Entrevista

Especial | Participação popular é inovação na construção de usina híbrida

Integrante do MAB explica metodologia do projeto. O povo vai participar desde a construção até as pesquisas

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Aline Ruas: "Inovação tecnológica não é só ligada à engenharia" / Foto: Willian Dias/ALMG

As placas fotovoltaicas prometem ser inovadoras do ponto de vista tecnológico e, também, do ponto de vista social. Aline Ruas, integrante da coordenação do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), reside em uma das cidades que irão receber o projeto. A tarefa dela será ajudar a organizar todas as 4.450 pessoas que vão participar diretamente da construção e administração das placas.

Para Aline, um dos maiores ganhos será a organização popular. Isso significa criar uma rede de pessoas que consigam desenvolver uma tecnologia energética que sirva à população, e não às empresas. A essa organização social Aline dá o nome de “inovação tecnológica popular”.

Brasil de Fato - Por que este projeto é inovador do ponto de vista social?



Aline Ruas - A primeira coisa é entender que inovação tecnológica não é só ligada à engenharia. No projeto, existe a parte da inovação na produção de energia, mas também a parte da inovação da participação popular. O povo vai participar desde a construção da usina até as pesquisas. O objetivo é que o povo se capacite e também use seu conhecimento para pensar um plano de desenvolvimento social, o diagnóstico social e a construção da usina.

É mesmo possível desenvolver tecnologia fora dos laboratórios e universidades?



Esse é um dos mitos que queremos quebrar. Não vamos produzir sozinhos, mas junto com pesquisadores. Dentro da equipe temos o povo atingido, jovens, professores, pesquisadora e estudantes de mestrado. Usamos um método que não faz essa separação “povo versus universidade”, mas sim junta os dois lados.

Quais podem ser as diferenças de um projeto feito junto com a população?



O plano do Estado de Minas Gerais não foi pensado a partir da participação do povo. Temos aqui [norte de Minas] a monocultura de eucalipto, mineração, construção de hidrelétrica e grandes projetos de irrigação que não partiram da necessidade da população. São projetos que sugam os bens naturais e retiram o povo daqui, que vai buscar trabalho em outras regiões. Não trouxeram melhoria de vida. Pelo contrário. Nós temos o menor IDH, o maior analfabetismo, não temos acesso à água, à energia. Agora, o povo vai poder construir uma usina que seja exemplo para o Brasil todo. 



Saiba quem vai participar



O projeto Sol e Lares irá englobar pessoas de 21 cidades. Nelas, serão organizados 125 grupos de base, com 250 coordenadores, envolvendo 1.250 famílias. Serão 4.450 pessoas envolvidas diretamente. Os critérios para escolher os participantes ainda serão definidos, junto com as famílias que receberão o projeto. O MAB considera que qualquer pessoa pode ser escolhida, visto que toda a população brasileira é atingida pelo atual modelo energético.

População do semiárido vai pensar seu próprio desenvolvimento



A região apresenta uma vasta diversidade ambiental e cultural, que apontam um potencial alto de desenvolvimento social e econômico. Parte do projeto “Veredas Sol e Lares” prevê a elaboração de um Plano de Desenvolvimento regional, principalmente para os 21 municípios participantes do projeto. 

O plano será uma parceria entre a Aedas e o Observatório dos Vales e do Semiárido Mineiro – UFVJM, conforme explica a pesquisadora Aline Weber Sulzbacher. “Vamos fazer um diagnóstico regional com a participação dos moradores, que chamamos de pesquisadores populares, e identificar o potencial de desenvolvimento da região”, explica. 

Até a metade de 2019 serão realizados momentos de capacitação com as famílias envolvidas, principalmente os jovens. Um dos objetivos é mapear possíveis projetos produtivos, pontos frágeis na educação, saúde e outros. A expectativa é que os envolvidos elaborem propostas práticas para os governos federal, estadual e regional para investimentos em cada umas das questões identificadas. “Essa é uma inovação teórico-metodológica; vamos pensar o desenvolvimento a partir da própria população”, comemora Aline. (Com informações de Maíra Gomes)

Edição: Joana Tavares