Economia

Empreendedoras da periferia ocupam espaço público no centro de Curitiba

Mulheres incentivam o consumo de moda com responsabilidade ambiental

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Cada etapa da Coletiva Brechó foi pensada com cuidado, incluindo a escolha do espaço a ser tomado pelas mulheres / Leila de Paula

A Coletiva Brechó reuniu no último sábado (14) seis empreendedoras da periferia de Curitiba e Região Metropolitana que atuam com moda para incentivar o consumo de roupas e acessórios sustentáveis e com preço justo. De diferentes bairros, as jovens mulheres comandam seus próprios brechós - o Descabida, Bazar Amassado, Kombrexó, Lumos Brechó, Coletivo Flor Carnívora e Brechó Kaw Black -, onlines ou físicos, e se deslocaram até o centro para fortalecer suas causas sociais e disputar a economia central da cidade.

Auto-organizado, o evento reuniu um coletivo mulheres “negras, da periferia ou gordas que trabalhassem também com roupas para gordas”, explica Thayná Batista, uma das articuladoras, que afirma que atuar em causas sustentáveis não se limita a questões ambientais diretas, como reutilizar um produto. Ela acredita que promover o trabalho de meninas que estão à margem da sociedade também é uma forma de agir em prol da causa. “Aqui, nesse espaço, elas podem vender seus produtos e disputar com um modelo mercadológico fechado, que são os grandes centros”, esclarece.

Chochilo, do Bazar Amassado, por exemplo, costura e garimpa roupas para mulheres gordas, além de fazer editoriais de moda como forma de reconhecimento. “Você precisa saber quem você é e respeitar o seu corpo, sem ter que mudar para poder consumir produtos da indústria da moda, que te forçam muitas vezes a não aceitação”, pontua. O garimpo começou em 2008 e a costura foi uma consequência por não encontrar itens de moda em tamanho de corpos reais.

Para a jovem, o ato de se vestir é uma forma de empoderamento de mulheres que estão à margem da sociedade e fortalece a auto-estima. “As meninas gordas são cobradas para estarem sempre bonitas e a maneira de se vestir influencia em como você é tratada pela sociedade. Vestir uma roupa não é futilidade, pois é com ela que nos deslocamos e pertencemos aos espaços”, sinaliza.

Cada etapa da Coletiva Brechó foi pensada com cuidado, incluindo a escolha do espaço a ser tomado pelas mulheres. A praça de Bolso do Ciclista, localizada no centro histórico, é um símbolo de ocupação do espaço urbano e teve sua revitalização marcada pelo envolvimento de ativistas e sociedade.

A discotecagem também foi cuidada desde a representatividade pela DJ Dani Black: "É uma preta sapatão que compartilha das mesmas pautas que a gente, e que traz uma playlist de acordo com o que a gente acredita. Era música de travesti, gente preta, muita música de mulher", explica Thayná. 

Fonte de renda

Algumas das jovens têm no brechó sua mensagem política, mas também a fonte de renda familiar. Com a venda, elas se deslocam para terminais de ônibus, praças e pontos centrais para fazer a entrega dos produtos. Kaoane Sclukebier, de 17 anos, é a mais jovem de todas as empreendedoras e percorreu a maior distância para participar da coletiva. Trouxe de Fazenda Rio Grande, cerca de 32 km de distância de Curitiba, boa parte do acervo do seu brechó online Kaw Black, que nasceu há um ano.  “Criei como fonte de renda, porque minha mãe não podia tirar do sustento dos meus três irmãos para eu continuar dançando”, conta. Para ela, o empreendedorismo ultrapassou a fonte de renda, possibilitou novas percepções sociais e políticas.

O Kombrexó, da militante Maria Gabrielly Dantas, participa de coletivos, feiras e está presente também em diversos movimentos sociais. Para a jovem, ser mulher, empreendedora e negra em um país com tamanha herança escravocrata também é uma forma de resistência.

“A função do negro era servir e quando nós assumimos esse papel [empreendedor], nós temos a economia girando dentro da nossa comunidade e não só na elite branca”. A jovem de 20 anos argumenta que há facilidades em empreender no meio sustentável, especialmente por meio dos brechós e denuncia ainda a indústria da moda como uma das mais poluentes do mundo. “A gente precisa ter a consciência que o social conversa com o ambiental. Então, se a gente quer um mundo melhor político, a gente tem que buscar o mesmo para o meio ambiente”, pontua.

 

Edição: Laís Melo