Novos Olhares

Artigo | Sobre a construção de novas narrativas: A representação da mulher negra

Queremos nos ver vivas, felizes, nos atos do cotidiano, dando e recebendo afeto, em novas possibilidades de imagens

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Frame de curta-metragem em pós-produção dirigido por Bea Gerolin e Kariny Martins / Reprodução

Esse mês, no dia 25 de julho, comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha e é necessário perceber e celebrar os avanços que nos acompanham, resultados de muita luta e enfrentamento. Constrói-se, nesse momento, pelas quebradas, universidades e campos, outras e novas narrativas sobre o que é ser uma mulher negra.

Desde pequena, nós – e aqui utilizo a primeira pessoa do plural, porque nós, mulheres negras, somos seres individuais, porém temos questões em comum que nos colocam no lugar de coletividade – aprendemos que o negro é feio, que nossa pele é escura demais, nosso nariz largo demais, nosso cabelo crespo demais, nossa boca grande demais.

Passamos por vários processos dolorosos na tentativa de sermos aceitas socialmente, como alisar os cabelos, usar maquiagens mais claras, afinar o nariz… A nós não foi – e não é – dada a possibilidade de exercemos esse corpo negro, esse corpo que nos pertence, na sociedade.

A representação da mulher negra nas novelas e cinema contribui para o aprisionamento desse corpo. Estamos sempre sendo representadas através dos estereótipos: as empregadas domésticas (e não há problema nenhum com a profissão de doméstica, o problema está em sempre serem, apenas, mulheres negras nesses papéis); prostitutas ou amantes, com seus corpos hipersexualizados; mães solteiras que abrem mão da própria vida para cuidar da família; mulheres escravizadas. E ainda, para minar a auto estima das meninas e mulheres negras, personagens que são um verdadeiro desserviço para meninas e mulheres negras, retratadas como feias, burras e pobres.

Somos mulheres historicamente condicionadas pelo olhar do outro: primeiro, aparecem apenas as pessoas brancas na tela. Depois, os brancos começam a nos olhar, com esse olhar de fora, do exótico, do desconhecido, caindo facilmente no estereótipo. É preciso que uma mulher negra conte sua história, de seu ponto de vista. Estamos cansadas de ser retratadas como uma imagem que confirma o racismo e o patriarcado. Na disputa pela narrativa, é preciso mapear esses estereótipos, entendê-los como tática da estrutura racista, para então subvertê-los, descartar esse tipo de representação, criar e principalmente pautar nas telas as experiências que já são vividas faz muito tempo.

Eu quero ver filmes e novelas onde mulheres negras não existam apenas para que outra personagem seja racista com elas, ou onde sejam retratadas de modo subalterno, ou onde sejam apenas um corpo pejorativamente exotizado. O que nossas crianças pensam e sentem ao ver essas imagens? Como nos tocam e tiram a potência do que podemos ser?

Queremos nos ver vivas, felizes, nos atos do cotidiano, dando e recebendo afeto, e essas novas possibilidades de imagens e existências estão sendo construídas por mulheres negras nesse momento.

Seguem links pra saber o que as diretoras negras de cinema estão fazendo:

http://blogueirasnegras.org/2016/07/29/mulheres-negras-no-cinema-brasileiro-olhares-linguagens-e-afeto/

http://mulhernocinema.com/tag/mulheres-negras/

http://mulheresnegrasavbr.com/index.html

Edição: Redação