brava. A partir daí surgiu esse mercado. Já produzimos para exportação, ainda vendemos para muitos lugares e já fomos até premiadas”, conta Tavares, orgulhosa. “Hoje a renda já ajuda muito em casa, já que renda da pesca é pouca”, esclarece.

Entre seus produtos, os mais caros são as luminárias, que chegam a R$250. Mas cestos de torradas custam R$10. Com o crescimento da produção, viram a necessidade de trabalhar com forros para alguns produtos. Numa parceria com estudantes de design da UFPE contratados pelo Sebrae. “E para além dos forros, surgiram ideias como jogo americano, mochila de costas. E tivemos capacitação em serigrafia para produzirmos. Hoje tudo isso é feito lá na nossa comunidade”. Estojos estão a partir dos R$8.



E para quem busca brinquedos para os pequenos, importante passar no stand do Mestre Zé Lopes. Aos 68 anos, José Lopes da Silva é reconhecido como patrimônio vivo da cultura pernambucana e trabalha com mamulengos desde os 10 anos de idade. “Meu pai faleceu quando eu tinha 4 anos. E minha mãe fazia bolos para vender nas festas de cavalo marinho e mamulengos, sempre me levando. Foi quando me apaixonei pelos mamulengos e comecei a fazer”, lembra Zé Lopes. Hoje produz com esposa e filhos.

Ele se diz um privilegiado. “Tive a sorte de nascer no celeiro do mamulengo, com vários mestres que chegavam de Vitória de Santo Antão para brincar na cidade, como Luiz da Serra, Severino da Cocada, Zé Grande, Toinho de Ló, João Nazário e outros. Me criei vendo e ouvindo grandes mestres”, agradece. Perguntado sobre seus primeiros personagens, ele conta ter começado “pelo começo”. Aos leigos, como este que escreve, Zé Lopes explica: “Mateus e Catirina, Simão e o Polícia”. Ele diz não ter favoritos e, como bom pai, gosta de todos os que nasceram pelas suas mãos. “Simão, Quitéria, Carolina, Clotilde, Lampião e Maria Bonita e todos os outros, gosto de todos”. Os personagens estão sendo vendidos a partir de R$15 e alguns podem chegar aos R$200.

Além dos stands locais, a Fenearte tem ainda corredores com stands com arte oriunda de outros estados e até de outros países, além da diversidade do artesanato e da arte indígena de Pernambuco.



Edição: Catarina de Angola