SAÚDE

Setor de saúde do MST evita fármacos e aposta em saberes populares

A Marcha “Lula livre, Lula inocente” foi uma grande vivência dos saberes populares e cuidados naturais

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Dentro do movimento há um setor de saúde que foi responsável pelos cuidados na Marcha realizada entre 16 e 20 de julho / PH Reinaux

Escalda pés de camomila e cravo para ativar a circulação, tintura de eucalipto para revigorar as energias e tratamento com ventosas para aliviar as dores musculares. A Marcha “Lula livre, Lula inocente” foi uma grande vivência dos saberes populares e cuidados naturais relacionados à saúde. Os marchantes que caminharam cerca 120 quilômetros, de Caruaru à Recife, estavam bem amparados por médicos e profissionais de psicologia, enfermagem, educação física, fisioterapia, odontologia, serviço social, medicina veterinária, técnicos de enfermagem e, principalmente, por educadores populares em saúde

Não é novidade a preocupação do MST com o bem-estar dos seus integrantes. Dentro do movimento há um setor de saúde que foi justamente o responsável pelo espaço de cuidados na atividade ocorrida na semana – de 16 a 20 de julho. Cinco médicos da Rede de Médicos e Médicas Populares e cerca de 12 profissionais das diversas especialidades deram suporte a Marcha.

Geralmente, os dirigentes de cada regional do movimento indicam pessoas que fazem parte do setor de saúde e que são referências em manipulação de ervas para o tratamento de doenças. Esse processo é o mais importante, pois o objetivo dos cuidados é também se distanciar do uso de medicamentos alopáticos, quando estes não são necessários.

Havia duas brigadas, chamadas de Josué de Castro e Maria Aragão, cada uma com cerca de seis educadores profissionais que se revezavam entre acompanhar o percurso dando suporte e seguir para o próximo destino da Marcha onde seriam recebidos os caminhantes.

A educadora popular em saúde do MST, Karoline Keuly, 22, falou da diferença de apenas receitar um remédio e cuidar do paciente. “Acho que o mais importante deles virem (ao espaço de saúde) é porque a gente transmite o carinho e as pessoas recebem, saem até bem mais satisfeitas do que se a gente fosse receitar um remédio farmacêutico para dor muscular. Então essa troca de carinho incentiva as pessoas a seguirem em marcha”.

Militante da Pastoral da Juventude Rural (PJR), Mariana Oliveira, 21, experimentou vários tratamentos. “No quarto dia meu pé inchou muito e eu senti muitas dores pelo corpo todo. Ontem o rapaz deixou de jantar para cuidar de mim, fez massagem, aplicou a auriculoterapia). Foi muito bom!”.

Mariana chegou a passar parte do percurso dentro do ônibus da saúde que ficava ao fim das filas de marchantes e funcionava como uma espécie de pronto socorro móvel.

Diferente da logística de um hospital, posto de saúde ou de uma clínica, o espaço itinerante de saúde era estruturado de acordo com os locais de alojamento. Os materiais eram carregados de um lugar a outro, recolhidos e reorganizados de acordo com o possível e, caso algo não funcionasse bem, as brigadas faziam reuniões de emergência além dos encontros matinais nos cinco dias.



O psicólogo e residente em Saúde da Família com Ênfase no Campo, Wellintgton Oliveira, 22, contou que não tinha contato remédios fitoterápicos até o primeiro dia na Marcha. “Eu não sabia como utilizar e, enquanto psicólogo, estou pegando saberes das pessoas que vieram dos assentamentos e conhecem de ervas. Uma troca e construção mesmo”.

A desproporcionalidade entre o número de marchantes e de cuidadores deu margem para o ensinamento do autocuidado. Houve momentos em que era impossível atender a todos que estavam com dor e os caminhantes fizeram massagens uns nos outros sob a orientação dos profissionais.

De acordo a médica Andreia Campigotto, 33,  da Rede de Médicos e Médicas Populares, a escala dos médicos foi definida de acordo com o expediente de trabalho de cada um. “Para além de tudo foi um momento de intercâmbio de experiências e cuidados, onde a gente pôde fazer a junção do que é o saber popular e a ciência”, afirmou.

Andreia prestou atendimento em duas paradas da caminhada, em Vitória de Santo Antão e Moreno, e explicou que os maiores responsáveis pelas demandas de saúde após a caminhada eram a falta de protetor solar e uso de sapatos inadequados para a atividade. “As principais queixas eram de cansaço físico, presença de muitas bolhas nos pés devido aos calçados, algumas poucas queimaduras de primeiro grau. Também doenças crônicas descompensadas pela falta da medicação rotineira, como picos hipertensivos”.

Integrante do MST há 18 anos, Sandra Mª Nogueira, 37, mora no Assentamento Virgulino Ferreira em Serra Talhada. “Marcha é algo que requer uma organização bem maior e o movimento tem se dado conta disso. Mesmo tendo todo esse tempo no MST, é a primeira vez que participo de uma caminhada e há um cansaço, dor no calcanhar e joelho. Fui atendida com escalda-pés e massagem”, contou após o trecho de Vitória de Santo Antão a Moreno.

Edição: Monyse Ravena